sexta-feira, 19 de outubro de 2007

SOLIDÃO >> Leonardo Marona

Solidão é quando o prazer se torna uma busca frenética e nos esquecemos de que a busca frenética é que deveria ser o prazer. Solidão é a graça dos ordinários, a desgraça dos sensíveis, o refúgio dos literatos, a estética do desempregado, a paz da fé no que nunca foi visto. São duas camisinhas no bolso e um vinho empoeirado em cima da geladeira. É quando os valores se tornam lágrimas dentro de um copo pela metade e o sorriso honesto está na outra metade que não existe mais, se esfarelou. Foi devorada pelo mundo. Solidão é o pedido de desculpas de um asmático, relações movidas a “com licença”, “por obséquio”. É jogar pôquer virtual, faturar um milhão virtual, tirar as cuecas e dormir sentado. Se pintar de palhaço e escutar Erik Satie, masturbando-se. É babar no travesseiro, acordar suado e virar o travesseiro de lado, para não voltar a dormir nunca mais. São os minutos contados para o sonho cortado quando a gente finalmente voa. Solidão é acordar deste sonho e só lembrar da queda, que nunca existiu. O vapor de uma panela cheia de óleo quente. É abraçar um retrato antigo ou olhar pela janela e ver a si mesmo estirado lá embaixo. E ao mesmo tempo continuar aqui, ajeitando os cabelos que sobraram na frente do espelho, passando talco antes de vestir as meias. É o vício de si mesmo, a maior droga inventada depois do amor. São conselhos para a vida toda, é a vontade do outro por você: “seja feliz”, “você tem tudo”, “é o bastante”... É o bastante? O quê? Tudo? Melhor que nada. Será? O quê? Nada? Não exatamente, nunca exatamente... É observar o tempo e ver uma mula manca fustigada por um mujique russo enfezado e com bigode, suor, chicote na mão. Uma pomba amassada na via expressa, alimento de mais dez pombas. É quando o nariz de um filho escorre sangue e o pai pergunta se ele andou cheirando cocaína. Um pano com álcool, por favor, ou benzina. É quando tudo tem o mesmo sentido, porque todo o sentido se tornou o próprio anacronismo e o anacronismo, a crônica do dia seguinte. É a paciência da barriga inchada de fezes e tédio. É o tédio como virtude, como progressão aritmética, a vida calma de um pedófilo num domingo ensolarado. Ouvir as reclamações dos outros e procurar nelas os buracos vazios das tuas próprias. Convencer os outros de você. Pedir de cabeça baixa. Aceitar com os ombros. Escrever para ler os comentários. Pedir que leiam e comentem. Distribuir panfletos sem assunto. Não falar a quem se ama. Não amar a quem se fala. Aprofundar simplicidades. Suspirar forjando novas dores para que alguém se preocupe contigo. É quando mentira e verdade são uma coisa única, mentira portanto. É quando a punheta é o mais longe de si mesmo que você pode chegar. Uma punheta sem gozo. Uma ligação para o interior de São Paulo. Sou eu me olhando e vendo a mim mesmo. Monótono como uma escova de dente debaixo do basculante do chuveiro. Programar a semana. Pensar em novas possibilidades artísticas. Dizer “possibilidades artísticas”. É o vento derramando os objetos do quarto e você deitado na cama suado, sem dormir, dormindo doze horas por dia. Cuidar da vida. Entrar no psicólogo. Arrancar os pêlos do nariz e do rosto. Recorrer à astrologia para explicar a vida sem saber que a graça da vida está no que dela não se explica. Ler dez páginas por dia de um livro eterno. Um livro cheio de orelhas. Um Eu Te Amo maiúsculo sem valor algum. Olhar para a porta e te esperar entrar. Sentir o sono dos derrotados. É quando todos se tornam um só você. Mas é só você quem não está ali.


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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Eita! Essas "definições" de solidão deveriam constar de todos os dicionários. Maravilha de texto: forte e bonito!

Cris Ebecken disse...

Costura mais linda de sentidos, que faz sentir, convoca linha e entrelinha...

Ju disse...

Fazia tempo que você não escrevia algo tão próximo. Você me causa uma sensação meio masoquista.