sábado, 13 de outubro de 2007

ENCONTRO DE DESENCONTROS [Cris Ebecken]


Acordou pela manhã com um bilhete passado por baixo da porta. Em suas mãos o papel desembrulhava-se iniciando com um pedido de desculpas pela decepção que ele poderia ter lhe causado, em seguida as palavras embrulhavam o estômago com a forma escolhida para agora assim decepcionar. O perfume solto pelas linhas possuía dos cheiros o mais estranho nome: vingança. Vingar-se no sentido de devolução, retorno, dar ao outro aquilo que não gostara ter recebido.

Conheceram-se em tempo outro. Ela, marcada por mãos alheias, recém-separada de falsos sonhos bons. Ele, na fome de mãos novas, recém-separado de tentativas no vão. Para ele, encanto à primeira vista. Para ela, encanto a vistas seguintes. Na noite do início sem início, conversaram umas tantas, se sorriram, beijaram. Ele, sem dar brecha a quem conhecia, foi à frente atropelando, a oferecer mais presença, propondo continuidades ao par. Ela, com a desconfiança aprendida nas feridas em brasa, se assustou, precisou de dosagem. Seria ele mais um propondo engano? Que ilusões lhe vendia? Seria como os passados, depois de alvo de conquista, alvo de domínio? Escolheu pelo pé no freio, valorizando ainda assim a existência dele, preferiu no tempo deixar apenas as prosas afetuosas, o compartilhar das histórias. Deixou a ele o espaço da escolha da não tanta intimidade ou não, do conhecer sem pressa.


Audaz, topou a empreitada. Esbarraram-se pela cidade, trocaram vozes em telefonemas, olhares em encontros. Na medida do se conhecerem, ela foi aprendendo a olhá-lo como chegava, como era, descobrindo beleza na particularidade. Em um dia de sol inteiro, pensou ela ter cometido antes um engano, percebeu estar ele desatando todos seus medos, encontrava bem-estar no estar ali ao seu lado. Avaliou-se, apostou se dar uma nova chance, abriu as mãos deixando ir embora suas histórias mortas, e com as mesmas mãos foi abrir-lhe janelas e porta. Na noite anterior ao bilhete, sem dar atenção à abertura, ele se confessou desesperado na solidão, pediu que lhe apresentasse alguém. Ela se confessou espantada com a capacidade dos desencontros, se expôs.

Dessa vez, foi dele a preferência apenas pelas prosas afetuosas, ficando a ela a escolha a não tanta intimidade ou não. Embora não mais um conhecer sem pressa, acabava de tornar-se conhecido o suficiente sobre ambos. Assim ficaram pelo caminho. Ela e Ele. Ele e Ela. Dois na busca tragante do encontro. Cada um em si, no mútuo dos desencontros. E um senhor de longas barbas brancas, rindo e chorando tiquetaqueado, acima de todos, ecoando pelas páginas das datas: ai, esses humanos...

Foto da própria autora

Impressões, Canela de Verso e Prosa, Sonhos do Mundo

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Dessa vez não foi o texto, foi a foto. Pode parecer incrível, mas ontem tirei uma foto de um bambuzal onde estavam escritos nomes de casais. A primeira, e possivelmente única, foto que tirei desse tipo. Muita coincidência que tenha sido na véspera da sua imagem-crônica. :)

Ana disse...

Que lindo Cris!
Sim, ela precisa de um traumatologista... Todos nós já precisamos um dia.
Alíás todas nós ja fomos Ela um dia não?
Talvez por isso eu tenha amado...
Bjs
Ana