quarta-feira, 10 de outubro de 2007

A IDADE DO TEMPO >> Carla Dias >>

Na correria diária da vida que escolhi viver até aqui. Até aqui, mas vai saber a partir dali o que será da minha pessoa. Na verdade, pouco me preocupa se serei feliz ou triste, contanto que possa experimentar sentimentos; que não se esvazie meu dentro a ponto de tornar-se um lago estéril.

Na minha cabeça pipocam pensamentos metidos a ser sonhos. Então, sonho a arquitetura do silêncio, enquanto quadro negro para a história a ser vivida. E assim as cenas se formam. Nada nelas lembra a perfeição desabrochada dos olhares rigorosos... Estão mais para a sonsice dos olhares esfomeados pelas diferenças que tão bem combinam com o inovador.

Não caminho pela cidade como quem colhe tempo. Vou esvoaçando fiapos dele, cultivando passos, contando caracóis dos cabelos do moleque de sorriso lindo e despreocupado. Em segundos, então minutos, vou me aproximando das horas. E faço de conta que nunca conheci calendário. Assim, até mesmo os dias parecem mais longos, mas de um espreguiçar a doçura dos gestos e a vivacidade das cores.

O mais sedutor de se brincar de tempo como ando fazendo, é que assim tudo cabe num piscar de olhos. E um piscar de olhos cabe em qualquer tempo. Há uma afinidade verdadeira entre o que vivo e o que se esparge nos meus devaneios.

O que vivo tem gosto de busca incessante. Levanto-me e vou para o trabalho... Trabalho por horas e depois volto para casa. Assisto televisão, leio livros e ouço músicas. Adormeço a mercê de todas as informações que esse dia me lançou. E o ciclo se repete, obviamente, com pinceladas de conquistas, mazelas, alegrias e decepções.

O que se esparge nos meus devaneios é o que vivo... Levanto-me com desejo latente de ser feliz e vou para o trabalho, pronta para fazer o melhor. Trabalho por horas e, às vezes, fecho os olhos e busco nessa escuridão seqüestrada do horário comercial, a luz tênue que precede as boas novas. Volto para casa e assisto meus programas favoritos, leio livros de cabeceira. Leio a revista do bairro e jornal do magazine da esquina. E ouço músicas... As de amigos sempre me comovem. Adormeço a mercê de um emaranhado de possibilidades, provenientes de todas as informações que esse dia me ofereceu. E o ciclo se repete... Ainda bem! Porque meu flerte com o tempo que passa necessita de oportunidades diárias para se manifestar, e manter minha existência alimentada de desafios.

No tempo também desembaraço relacionamentos. São noites a vislumbrar um amor que virá em algum quando; dias sendo vividos ao lado dos amigos e familiares e de estranhos muito interessantes. Horas tentando decifrar de onde vem a feição alegre dos meus sobrinhos.

A idade do tempo não se manifesta em rugas e fotografias amareladas. Ela abraça calmarias nas situações tempestuosas e doa sabedoria aos momentos em que nos vemos sem rumo. A idade do tempo ultrapassa a contagem, os compromissos, a idade. E nos permite viver uma vida, assim, num piscar de olhos.

Imagem#1 >> Hesferus, The Evening Star / Edward Bourne-Jones
Imagem#2 >> A Wind-Beaten Tree / Vincent Van Gogh
Imagem#3 >> Miranda, The Tempest / John William Waterhouse

www.carladias.com

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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Se o tempo tivesse como escolher a forma das pessoas vivê-lo, acho que ele escolheria esse seu jeito.