quarta-feira, 17 de outubro de 2007

BATUQUES >> Carla Dias >>

Eu vivo em um universo interessante... Passo meus dias, uma jornada de onze horas, ouvindo música. Na verdade, ouvindo aulas de bateria. Dez dessas horas todas eu fico de cara com o computador, redigindo propostas, atualizando o site, fazendo contatos de produção, respondendo mensagens de e-mail enviadas por interessados no curso de bateria e tirando dúvidas sobre o festival que realizamos desde 1996.

Este é meu diariamente... Minha rotina é musical por fora e extremamente burocrática por dentro. Às vezes, sinto vontade de abandonar o posto de produtora e assumir as baquetas, o que foi, durante os anos 90, meu fazer principal. Hoje sou mais produtora do que baterista, e me orgulho disso, apesar de a bateria ser meu afeto maior e eu ter esperança de, dia desses, voltar a me dedicar a ela como fazia no início de tudo. Orgulho-me porque as produções nas quais trabalhamos colaboram para que músicos excepcionais possam mostrar sua música. Porque o festival já impulsionou várias carreiras e ofereceu àqueles sem condições de ter um bom equipamento, por exemplo, a oportunidade de ganharem um instrumento de qualidade.

No meu diariamente, também lido com pessoas e seus sonhos. Ouço muitas histórias parecidas com a minha e outras completamente diferentes. Vislumbro o processo de aprendizado de talentos que, bem sei, em breve farão diferença no cenário musical. Isso me deixa feliz, porque uma das coisas que me endoidecem é a arte desfigurada que muitos são obrigados a engolir por falta de formação do artista ou mesmo da ciência de que existem outras opções.

Neste universo ao qual pertenço, as pessoas fazem por merecer. Não é assim no cenário geral, pois o mundo é formado por pessoas diferentes. Porém, quem passa por aqui sabe que prezamos pelo caráter e também pela disponibilidade em despertar o melhor de si.

Também aqui tive a oportunidade de não só conhecer, mas interagir com muitos dos meus ídolos. Ouvi muitas histórias, tive boas conversas com a maioria deles. Presenciei performances fantásticas e o prazer no olhar daqueles que se achegavam para aplaudi-los. Um desses ídolos, além de baterista talentoso de tudo, tem bacharelado em literatura. Lembro-me de que ele foi o único estrangeiro com quem conversei durante muito tempo sobre a vida e a música e a literatura, sem me preocupar com meu parco inglês.

A música instrumental é predominante nesse meu canto. Querem conhecer um pouquinho? Porque bateristas lançam discos não só com bateria (a grande dúvida!). Além de acompanharem grandes músicos, na sua maioria, também são compositores e exercem essa função com maestria. E seus discos são fantásticos.

Dave Weckl Band


No quintal desse meu universo é que florescem meus escritos. Já rabisquei muitos poemas na hora do almoço, ou mesmo durante o trabalho, quando a urgência exigia. Já usei da minha poesia para dizer o que desejava em projetos comerciais. Já misturei as estações, porque quem lida com arte, ainda que de forma burocrática, não resiste à mixagem da teoria com a prática... Ou seria a evolução da teoria para a prática?

Vera Figueiredo


Minha paixão pela música vai além do simples gostar. Através dela, aprendi a ser uma pessoa mais sociável, apesar de ainda dever muito à classe. Continuasse eu a me aprofundar nos meus escritos sem essa ferramenta que é a música, talvez não estivesse aqui, dividindo pensamentos e desejos com vocês, mas sim enfiada em algum porão emocional, vivendo a vida somente através da vontade de vivê-la, já que no começo de tudo, no início de mim, escrever era a mais pura necessidade de estar onde ninguém mais estava. Hoje, é me esparramar pelas possibilidades oferecidas pela vida e brindá-la com os amigos.

Graças à música, sou um bicho-do-mato menos ranzinza e, sempre que me dá um clique, saio para ver o mundo... E batuco minha felicidade.

Imagem 1 >> Thiago Figueiredo
Imagem 2 >> Mônica Côrtes


www.carladias.com

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Gosto muito do batuque de suas idéias no teclado. :)

cristina carneiro disse...

É, Carla,
As coisas passam, a gente nem se dá conta, e as ausências ficam cravadas.
Bom batuque.
Beijo,