sexta-feira, 27 de agosto de 2010

TOMEI UM UíSQUE COM O FANTASMA DO BADEN POWELL E TOM JOBIM ERA O GARÇOM
>> Leonardo Marona

E o medo? O problema todo foi eu ter me matado com uma faca afiada no meio do estômago e não ter conseguido ficar de pé para ver toda a cena linda que se sucedeu. Eu passei andando por mim. A faca escorria sangue da lâmina pro punho, do punho pro antebraço, do antebraço pro cotovelo, e dali pro chão e pro fim do começo. E eu parecia ávido. Como se quisesse coisas, finalmente. Como se aquilo tudo fosse um tipo de busca por coisas que um covarde não pode ter em vida. Porque vida é uma covardia em si.

E daí eu olhei pro lado e me vi ali, estirado no chão, lambendo meu próprio sangue, dores irreversíveis, as mesmas de sempre, com gosto de mercúrio e relâmpagos — os céus se fecham de vez em quando. Quando você quer se abrir, por exemplo. E eu não quero falar sobre isso. Juro que não.

Acho que morri a mim mesmo para falar das coisas que importam. Adoro escrever mas odeio admitir isso. Adoro esticar os olhos, coçar a boca, enrolar o cabelo como se isso agitasse as idéias — seja lá o que for, agitava, já não agita mais nada agora que tem minhocas saindo das minhas orelhas e larvas fazendo uma festa do cabide dentro da minha boca. Gosto de fazer tipos rápidos e escorregadios. Depois olhar com os olhos brilhando para aquelas pessoas que realmente importam (realmente importam — todo mundo só devia se preocupar com isso), e sentir quem importa realmente ou não. Um tipo de provação que me excita. E falar em deus, um sujeito que só está ali quando você pede alguma coisa, e normalmente quando você pede algo a ele é porque no fundo você tem certeza de que precisa ser correspondido desesperadamente. E tudo pra mim ou é desesperadamente ou é a morte. Então, pra que serve deus? Não, isso nunca. Aqui o deus sou eu e o deus está morto; não o do Nietzsche, que continua fazendo aliados das margens do Hudson aos confins da Cracóvia. E eu continuava com a faca na mão saindo fora de mim mesmo, me olhando no outro canto, lambendo meu próprio sangue em gargalos e procurando velhas lembranças.

Meus ídolos são o Kerouac e o Lautréamont. Só li o primeiro. O segundo lerei finalmente quando for me matar outra vez. E digo “finalmente” porque assim será quando eu ler o conde: um final de mil amplitudes. Cabe aqui dizer que estive lendo o Campos de Carvalho, “um oásis cheio de desertos por todos os lados”. E isso significa o quê? Que as pessoas que vivem ficam malucas, impreterivelmente. E é sempre uma questão de escolha: viver impreterivelmente ou morrer com uma medalha no peito e sanguessugas aos pés. Eu, por exemplo, resolvi casar comigo mesmo e viver feliz pra sempre, por isso enfiei uma faca na barriga e saí andando e procurando coisas no meio do mato. Hemingway queria parar de comer para entender a arte dentro do Louvre — acho que ninguém nunca conseguiu isso por lá. Eu preciso morrer mais quatro vezes ainda para conseguir o inconseguível, e ainda assim corro um risco danado de acabar me levando a mim mesmo para o pronto-socorro. Txingado! Adoro gritar em castelhano quando estou morto. QUANDO ME CONVÉM ME DESESPERAR SINCERAMENTE. E, no mais, tenho vergonha ao me ver tão debilitado, tão sóbrio e tão lúcido e tão por um fio, como sempre é para quem sente e não pensa em muitas convenções. Até porque não sabe. Ou não conseguiu enquanto podia ainda respirar e fazer valer uma cédula de cinqüenta mangos num puteiro chinfrim qualquer. E gosto quando uma pessoa olha pra mim e diz: vai com deus, meu filho. Tenho dois motivos pra isso. Um é o “meu filho”, que de fato nunca fui de ninguém, a não ser do sujeito que me pisava o pé e depois mordia a própria boca com os olhos baixos para me amar. E da grande índia com boca de prato, que me lavou as costas como a um bom marido. Dois é o “fundo dos olhos” no “vai com deus”, que se trata da verdadeira questão universal. Os Fundos dos Olhos.

