sexta-feira, 5 de outubro de 2007

"Jussara" >> Leonardo Marona

“I need you,
I don’t need you”
(Leonard Cohen)
Agora, com os olhos estalados de insônia, queria escrever algo que não me fosse infância, que não fosse o mesmo que dizem como limite do eu não posso sozinho e nego, algo que eu não possa entender porque estou embriagado de amor, sim, esse amor não falado, assim tão tingido, antigo e vago, e que ao mesmo tempo embalasse meu sono tardio, algo que não bolasse bocejos ou ruminasse golpes, que saísse para pegar o leite e criticar o vizinho, e me apanhasse no colo (ou no cio), e me largasse quando eu sentisse o fígado, mas sobretudo algo sonolento que vendasse os dias de clausura, sobretudo que não fosse poesia ou frase – o problema é que tudo que a gente faz de verdade não é falso nem verdadeiro, mas é poesia ou frase, boa ou ruim – mas mesmo assim queria algo que se diluísse com o barulho da ampulheta sem a minha atenção, e não tivesse a forma grandiosa de um gênio bêbado dizendo a um poeta promissor sobre versos orientais, e tivesse o som de um pêndulo que viesse e fosse e estivesse aqui como aquele sonho que só vem quando estou sozinho e ocupado, mas meus olhos estalados, tristes de insônia, a cama desfeita, teu buraco ainda nela, ou na minha cabeça, ando, ando, ando, sem solas, vírgulas, ou repetições para tantos passos – e afinal, andar para que se é de mim que escapo? – mas, nu e sozinho, quero escrever algo que não me cause nenhum arrepio, que saiba olhar nos olhos de quem ainda não se ama com delicadeza e susto ácido, nada além do ritmo interior do mundo, nem feio nem bonito, louco, aquilo que ninguém vê e nos embala cegos, quando então desaparece e a gente morre enfim pobre nona sinfonia, que só desmerece o poema que não fiz.


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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Léo, acho que você escreveu o que queria escrever. :)