sábado, 13 de outubro de 2007

O TRAUMATOLOGISTA [Ana Coutinho]


Tinha ouvido dizer de uma especialidade médica chamada Traumatologista. Eu, particularmente, não tinha bem certeza do que era e resolvi pequisar. Tive surpresas e cheguei à conclusão de que o traumatologista, embora não muito conhecido, é fundamental para a nossa saúde física.

Pra quem não sabe, o traumatologista é procurado caso o paciente tenha tido alguma injúria sobre o corpo. Ou logo depois de um acidente, seja ele com objeto cortante ou uma batida de carro, ou acidentes domésticos, enfim. Se o negócio tá feio, e se é urgente, procure um traumatologista. E procure rápido. A função dele, pelo que entendi, é dar um jeito no problema emergencial. Que me perdoem os traumatologistas que me lêem, mas entendi que eles estão aí pra resolver o problema do paciente. Deixá-lo diretinho e inteiro para um próximo tratamento. É como se fosse “dar um tapa no visu”, mais popularmente falando.

Pois bem. Isso posto, quero dizer que nem só quem tem problemas físicos precisa dele. Tenho descoberto pessoas, principalmente mulheres, que estão à procura de namorados traumatologistas. Não, não precisa ter estudado medicina, não. Nem precisa ter estudado nada específico. Mas precisa agir, e logo.

O namorado traumatologista vem logo depois de um acidente também, mas um acidente sentimental. Uma injúria de fato, mas não sobre o corpo especificamente: ele tem de vir depois de uma injúria sentimental. Essas que se dão sobre os sonhos, sobre o que foi desejado e – arduamente – tentado, mas, por alguma razão, não funcionou, e daí restou o trauma.

Ah! quantas pessoas sofrem de amor, morrem de amor e, em seguida, precisariam ir urgentemente para um pronto-socorro tamanha a dor e as mazelas que trazem um amor não correspondido. Quantas não se sentem com o órgão exposto, precisam de uma cirurgia, precisam de uns pontos para fechar o que foi aberto, quantas não se sentem sangrando e não sabem o que fazer para estancar a hemorragia. É, é dramático assim quando se termina um relacionamento.

E, pra se recompor, dizem que só outro amor. Eu discordo. Não precisa ser necessariamente um amor, mas precisa ser um traumatologista.

Um namorado com essa especilidade vai te mostrar que existe vida depois da morte. Um namorado traumatologista te faz ver que, sim, existem outros homens no mundo, sim, você pode ser gostada, desejada, amada inclusive. Um namorado traumatologista serve pra te ensinar que você é perfeitamente capaz de tirar a roupa pra outra pessoa, e mais, é capaz de adorar isso.

O namorado traumatologista, normalmente, não fica muito. Ele vem pra pagar a conta. Não a do restaurante, mas a conta que ficou do caos de um relacionamento acabado. Ele vem pra te deixar diretinho para a vida, pôr (ou tirar) as ataduras, fechar de vez as cicatrizes, pôr de volta no corpo os ossos que restaram, empurrar para dentro o baço, recolocar o ombro no lugar, inserir uns pinos no joelho e, por fim, costurar - definitivamente - o peito que estava dilacerado...

Às vezes a gente erra. E prossegue com o traumatologista depois de ter recuperado a saúde sentimental. Não deve ser assim. O traumatologista tem um tempo fim, uma data de validade, exatamente como um vidro de requeijão. Se passar do tempo, a relação começa a ficar esquisita. Você nota que já está saudável, que ele não era bem como você pensava, começa a perceber que, talvez, vocês nem tenham muito a ver um com o outro. É, não têm mesmo, vocês só se encontraram pra curar o trauma, não se engane.

E, depois disso feito, é como se você recebesse alta. O traumatologista, coitado, não entende porque você não precisa mais dele, mas aceita e, cedo ou tarde, se vai. Você vai tatear um pouco, dar um passo, talvez cair uma vez, mas, na segunda tentativa, já sentirá as pernas mais firmes e vai arriscar andar sem apoios.

As cicatrizes, essas ficam pra sempre. Talvez os pontos até soltem num momento de carência. Mas, se o traumatologista for bom, pode saber: você sai dessa inteira e logo, logo, já está por aí, se arriscando de novo.

Imagem: Geisa Cruvinel
Doce Rotina

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3 comentários:

padma wangmo- disse...

Traumatologistas não são qualquer um!!! Tem que muuuito bom no que faz, sensível e de rápido raciocínio, perspicácia, são salva-vidas afinal. Viva os traumatologistas!!! Ameeei!!!!!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Muito boa e engenhosa! Só pra complementar: essa não é uma especialidade masculina. Há boas namoradas traumatologistas por aí. :)

CrisEbecken disse...

Que combinação deliciosa entre palavras! A Ela do encontro de desencontros bem combina com um traumatologista! Amei o texto!