terça-feira, 23 de outubro de 2007

O DIA SEGUINTE >> Maurício Cintrão

No dia seguinte tudo é exeqüível, até o empréstimo inviável, o emprego improvável e o amor impossível. Ficamos mais medrosos do que um dia antes, até porque estamos um dia depois de sustos vencidos. Amanhã teremos as lembranças dos arrepios de hoje. Os riscos da semana que vem se aproximam. Os gostos de alguns dias atrás se repetem. E a vida ganha cores que seriam imprevisíveis há um mês.

A vitória é muito mais divertida no dia seguinte. Até porque a gente lembra dos detalhes e pode vibrar em retrospectiva. A despedida parece mais dolorida. E o choro contido pode soltar o freio. O pé na bunda incomoda muito mais. O chifre cresce, o hematoma fica mais roxo e a dor nas costas piora. A distância de um dia torna o acidente mais violento (ou mais real). É no dia seguinte que a gente raciocina: nossa, eu podia ter morrido.

Hoje é o dia seguinte enquanto não se configuram as variáveis que tornam o presente um passado que merece ser lembrado (ou esquecido). O caso fortuito pode ganhar corpo ou virar um número. A mulher interessante pode ficar feia. O cara sarado pode não ser nada daquilo. E a ressaca do dia seguinte higieniza até a mais louca das paixões. O projeto que parecia perfeito revela defeitos. O corte de cabelo não ficou tão bom assim. E o dedo machucado às vezes infecciona.

É no dia seguinte que escolhemos as bandeiras que serão carregadas pelos próximos dias seguintes, até que os dias ou as bandeiras se acabem. Ou quem carrega encontre coisa melhor para fazer. Mesmo assim haverá um dia seguinte, com ou sem bandeiras. Ideologias, seitas e magias ficam diferentes no dia seguinte.

A benemerência, o heroísmo e o voluntariado podem ser imediatos. Mas adquirem sentido diferente nos dias seguintes. Pode não haver ontem nem hoje nas ações elogiáveis, mas é garantido o amanhã na lembrança inevitável do dia seguinte. Vergonhas, mágoas e arrependimentos revigoram-se um dia depois. E as histórias e versões se multiplicam porque o acontecimento foi ontem e hoje é o dia seguinte.

O dia seguinte é o hoje que acorda de pijama, amanhã.

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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Genial, Maurício! Valeu esperar pelo dia seguinte pra ler sua crônica. :)