Pular para o conteúdo principal

MAIS UM DELÍRIO >> Carla Dias >>

A primeira vez que ouvi alguém dizer que eu precisava mudar, era bem pequena. Lembro-me de que as pessoas a minha volta não gostavam muito do meu silêncio, mesmo sem saber que ele era, na verdade, um punhado de gritos polifônicos. Por isso mesmo tornaram-se disfarçáveis. Acuaram-se na mudez.

Então, fui crescendo, e também eu aprendi a sussurrar não só conselhos, mas intimações veladas, como se ao retornar o recebido, fosse possível alcançar a compreensão e, de uma maneira realmente funcional, valer-se do concedido para laçar o almejado.

Bobagem, sabe? Porque aos poucos, às vezes aos tropeços, dei-me conta de que essa necessidade de mudança tem voz própria. Ela não manda recado, tampouco contrata intermediário. Ainda que o outro perceba claramente o que se passa e tenha a palavra certa para caber no vazio perfeito, o movimento da mudança acontece em seu tempo, sem esganar-se porque a hora é imprópria para o receptor, ou porque ele chegará tal e qual tempestade, assolando uma tarde de domingo que deveria ser de descanso e calmaria. Sol e frescor.

Conquistar a mudança requer paciência para encarar os revezes. Às vezes, não basta ter determinação ou desejo de mudar. Não basta fazer listas do que precisa consertar para ficar melhor, nem mesmo repetir quinhentas e tantas vezes que, de amanhã em diante, tudo será diferente. Essas coisas funcionam somente quando a própria mudança decide que vale a pena acatar aos pedidos e reconhecer a dedicação. Pois ela tem vontade própria... A mudança é uma dona acostumada ao contratempo, a entrar pela saída. Há em sua cordialidade fragmentos de rebeldia. E nem sempre ela chega dançando o tango... Às vezes, ela se embebeda de letargia e consome anos das nossas vidas, ganhando vida própria numa noite escura e vestida de flash. Cegando-nos para depois desanuviar o olhar e na limpidez do susto, apontar aquele passo que nos proverá os seus frutos.

Até hoje dizem que preciso mudar... O cabelo, a postura, a palavra que caducou, mas ainda faz meu gosto acender-se todo. O corpo, a forma como lido com o amor e dispenso o ódio. Como tranqüilizo as mágoas. Dizem que mudar fará com que, quem sabe aos quarenta, a vida valha mais do que hoje. E acontece de eu cair nessa conversa e correr atrás da mudança como se fosse tirar o pai da forca. Até porque algumas dessas mudanças seriam bem-vindas... Antes dos quarenta, então...

O que descobri, nestes quase trinta e sete anos de Carla que sou, é que mudar não significa mudança. Que mudar é laboratório, ante-sala, prévia. É promessa, entrada, aprendizado. Mudar é acumular sabedoria (assim espero!) para reconhecer quando a mudança chegar, ainda que ela venha toda atrapalhada, como se nada soubesse sobre nós, despertando um quê de solidão involuntária.

Mudar pode ser escolha... A mudança, não. A mudança é independente e acontece quando dá na telha, que é para não nos deixar mal-acostumados às certezas. Que vem para nos tirar para dançar quando pensamos que já sabemos todos os passos e, por este motivo, nos sentimos vazios... Porque não há mais o que aprender ou viver pela primeira vez.

Há sempre algo para ser vivido e aprendido. E não se assuste se um vento forte soprar e bagunçar seus cabelos logo depois de você tê-los escovado com todo o esmero... E que neste mesmo momento de desconserto, a mudança solfeje a vida e lhe ofereça a novidade, e mais três ou quatro pares de sonho para realizar.

Imagem >> Ian Britton

www.carladias.com

Comentários

Bela oração disfarçada à mudança. :)

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …