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RUPTURA E CONTINUIDADE >> Fernanda Pinho



Faz nove anos desde que eu saí do colégio e, naturalmente, muitos dos conceitos que aprendi ali ficaram esquecidos ou estão guardados em algum lugar da minha memória que não acesso nunca. Há ainda as poucas coisas das quais nunca me esqueci e aquelas que só fizeram sentido quando cheguei a este ponto ao qual convencionamos chamar de vida adulta. Aliás, acho “vida adulta” um conceito muito vago e talvez eu devesse escrever sobre isso um dia. Um dia que não é hoje, pois hoje quero falar sobre outra coisa.

Hoje quero falar sobre a aula de História do professor Cleiton, que nunca se limitou a nos fazer decorar datas e fatos e, portanto, nos ensinou muitas coisas que eu só compreendi agora que sou... adulta (é, detesto admitir). Cleiton gostava de provocar a reflexão e incitar o debate. Ingênuos que éramos, poucas vezes mordíamos a isca. Mas me lembro muito bem dele – não raramente – escrever essas duas palavrinhas no quadro e nos fazer pensar sobre elas: ruptura e continuidade. Sob o prisma da sua disciplina, ele queria nos fazer identificar momentos da história da humanidade em que, diante da possibilidade de escolha, os homens optaram por romper ou continuar. Mesmo sem entender exatamente o porquê, eu conseguia observar que quando a opção era pela ruptura, a longo prazo, os resultados eram melhores para a sociedade. Chega a ser óbvio, afinal, se chegamos a uma situação onde é necessário fazer uma escolha, é porque as coisas não vão tão bem assim. E se não está tão bem, por que continuar? Porque continuar é mais fácil. Não existe ruptura sem caos, e poucos são aqueles interessados em revoluções de qualquer ordem.

Me saí muito bem nas provas do Cleiton, mas o que só entendi anos mais tarde é que esse negócio de ruptura e continuidade são conceitos determinantes para a história do mundo, para a história do nosso país (pra isso que existe eleição) e para a nossa própria história. Descobri que quanto maior é nossa capacidade de romper, maior é o nosso potencial de felicidade. Por que existem pessoas que passam anos trabalhando numa empresa que não suportam, anos vivendo um casamento infeliz, anos cercado por pessoas em quem não confiam? Simplesmente porque não têm coragem de provocar ruptura. E dá para entender. Romper dói demais e falo por mim que tenho pensando no assunto desde que, pela primeira vez na minha vida, provoquei uma ruptura. Por minha conta, sem tentar saber o que se passava com o outro. Eu estava numa situação que me fazia mal, eu estava sofrendo. Então, como num loop de montanha-russa, eu fechei o olho e fui. E vou dizer pra vocês: a vertigem é das brabas. Não é fácil suportar as consequências de uma ruptura que você mesmo provocou. Ainda não me recuperei do caos, mas sei que é daí que virá a ordem. A tristeza hoje tem um latifúndio na minha alma mas, paradoxalmente, sinto um orgulho imenso por ter me feito esse favor. Antes agora do que depois. E recomendo: experimente romper você também. Rompa com a má vontade, com o desrespeito e com o desamor. Rompa com a solidão a dois, com o chefe intransigente e com o amigo da onça. Rompa com o cartão de crédito, com a balança e com a tecnologia. Rompa com as más notícias, com a fofoca e com suas deduções.

Rompa, porque como diz uma frase que li outro dia, e que resume tudo isso o que eu precisei de tantas frases pra dizer: “Não existe prova maior de insanidade do que fazer a mesma coisa, dia após dia, e esperar resultados diferentes”.

Claro, a vida também tem daquelas coisas que merecem continuidade. Mas isso também é assunto para outra crônica.

Comentários

Loreyne disse…
Como eu disse, estou chocada como vc escreveu, tudo q estou pensando esses dias e tomei certas decisões de ruptura pra ver se minha vida anda!! rsrs Adorei amiga, Parabéns mais uma vez!!
Bjuuss
Jaque disse…
Suas palavras descreveram exatamente uma das maiores dificuldades, para não falar a maior, quando na vida encontramos outras estradas, e temos a possibilidade de seguirmos um rumo diferente. Mas daí aventurarmos em caminhos desconhecidos pode ser uma idéia bastante assustadora, o que requer muita coragem e pique para sustentar todas as conseqüências de uma nova escolha. Como a colega Loreyne, também cheguei nesse ponto da vida, mas depois do que acabo de ler posso afirma que estou mais confiante das decisões que preciso tomar.
Obrigada pelo loop de montanha-russa que o seu texto proporcionou 
Tenha uma ótima semana!
:)
Theresa Diniz disse…
Posso dizer que sou medrosa quando se fala em ruptura, mas são textos assim que me fazem parar e pensar que uma hora ou outra temos que criar coragem e resolver essas situações.
Vc me fez voltar a escola e lembrar essas duas palavras escritas pelo Cleiton no quadro, realmente eu não dava tanta importância naquela época.
Como sempre adorei
Bjs
Kika disse…
querida,
tem uma frase que amo e que usei numa crônica com o mesmo tema que essa sua, que diz assim: as vezes, é preciso romper para nao se corromper.
Amém!

beijos, linda crônica.

Kika
Eu sei o que você está dizendo. Só rompe quem se coloca em primeiro lugar, daí o caos quando estamos doutrinadas a seguir o caminho pisado do diarimente. Mas eu não desisto dessa tal chance de ser feliz plenamente, assim como você.
albir disse…
Vou aguardar sua crônica sobre o que merece continuidade, mas desde já vou verificar o que precisa de ruptura. Beleza de texto.
Olha que interessante Ferdi, ontem, numa aula sobre a felicidade na concepção do filósofo Sêneca, li com meus alunos um trecho de um texto dele em que ele é simples, objetivo e muito feliz no que diz. Ele diz que duas coisas são prejudiciais a tranquilidade ( para ele, uma vida feliz é uma vida tranquila): rejeitar mudanças e nada suportar. Adoro essa passagem dele e meus alunos também gostaram, disse à ele que não tenham medo das mudanças e que suportem os sofrimentos da vida, ficou parecendo aula de auto ajuda, mas não era. Rolou uma discussão bem legal e tem tudo a ver com seu texto, quando estiver com o livro, te mando certinho a passagem dele.
É difícil romper, mas muitas vezes muito necessário!
fernanda disse…
Pessoas, fico muito feliz com os comentários. Em perceber que as pessoas se identifcam com o que eu escrevo.

Kika e Lah, fiquei curiosa pra ler os textos que vocês mencionaram!

Beijos!!
É, Fernanda, tem horas em que é preciso "chutar o pau da barraca". Já fiz muito isso. :) Agora estou exercitando as continuidades. E não esqueça de fazer a crônica da Vida Adulta.

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