segunda-feira, 1 de outubro de 2007

CABEÇAS DE BACALHAU >> Maurício Cintrão


Para alguns vizinhos, estou enquadrado naquela categoria do morador cabeça de bacalhau: todo mundo sabe que existe, mas ninguém viu. Não sou muito de ficar na rua. Prefiro a reserva, na maior parte do tempo dentro de casa, fazendo minhas coisas, convivendo com a minha gente.

A Viviane, minha mulher, vive dizendo para eu pôr mais a cara na rua. “As pessoas precisam saber que você existe!”. Ela tem razão. Mas não consigo. Um pouco porque gosto de ficar quieto no meu canto. Outro tanto, porque pôr a cara na rua significa atrair visitas. E eu sou meio alérgico a visitações em geral.

Essa afirmação pode parecer absurda vinda de um jornalista e cronista que, bem ou mal, tem imagem pública. Pois é, meus amigos, mas eu sou assim mesmo. Não funciono conforme os manuais. E esse pode ser complicador em minha vida social e profissional. Por enquanto, vou levando a vida sem grandes problemas.

Concordo que vivo uma enorme contradição. Adoro produzir para que os outros vejam, como crônicas, quadros ou artigos em biscuit. Aliás, preciso que os outros vejam e, especialmente, consumam o que produzo. A fase do fazer por fazer já passou. Diante das dificuldades financeiras, tenho mesmo é que pôr a cara na rua.

Mas como colocar minhas coisas na rua sem colocar a cara? Difícil, né? Pois é. E só não entro em desespero porque percebo existirem outros como eu, vizinhos inclusive. Sei disso porque o meu horário é elástico e já vi várias pessoas entrando e saindo das casas próximas nos mais diferentes momentos do dia, da noite ou da madrugada. São homens e demonstram estar em horário de ida ou volta do trabalho.

De repente, há outras mulheres (mães, namoradas, esposas) pedindo para seus rapazes ponham mais as caras na rua. E, como eu, eles também não consigam (ou não queiram). Ou simplesmente ninguém liga e eu estou dando importância demais para as minhas manias (que parecem não ser só minhas).

O fato é que daria para fazer um pirão para todo o bairro com as cabeças de bacalhau da minha rua. E isso me dá um certo alívio....


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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Leveza de crônica, Maurício!

Aproveito pra dizer que também já fui cabeça de bacalhau e que, pra esperança da Viviane, isso tem cura. :)

Abraço,

Anna Christina Saeta de Aguiar disse...

Mau
Pense que reservar é "guardar".
A gente reserva o que tem de melhor pra quem a gente mais gosta. Talvez seja por isso que tem fases em que a gente se reserva pra nossa gente.
Sou uma reservada (ou reservista?) convicta.
Beijo
Chris

TIO BETO disse...

TB SOU UM CABEÇA DE BACALHAU!!!
ADORO FICAR NO MEU CANTO!!!
ABRAÇOS