E de repente cruzou o meu caminho de pedras um bode barbudo, me dizendo amém. No exato minuto em que fiquei na dúvida se tinha que ter realmente me dado uma facada no estômago, ou no peito.

***

Esperava encontrar mais do que isso quando pudesse me ver de verdade, mesmo que estirado e com uma cerimônia religiosa de formigas saúvas nas minhas narinas. Mas a mata era bonita, as árvores dançavam com suas copas e, em algum lugar longe dali (como sempre foi aliás), o vento entrava debaixo da saia de Mirela. Minha jamais minha Mirela. Nunca a teria mesmo, a não ser que eu não fosse eu mas Eu Mesmo naquela época. E se não estivesse agora com uma lâmina suada me coçando a ponta do intestino.

Me lembro que a tia Sônia, tia Sônia verruguenta do ginásio dos prazeres, estava perguntando à turma de babaquinhas irreversíveis que éramos “o que gostaríamos de ser quando crescêssemos?”. Carlos Cabeção disse lobinho aos sábados e mentecapto aos domingos; Baliú disse astronauta em Rio das Ostras; Araripe, o neto do Grande Filólogo, disse matador de gramáticos; Barciella disse pescador de botas num canal podre do Leblon. Eu falei que queria ser uma daquelas velhinhas de fila de banco, daquelas que causam pânico odioso nos que por elas são ultrapassados, tudo por causa de mais varizes e mais tempo perdido. Nunca imaginei que agora seria uma delas, finalmente. “Finalmente”, agora, significando para sempre.

Meu amor começou logo depois de ter acabado para sempre. Vou explicar. Uma pena que ninguém mais neste mundo seja capaz de entender. Os últimos três que eram capazes estão morrendo agora, neste exato minuto, para renascerem daqui a dez mil anos, na era das baratas voadoras. Foi quando eu enfiei meu nariz ranhento dentro da boca de Mirela, e ela dormia pavorosamante linda numa das tardes em que estudávamos juntos para as provas da vida — as provas que inventaram para nos cancelarem do mundo. Foi ali que tudo começou. Mas tudo já tinha acabado dois anos antes, ou dois mil anos, quando alguém disse pela primeira vez que o amor valia a pena.

Os meus planos eram simples: estando desesperado, faça o que lhe der na veneta. E eu juro que segui tudo exatamente como me mandaram Shakespeare, Fante, Goethe e Winston Churchill. Faltou alguém? Faltou sim, mas dele eu não vou falar porque senão periga dizerem que sou parte da nova literatura inspirada Naquele-de-quem-não-falamos, como no filme que vi ontem à tarde, pouco antes de me matar pela décima terceira vez. Portanto, sacudi Mirela pelos ombros quando a primeira gota de Mim Mesmo me escorreu pelo queixo. Ela, maldita querida, amor de merda, abriu os olhos já me tascando um beijo na testa, ao qual eu repliquei enforcando o seu pescoço. Depois ela me abraçou e ficamos como dois bichinhos apaixonados, daqueles que não sabem das barbaridades que se fala por aí sobre a paixão. Daí eu disse a ela que ia me matar e então decidimos tomar um sorvete antes de retomarmos os estudos. Se vestiu na minha frente, mesmo estando trancada no banheiro, mas dali onde eu estava era possível, com alguma possibilidade doentia, ver suas costelas esticadas quando ela pôs a blusa e mordeu os lábios. Então eu mesmo me meti num short e fomos andando.

Ela escolheu sabor cheese cake com framboesa, como sempre fazia, e eu escolhi sabor lágrimas ao molho pardo, meu preferido também. Chupei o sorvete pensando se dessa vez usaria cordas ou giletes ou fornos a gás, e ela me perguntou de repente o que eu faria se ela dissesse que me amava. Fiquei sem ar durante a vida toda a partir dali. E até hoje, perdão, até ontem os médicos ainda insistiam que era apenas uma bronquite crônica. Mas, logo antes de chorar um novo sorvete de lágrimas ao molho pardo, eu disse a ela que, se ela dissesse que me amava, eu simplesmente, sem pensar em mais nada, porque aquilo seria a coisa mais necessária em toda a minha vida, enfim, eu simplesmente diria a ela que...

