terça-feira, 2 de outubro de 2007

INVEJA TRANSPARENTE -- Paula Pimenta

Antes de começar a ler esta crônica, defina o seguinte sentimento: Inveja.

Pronto? Agora leia o significado que o Aurélio dá para essa palavra e verifique se é semelhante ao seu:

Inveja: s. f.,
1. Desgosto ou pesar pela felicidade de outrem.
2. Desejo violento de possuir o bem alheio.
3. Emulação, cobiça.


Não é igual ao que eu achava que fosse. Eu sempre pensei que a inveja poderia, sim, em casos extremos, ter o teor de maldade que essa definição contém, mas na maioria das vezes eu sempre lidei com ela como um sentimento inofensivo, pelo menos a que eu sinto.

Tudo começou há umas semanas, quando eu discordei do meu namorado sobre esse significado. Para ele, a inveja é exatamente igual a do Aurélio e com um agravante. Ele acha que para o invejoso, não importa aquilo que se ganha e sim o que o outro perde, quem inveja alguém deseja o mal para aquela pessoa, se sente mais feliz pelo fracasso alheio do que pelo próprio sucesso. Foi aí que eu resolvi consultar o dicionário e dei de cara com essa definição, muito similar à dele, e com isso tive que dar o braço a torcer.

O que eu tento descobrir, desde então, é que sentimento é esse que eu julgava ser a tal da inveja e que sempre usei nas minhas expressões, sem ter a menor idéia de que meus interlocutores deveriam estar me achando uma gananciosa pronta pra enchê-los de “olho gordo”.

Uma situação hipotética: Seu primo, em um sorteio do shopping, ganha um carro zero km. Não sei você, mas o meu sentimento (pelo menos o que eu achava que fosse) certamente seria de inveja. Mas por mais que eu quisesse estar no lugar desse primo, eu não desejaria que ele não tivesse sido sorteado. Ficaria superfeliz por ele, apenas gostaria de TAMBÉM ter um carro novo.

Outro caso: O namorado da sua amiga a leva pra jantar, à luz de velas, em um restaurante bem aconchegante, especializado em fondues, onde se escuta um violino bem baixinho no fundo e de uma das janelas se vê a chuva caindo lá fora. Antes da sobremesa, ele saca um par de alianças e a pede em casamento, de joelhos. Nem precisaria chegar na parte do pedido, só pelo cenário eu já estaria com inveja (antes de saber seu verdadeiro significado). Mas certamente eu ficaria imensamente feliz pela minha amiga, vibraria com ela, pediria que ela me contasse o caso várias vezes para que eu ficasse imaginando a cena...

Quero saber o nome desse tal sentimento que nos domina quando acontece alguma coisa muito boa com alguém próximo, que nos faz querer estar no lugar dessa pessoa, mas sem desejar seu mal. Acho que existe uma falha no português, um furo nos dicionários, uma falta grave na semântica. Precisamos de uma definição em uma palavra para essa emoção.

Minha amiga Leila uma vez disse que estava com “inveja branca” de mim, por alguma coisa que eu tinha feito. Será que esse já é um neologismo para o tal sentimento? Será que devemos incluí-lo na Wikipédia ou alertar a editora para que não deixe faltar na próxima edição do Aurélio?

Até que corrijam esse defeito, me sinto no direito de continuar sentindo a inveja como sempre senti. Morro de inveja da Marisa Monte, da Meg Cabot, da minha prima que está de férias em Florianópolis, do amigo do meu namorado porque ele pode vê-lo todos os dias, da minha mãe que passou em um concurso sem estudar nada, do meu cachorro porque ele só dorme, come, brinca e ainda é mimado por todo mundo... e tenho inveja de muito mais pessoas, simplesmente porque eu gostaria de fazer o que elas fazem, mas não desejo um pingo de mal para ninguém. Eu não conseguiria ser feliz imaginando que tirei de alguém um pouquinho de felicidade que fosse.

Minha inveja, usando o conceito de cor da minha amiga, chega a ser transparente. É apenas vontade de também ter o que alguns têm, da mesma forma que sei que outros devem invejar o que eu tenho. Só espero que a inveja desses seja tão alva quanto a que eu sinto. Pelo sim, pelo não, tomo banho de sal grosso mensalmente, acendo muita vela pro meu anjo da guarda e tenho um monte de patuás. Vai que o invejoso conheça apenas o significado do dicionário... eu é que não vou me arriscar.


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5 comentários:

Anna Christina Saeta de Aguiar disse...

Paulinha
Meu conceito de inveja já estava influenciado por um livro que li quando fazia faculdade (Inveja nas Organizações) e que acabou com qualquer ilusão que eu pudesse ter a respeito do tema...
A inveja, conforme a definição do dicionário, é altamente destrutiva e motiva atos até criminosos.
Um livro muito bom sobre o assunto é Inveja - Mal Secreto, do Zuenir Ventura, da coleção Plenos Pecados. Vale a pena! Ele fez pesquisas sobre inveja e - novidade - a maioria esmagadora dos entrevistados afirma que 1) nunca teve inveja de ninguém; 2) sabe ser invejado por muitas pessoas... lol. Vai saber agora onde é que estão os invejosos, já que todo mundo só é invejado.
Adorei a crônica, como sempre.
Beijo
Chris

MUTUMUTUM disse...

Pow! É mesmo, né? Pelo significado da palavra no dicionário, dá mesmo a impressão q se trata de um sentimento semi-homicida, de querer que o próximo só se lasque.

O que seria o sentimento de, apenas, querer para si o que outra pessoa já recebeu??? Cobiça??? Mas essa palavra tbm parece ser tão forte...

Olha, fiquei aqui pensando. Vou dar uma pesquisada por aí e, se encontrar um termo que defina bem esse sentimento, te falo, ok?

Abraços o/

padma wangmo- disse...

Inveja para mim é a incapacidade de ver a própria capacidade, e tb a sorte que lhe cabe na vida. Comum, muito comum nesse nosso sistema comparativo-competitivo em que formamos nosso ser."ai, ele tem, por que que eu tb não posso ter?" nós somos muito infantis...e sempre insatisfeitos. Nós somos uns chatos!

Coisas da vida disse...

kkkkkkkkkkkkkkkk

Que texto demais!!!

Paula, confesso, fiquei morrendo de inveja da sua maneira expontanea de escrever. Eu só conhecia a definição do aurélio tbm, fiquei incrivelmente surpresa com essa inveja que você descreveu ai, e, cá entre nós, coitada da inveja, a gente é que age como "monstros malignos" e ela é quem leva toda a culpa né...

Parabéns querida..
tô seguindo o blog

Anônimo disse...

Bacana as observações da Paula sobre a inveja mas, no frigir dos ovos, vejo a mesma tentando justificar e amenizar (receber solidariedade/apoio) esse sentimento que sabe ser possuidora. Claro que não existe inveja do bem, como também não existe ciúme "de boa", na verdade o que há são níveis de inveja e cíume "aceitáveis"?, ainda, mas que, no menor vacilo, descambarão com certeza para estágios danosos e desconhecidos.
Quem costumeiramente diz: "Eu te invejo..." ou sente sem expressar é um invejoso em potencial. Dependendo do nível ou estágio que tá pode até controlar, arranjar desculpas para justificar etc etc, mas, assim como não existe uma mulher "meia-grávida", também não há alguém meio-invejoso. Ou é ou não é!