sábado, 28 de agosto de 2010

AGOSTO [Maria Rita Lemos]

Agosto vai chegando ao fim, inaugurando o segundo semestre com seus derradeiros dias. Mês comprido, de cachorro louco, tempo de empinar pipa, que no meu tempo era sem cerol.

Agosto derruba as derradeiras folhas das árvores, desnudando-as despudoradamente. Despidas, elas parecem envergonhadas, em meio aos ipês amarelos e roxos, esplendorosos em suas vestes de gala, prenunciando a primavera. Em agosto, ainda, crianças e adolescentes voltam às escola, em bandos ruidosos, tal qual andorinhas retornando, após o inverno, à pátria de sua origem.

Agosto é tempo de avaliar, revisar, re-planejar. Tudo aquilo que foi programado lá atrás, quando o ano vinha nascendo, conta com agosto para um acerto de contas. Gosto desse jeito, que só agosto tem, de segunda chamada no vestibular anual da vida. O que não foi feito no primeiro turno, porque se planejou mal ou muito, pode ser mantido ou cancelado em agosto. Desta vez pra valer, senão só no ano que vem, que a gente nem sabe se vem.

Agosto tem o dia da “pindura”, do advogado, doutor das leis dos homens; tem o Dia dos Pais, tem até o Dia do psicólogo, mestre das mentes, bem no finzinho do mês. Agosto de mudança, transformação, nova chance, reciclagem. Eu ouvia sempre, em menina, vovó dizer que o mês de agosto leva folhas e vidas para seu ritual de renovação...

“Quando caem as folhas, levadas pelo vento de agosto, muita gente aproveita e vai embora junto”... Era uma das crenças de minha avó, que também partiu bem a seu gosto, como uma vela que se apagou mansa e quieta, num agosto distante.

Foi também num dia lindo de céu lavado, num finalzinho de agosto, que o primeiro amado meu fez sua travessia para outro plano. Lembro-me bem de que o dia raiava deslumbrante, lá pelas bandas da Santa Casa, onde eu vi, pela janela, que os ipês caíam de tantas flores, indiferente à dor das despedidas.

Agosto tem festa de pipas dos meninos, cruzando as ruas dos bairros humildes ou, em menor número, dos condomínios fechados, tocadas pelo vento. Vento gostoso de agosto, que toda vez que chega forte me cheira a expectativa, coração batendo forte, quem sabe chega a gosto tudo o que a gente sonha, o que se espera, ou tudo o que espera a gente. Tempo de trocar, renovar, reviver.

Agosto, na vida de quem é de bem com ela, tem até a vantagem do nome. A-GOS-TO, descendo macio boca abaixo. Sem a aspereza de abril, nem o som anasalado de junho. Bom de falar, agosto. Já pra quem tem, nos meses da vida, mais mau humor que sorrisos, agosto vem exatamente a gosto. Para todo mundo, porém, de mal ou de bem, não dá pra escapar de agosto. Há que curti-lo, então. Ainda que pensando, para se consolar, que a cada dia desses longos trinta e um, mais próxima estará sua grande e famosa vizinha, a estação maior, a primavera de nossas vidas.

RECADO: Aproveito para abraçar fortemente todos os psicólogos e psicólogas, que festejam o seu dia, ainda que cada um por si. O Dia do Psicólogo é comemorado, em todo o Brasil, no dia 27 de Agosto. Que Deus nos ilumine a todos, e ajude-nos, cada vez mais, a exercer nossa profissão com dignidade e sabedoria.

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Maria Rita, sua crônica ficou muito a meu gosto. :) Bela homenagem a esse mês de que gosto.

fernanda disse...

Você me fez até gostar de agosto, Maria Rita. Que crônica boa. Estava pensando em escrever sobre setembro e sua crônica me encorajou. Beijos!