Rufus chegou com a turminha do barulho eterno. Barulho de molas soltando de trás do Fundo dos Olhos — lembram deles? Pois então, Rufus chegou com seus milhares de centímetros a mais que eu, com sua carroceria impecavelmente bem formada por cima dos ombros sólidos de jogador de futebol profissional que dirá isso até os cinqüenta e sete anos para as meninas de treze na praia de Ipanema enquanto será apenas mais um adepto do Vô-vôlei. Pegou Mirela pelo braço, puxou-a num canto, estapeou-a, fez com que ela engolisse suas lágrimas com um dedo na sua cara e a levou dali em seguida. Mas Rufus morreria antes dos dezoito, assassinado com um tiro por um garoto magro numa bicicleta de oito marchas. E eu diria foda-se, Mirela, ele te batia, enquanto ela chorava. E então perderia meu começo novamente. Por isso fui para casa e escolhi me matar com os Boêmios Errantes do Steinbeck, o que durou pelos próximos dez anos.

E todo dia era o dia seguinte em que eu entenderia a paixão e falaria do amor. Até que ele apareceu no meu caminho: o bode bigodudo ruminante que dizia amém.

***

É incrível que isto esteja acontecendo: o amadurecimento total, que resulta na morte dos valores e de você mesmo, é claro. Aí alguém pode me dizer: puxa, você amadureceu. E se eu não tivesse me esfaqueado e não estivesse na frente de um bode barbudo, eu diria: vai à merda! Quem amadurece é maçã! Mas estou na frente dele. Então começo de novo a lembrar dos velhos tempos de anteontem. Uns com tanto e outros com tão poucos. Parece um ditado banal, mas é a mais pura verdade. Fiquei uns anos me culpando por existir. Depois olhei pros lados e vi que tinha um montão de gente pensando a mesmíssima coisa. Passei então a me culpar por não existir, o que de fato sempre aconteceu. Um medo enorme de ficar cego e certo e depois sozinho. Não queria morrer com o controle remoto na mão. Daí a facada fulminante e os olhos sem amor algum. Estou enfraquecendo. Se vocês pensam que morrer é uma escolha, tentem só. Um mato sem cachorro, até aí tudo bem, mas um bode?! Olhei pra ele e ele me ofereceu uma cenoura. Falei que tinha aprendido a viver sem os vegetais. E ele me disse que era por isso que eu estava morto. Você é deus ou é o demônio?, perguntei. Amém, ele respondeu. E então decidimos disputar para ver quem é que babava mais. Ganhei logo na segunda rodada e comecei a me desesperar novamente de alegria, como aqueles sujeitos que ficam felizes porque sabem que dura bem pouco, tanto ou mais do que a tristeza, porque a felicidade na verdade é mais insossa. O demônio faria alguma coisa quanto a isso, disse a ele. Então ele me respondeu: esqueça as malditas convenções, porque senão não haveria motivo nenhum para você ter se esfaqueado. Pensei bem e vi que tinha que dar uma gorjeta ao diabo para que ele se mandasse. Fucei a bolsa que levava no ombro e constatei que só o que eu tinha era a minha coleção de botões de madrepérola da copa de setenta e um tesão danado. Mas não ia foder o diabo. Fiz isso em vida a vida inteira. Então falei do medo e ele me falou da cruz. Daí falei da vontade de perder para não precisar disputar e ele me falou da pena. Então disse que não sabia mais do que falar e então ele me falou que, já que era assim, eu poderia voltar a viver. Mas a vida me traria de volta a falta, eu choraminguei. Ele dobrou as orelhas e me falou que nada mais era a falta quando nunca se teve absolutamente nada. Falei tudo bem, depois dobrei os dedos atrás da bunda para não ser punido pela sorte. E então disse a ele que eu não precisava ter medo, por isso tinha. Pedi licença e fui vomitar no mato. Ele me seguiu e lambeu o vômito com vontade. É do que se alimenta o diabo, pensei. Mas o teu deus se alimenta das mortes e das vidas, foi o que ele me confidenciou. Me obrigou em seguida a assinar um termo confidencial de aceitação póstuma de mim mesmo, o qual eu assinei como Marona Brás, mas vi que fui erradamente registrado como Mario Brós. Aliás, isso me lembrou outra história: quando a literatura acabou pra mim.


