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DE MUDANÇA >> Carla Dias >>

Quando mudo de casa, primeiramente, bagunço tudo. Não sou muito cuidadosa porque me pego ansiosa demais sobre como serão as coisas no de agora em diante. Em todas as vezes que me mudei, minhas roupas trafegaram pela cidade em sacos de lixo de 100 litros... Os discos, não... Nem os livros, os copos, tampouco os vidros de perfume.

Não desafio a força da sutileza.

Moro no mesmo apartamento há mais de cinco anos. Ele precisa de uma reforma, e urgente. As paredes pedem por pintura, o banheiro por um espelho e um lugar devido para se pendurar toalhas. A cozinha exige um novo fogão e um refrigerador supimpa. O armário para as roupas, que comprei em janeiro passado, já demonstra o cansaço do pseudo bom e certamente barato.

Não vou mudar de casa tão cedo, eu sei. Da próxima vez, não usarei sacos de lixo de 100 litros para carregar as roupas, porque agora eu as cuido com um tanto mais de zelo e consideração, apesar de ainda serem peças compradas e raramente usadas, à espera do dia certo, da hora perfeita, da conexão do tecido com a majestade do destino.

Mas sinto que, dia desses, passarei a ser mais do que uma das que se esbalda em Hering e All Star. As roupas que se cuidem! Quem sabe uma Hering vermelha, ao invés de preta... Um All Star vermelho, ao invés de preto...

Como eu disse, não vou mudar de casa, mas tenho de mudar, urgentemente, de jeito de viver. E jeito de viver, nem de longe, é o mesmo que jeito de ser, tampouco se resume a nome de loja de roupa, de programa de TV, de escola infantil. Jeito de ser também é esse frasco fino, frágil, translúcido, no qual depositamos as nossas crenças e esperanças, onde se balançam nossas dúvidas e nosso conhecimento. E o mais complicado é viver tudo isso sem trair a si ou magoar o outro.

Antes que eu me esqueça... Eu adoro a minha casa, mesmo quando fica dolorido pagar o aluguel, os vizinhos tocam, repetidamente, num mesmo dia, o hino do clube de futebol para o qual torcem. Mesmo sendo um barulho danado o que vem lá de fora. É meu lar trincado, mas que me serve de abrigo, eu tão trincada quanto. Que abriga meus eus, sem resmungar.

Essa mudança que se faz necessária implica também em assumir, com graça, o tempo das coisas. Já passou da hora de decisões serem tomadas, e nenhuma será fácil. Normalmente, quando a situação não segue seu rumo, exigindo decisões sem a necessidade de se pensar demais a respeito, o processo é dolorido.

Que doa, então.

Não sei se para tal descarte usarei roupas novas, sapatos diferentes, cabelos coloridos. Talvez decore algumas palavras novas, recicle com dedicação, fale com mais propriedade sobre os meus sentimentos, passe mais tempo fazendo exercícios. Diminuir a quantidade de séries de televisão que sigo está fora de cogitação. Há coisas que não se desentorta ou aniquila.

Quando mudo de história, a leveza se apresenta. A maior parte das situações que pareciam impossíveis de se aguentar, agora são coleções desbotadas de desacertos. Desacertar também é arte na coreografia da vida, porque às vezes é preciso fragmentar para criar um mosaico, com toda a beleza, e mistério sedutor de silêncios, que nele caibam.

Estou de mudança... Depois passo o endereço novo.

Imagem: Jim - www.unprofound.com

www.carladias.com

Comentários

Marilza disse…
Carla, também estou de mudança..Só não sei 'ainda' pra onde, nem quando terei coragem. Mudar é difícil mas, não impossível.
No fundo, a gente sabe quando é chegada a nossa hora de mudar.
albir disse…
Carla,
tenho certeza de que você fará bom qualquer endereço.
Carla Dias disse…
Marilza... Nós não só sabemos quando é chegada a hora, como a recebemos de malas prontas.

Albir... Prometo que passo o endereço quando chegar lá.
Sabe que eu já venho sentindo no ar o cheiro da sua mudança? :)
Carla Dias disse…
Eduardo... Mesmo? Bom, eu tenho tentado... Há dias melhores do que outros, mas também não é essa a receita da vida?

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