quarta-feira, 31 de outubro de 2007

EU E A CHUVA >> Carla Dias >>

Assisti um filme do qual gostei bastante, “A Dama na Água” (Lady In The Water). Porém, não será ele o tema desta crônica, e sim algo que disse um dos personagens, um crítico de cinema enfadado pela contemporaneidade da sétima arte. O morador do condomínio, onde a história se desenrola, alegou que não agüentava mais as cenas sob a batuta da chuva e o olhar do romantismo. Que não compreendia o porquê de tantos filmes brindarem a este encontro.




Pensei comigo: “por que não?” Chuva tem tudo a ver com romantismo, principalmente quando se trata de cinema. Compreendo que nem todos os roteiristas e/ou diretores são felizes ao tentarem fazer com que a mágica aconteça, mas há chuvas e declarações de amor que são dignas de se tornarem cenas de cinema. Quem não se dá conta disso, certamente anda com o romantismo namorando a aridez.

Mas quero mesmo é falar sobre a chuva como cenário biográfico. Quem me conhece, sabe que eu adoro dias de chuva; da garoa às tempestades. Que me sinto culpada porque o trânsito fica insuportável, e há deslizes e inundações. Mas quê? Como evitar se embebedar com a melodia dos telhados ou as cores das sombrinhas? Como deixar de perceber a melancolia, na dose certa, ao desembaçar o vidro do ônibus ou da janela de casa para ver o lá fora? Como ficar alheio à importância das chuvas para que os olhos dos rios transbordem fertilidade?

Aprendi, ainda menina, que para amar é preciso aceitar o inteiro. Foi assim que perdi o medo da chuva, porque antes me apavoravam os relâmpagos que ela trazia; os trovões que a acompanhavam. Sem contar que, onde morava, às vezes ela era tida como inimiga, já que toda vez que caía, os ônibus não chegavam ao meu bairro. Então, tínhamos de subir uma ladeirinha, escorregando na lama, e fazer uma bela caminhada para chegar em casa.

Depois de um tempo, alguns anos na verdade, a prefeitura resolveu este problema asfaltando a rua. O problema nunca foi da chuva, apesar de o Seu João xingá-la até! Não sei se era uma questão de culpa... Acho que estava mais para dificuldade de adaptação à demora da chegada da modernidade do asfalto ao meu bairro.

Desta época, lembro mesmo é da minha mãe colocando latinha de leite em pó debaixo da calha pra ouvir a chuva gotejar forte e embalar o seu sono. Também do cheiro da terra molhada, principalmente quando chovia em dia de sol. E os banhos de chuva eram divertidos e libertadores.

Alguns anos adiante, eu experimentei a chuva das enchentes. Bastava chover que a minha escola ficava ilhada. Aí era esperar a chuva se acalmar para voltarmos para casa. Ainda assim, não conseguia maldizê-la. Ficar sentada na escadaria da escola, ao lado dos colegas, batendo papo, enquanto a maré urbana baixava... Às vezes era divertido.

E foi então que a chuva veio cutucar meu coração. Eu que já a observava até nas noites mais frias, a aceitava em qualquer estação, jamais pensei que, num verão qualquer, ela derrubaria minhas barreiras. Tempestuosa, providenciou um blackout no horário comercial e, na ausência do que fazer, fui me apaixonar por quem sentia pela chuva a mesma benquerença que eu. E durante muitas chuvas eu desfrutei desse gostar. Escrevi poemas e cartas sobre ele, e também um conto, “Fragmentos de um dia de chuva”, que faz parte do meu livro, o “Azul”. E apesar de ter desfrutado deste gostar mais na solidão de mim mesma do que na companhia do meu afeto, posso dizer que valeu cada gota de chuva.




Desse gostar em diante, passei a tomar mais banhos de chuva. Não me importo mais se ela chega antes ou depois do trabalho. Já tomei chuva até na área de serviço... Na beira da represa... Brincando de cirandinha... No meio da rua, dividindo espaço com os carros.

Minha ficção também adora uma chuva... Dois dos meus romances têm cenas de pessoas se descobrindo debaixo dela, como se assim pudessem se render à honestidade do que sentiam. Certamente, o senhor do filme odiaria isso.

Dizem que a chuva leva (lava?) os maus agouros... Também deságua emoções antes não mencionadas. O que posso dizer? Bolinho de chuva e café fresco, uma boa conversa, as lembranças decifradas debaixo do batuque da chuva nas telhas.

Aprendi que para amar é preciso aceitar o inteiro. Então, também aceito chegar molhada no trabalho, a goteira na janela da sala, os tênis encharcados e os cabelos desgrenhados. Não aceito as ruas apinhadas de carros e seus endoidecidos donos, tampouco as enchentes e os deslizamentos. Não aceito as pessoas perderem suas casas e suas vidas, porque aí não se trata de uma obra da chuva, mas sim de uma transgressão do homem que se permite modernizar e crescer sem consciência. A culpa é minha. Sua. Nossa. Da chuva: não. Ela continua íntegra.

Sabe o que mais? Saudade das chuvas passadas... Ansiosa pelas que virão.

Imagem 1 >> Jander Minesso
Imagem 2 >> Banco de imagens


www.carladias.com


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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que chuva boa, essa sua de palavras. "Para amar é preciso aceitar o inteiro", que coisa linda! Acho que estou precisando de um banho de chuva. :)

Cris Ebecken disse...

Deliciosa essa sensação de chuva de sentidos através das suas linhas... muita água boa tocando!

Francisco Medeiros disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Francisco Medeiros disse...

Ao ler "eu e a chuva", lembrei dos meus dias de chuva, senti no coração a sensação dos vidros embaçados e o friozinho dos dias de chuva aqui na terra do sol (Natal - RN). Parabéns!!!
Postei em outro comentário - noutra crônica - e repito aqui: Estou fascinado!
E também não posso deixar de agradecer por suas palavras elas me fizeram refletir sobre algumas nuances de minha vida. Deus a abençoe!

PS: O cometário excluído era meu também, eu o excluí porque faltou escrever um coisa! Desculpe! Rs, rs, rs ,rs. Tchau!!