***

Me lembro que o meu pai me olhou e disse: ou o video game ou a festa. Era justo, mas eu o odiei por isso. Talvez porque fosse justo demais. Enfim, fiquei com o video game de botões coloridos. Apertando seus botões me veio pela primeira vez a vontade de prazer, que resolvi imediatamente esfregando meu “tico” (a maneira carinhosa que minha avó me ensinou para tratar meu próprio pau, o que já não era mais muito viável a partir dos quinze anos) no travesseiro. Nada saiu de lá de dentro, e eu ainda fiquei com uma tremenda dor nas bolas. Depois disso, toda hora em que via a princesinha sendo resgatada do castelo do sr. Troppa (ou Koppa) pelo Mario ou por seu irmão Luigi, e percebia que as barras da sua saia levantavam e abaixavam no ar, toda vez era a mesma coisa. Até que um dia veio um negócio branco de lá de dentro do tico que eu não sabia o que era, mas tinha a certeza de que era o castigo pelo pecado capital me trazendo a conta. E não tinha ninguém com quem eu pudesse falar sobre o assunto, porque eu simplesmente não falava. Mas lembro que foi aí, antes de me matar pela segunda vez, que a literatura toda foi direto do meu travesseiro para o beleléu.

***

A noite já caía e, pra mim, o dia já subia enquanto eu vagava à procura de mim mesmo por entre as árvores e os espinhos, mais espinhos do que árvores. A noite sempre me trouxe o dia dentro da bolsa, como um presente de tia, e durante o dia eu estive sempre em algum lugar que não era nenhum lugar importante pra ninguém, nem pro senhor pai todo poderoso, nem pra minha orientadora educacional, ou pro psicólogo que era igual ao Freud sem ser o Freud, mas sim um filho da puta com uma barba como a dele dizendo sempre que o meu tempo psicológico tinha acabado quando eu começava a falar que ia me suicidar — e ele mal sabia que eu ainda tinha mais nove vidas para dar cabo. Só que eu já andava havia horas e não conseguia encontrar meu corpo em lugar nenhum. O máximo que achei foi um padre de batina estendido de boca aberta, com uma garrafa de vinho vazia ao lado, no mesmo lugar em que eu morri esfaqueado. Ele dormia e parecia feliz e contente por ter o fim do mundo em suas mãos. E ele era eu. Eu mesmo de batina.

Minha primeira reação foi avançar no seu pescoço e dizer que ele era o culpado, afinal, é bem fácil xingar padres, ainda mais se você for um deles também. Ele rapidamente se desvencilhou, me olhou furioso e disse:

— Eu estou aqui pra te lembrar daquele dia que você xingou deus na igreja. Assim, do mesmo jeito que está me xingando agora.

— Porra! Eu tinha uns dez anos e tinha tropeçado no banco na hora que o padre mandou sentar. Se você estivesse lá de barriga pra cima com um monte de carolas falando mal dos outros à tua volta, aposto que faria a mesma coisa.

— Tudo bem, mas eu sou o diabo — disse eu mesmo de batina.

— Ah, não! Você de novo?! Porra, dá um tempo, cara.

— Amigo, você está no purgatório. Queria o que, uma cesta de café da manhã com cachos de uva? — eu mesmo de batina me respondeu.

É, eu tinha que concordar com ele.

— Mas você vai ficar me atazanando pra sempre agora? — perguntei pra ele.

— Não. Tem uma fila aqui. E ela está bem grande. Já estão reclamando de falta de espaço na ala dos poetas e dos homens-bomba.Você vai acabar saindo fora rapidinho.

