sexta-feira, 19 de outubro de 2007

1.389 quilômetros de convencimento >> CRISTINA CARNEIRO

(...)
Vou me embora, vou chorando
Vou me lembrando do meu lugar
(...)
Quanto mais eu vou pra longe
Mais eu penso sem parar
Que é melhor partir lembrando
Que ver tudo piorar(Borandá, Edu Lobo)


Preciso de muito.
Meus amigos ficavam a desentender. Eu, que há muito morava apenas com meus irmãos e, nos últimos anos, só com minha irmã, cultivava uma vontade imensa de morar sozinha, fugir, ir embora.

A irmã não pegava no pé, eu entrava, saia e fazia o que bem entendia: fazia o que bem entendia: já não chegava afobada a contar todas as coisas, ela perguntava por onde eu andara e eu respondia no Arlindo. Muitas vezes eu estava era nas Goiabas, no Assis, no Zé, nos Camarões. Para não explicar, eu encurtava a dizer no Arlindo, que era o suficiente. Ela sabia com quem eu, conversando sobre o que, ouvindo que tipo de música, sendo feliz de morrer de rir.

Mas eu tinha vontade de ir embora, sair de casa, pra outro apartamento, outro bairro, outra cidade até. Havia tempos que eu queria ir menos. Imaginava ser ruim não ter com quem conversar ao chegar em casa. Havia tempos que eu queria ir muito. Pela sensação de estar indo para algum lugar ou pela concretude da minha solidão, assim: pronto, agora estou sozinha, sozinha sem possibilidade de não.

As coisas aconteceram ligeiras. Finalmente, moraria sozinha. Quis botar um, dois, até um terceiro pé atrás, mas não. Era o jeito: morávamos eu e minha irmã; ela ia se casar, e eu ia ter de ficar no apartamento, no bairro e na cidade, sozinha, convivendo com a concretude da minha solidão, o pior: sem sair do lugar.

Mas que as coisas se ajeitam, que o mundo sabe o que faz, que eu não conseguiria viver sozinha no apartamento, no bairro, na cidade: a última a sair de casa. Que eu não conseguiria ver a casa se esvaziando e eu ficando, ficando pequenininha lá, cada vez menor, apesar de mais velha, cada vez mais velha, daqui a pouco, velha mesmo. E a casa vasta, cada vez mais vasta.

Vim morar sozinha. Em outro lugar. Foi num só arroubo que tudo aconteceu. Demissão, blablablá, viagem, primeiro lugar, arruma caixa, encaixota, isso vai ou não?, tensão, cidade nova, bairro novo, casa nova. Minha irmã se casaria dali a alguns meses.

*

Foram-se três meses. Tudo agora flui. Acordo, vou ao trabalho, lavo roupa, varro a casa, leio. Às vezes me divirto, às vezes tomo três latinhas de cerveja, às vezes falo com meus amigos, às vezes gosto muito daqui, às vezes não. Brinco de calcular quantos litros de água eu bebo em uma semana, duas, três, um mês. Quanto tempo dura a pasta de dente. Em quantos dias eu como um cacho de bananas. Até quando eu vou manter a mania de nunca arrumar a cama.

Não chego mais afobada a contar causos; não encurto conversa a dizer no Arlindo; não tenho mais o quarto invadido por alguém segurando um prato de almoço pra depois tirar um cochilo, porque só eu sei deixar o quarto o lugar mais aconchegante do mundo: com rede, bossa nova e cortina penumbrando o dia.

Sou eu sem meus discursos exagerados no café-da-manhã, por falta de ouvidos, de ouvidos crentes para todas as minhas teorias mirabolantes. Não conto mais meus sonhos. Sou eu sem meus sonhos sem pé nem cabeça. A tudo agora dou pé e cabeça. Sou eu aguentando minha irmã sair de casa. A casa se esvaziando. Sou eu longe.

Fosse de perto, agora eu era um bicho triste. Uma coisinha pequena, pequeninha, num cantinho da sala, da sala vasta. Mas não há eu feito um bicho triste, há distância. Se bicho triste há (na verdade, há um bicho melancólico, saudoso, com vontade de sentir cheiro de chuva), há também grandes motivos: 1.389 quilômetros. 1.389 largos quilômetros e o não mais ouvir estava tomando gelas, Cricri?.
Pra me convencer.

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3 comentários:

Carla Dias disse...

Que sutileza para falar sobre as profundidades da mudança, não só física, mas emocional e espiritual.
Lembrou-me muito o dia em que sai de casa... Lembrou-me das ausências e também de como elas estão presentes, até hoje, mas de um jeito diferente.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Prosa gostosa feito conversa.

Cris Ebecken disse...

Delícia de texto, convidou ao mergulho... nos ventos de mudanças, na barca dos quereres, com embalo de rede e bossa nova...