— Vocês dividem as pessoas por alas aqui? É isso?

— Se não fizéssemos nenhuma divisão isso aqui não seria o purgatório. Seria o inferno.

— E qual é a minha ala, então?

— Ala dos imortais.

— Ah-ah! Como assim, ala dos imortais?

— Onde ficam os homens de grande alma.

— E pra onde vão os outros? Os de alma pequena?

— Esses vão pr’um lugar parecido com um carnaval fora de época.

— Com mulheres e tudo o mais?

— Com mulher e tudo o mais.

— Ah! Foda-se! Morrer e ainda por cima ter que ficar ouvindo axé é foda. Prefiro ficar olhando pra mim mesmo de batina.

Pi-pi-pi-pi-pi-pi-pi-pi-pi! Um alarme apitou.

— Olha, vai andando que chegou a sua vez.

— Andando pra onde?

— Vai reto por ali — o diabo-que-era-eu-mesmo-de-batina apontou então para uma outra trilha de pedras. Tudo ali que não era de mato era de pedra.

Andei alguns metros quando vi uma cabana com um monte de ruídos vindo de lá de dentro. A maioria deles era composta por barulho de vidro quebrando, poesias gritadas aos gargalos e insultos da pior espécie — que se confundiam com as poesias gritadas aos gargalos. Vi que aquilo só podia ser algum tipo de sacanagem muito bem bolada do diabo, quando, ao abrir a porta, reparei que estavam todos ali dentro. Todos os Grandes. Fiquei um pouco desconfiado no início, quando vi o Oscar Wilde agarrando a Ana Cristina César.

Havia um bar feito metade com madeira, metade com espelhos no final da cabana. A cabana era maior por dentro do que por fora. Segui de esgueira e contornei uma mesa de sinuca, esbarrando sem querer no James Dean bem na hora da bola oito. No caminho ainda consegui dar um tapa na careca do Bogart, o que sempre foi um sonho meu — e, afinal, no purgatório não se vendem perucas. Quando vi, antes mesmo de chegar ao balcão, Marlon Brando surgiu no meu pescoço e o Bogart me cercou com os punhos cerrados e apontados para mim. Talvez este seja o único momento da minha não-existência em que eu tenha preferido estar num carnaval fora de época — pensei.

Apanhei um bocado. Me botaram as cuecas sobre as calças e então me liberaram. Segui andando um pouco tonto, me apoiei no balcão do bar, levantei minhas calças e pedi uma taça de Fundador. Prontamente o garçom — que era o W.C. Fields — me atendeu, ainda me alcançando um pano de prato para enxugar o sangue que escorria da minha boca. De repente ouvi um violão ressonando como se estivesse sendo espancado com enorme delicadeza. Como se fosse uma sadomasoquista com prendedores nos seios. De repente a música parou e ouvi alguns aplausos e outros gritos indefinidos e assovios e choros desesperados. Só sei que uns trinta minutos depois eu estava numa mesa tomando uísque com o Baden Powell, e o Tom Jobim era o garçom. Do outro lado da mesa, um Cartola sem nariz dedilhava uma caixinha de fósforo completamente fora do ritmo da música, mas certamente muito bêbado e feliz. Como o resto todo, menos eu, ainda. Pixinguinha colhia rosas no mato. Olhei para o Baden Powell e, muito comedidamente, perguntei:

— Sr. Baden, por que o Tom Jobim está nos servindo?

Ele nem me olhou. Esperou um minuto e disse:

— Aqui os novatos são maiores que os veteranos. É uma regra antiga.

— Eu não sabia dessa regra.

— Por que acha que Rimbaud escreveu aquilo tudo tão cedo?

— Aí é que tá, sr. Baden. Eu não sou nem o cheiro do Rimbaud.

— Então fique quieto ou vá pro carnaval fora de época, ora.

— Tudo bem. Mas o sr. me parece ter muitas regalias por aqui, ao contrário do Tom. E ainda assim, é um puta veterano. Com todo o respeito.

— Não. Não sou veterano nem novato. Sou um fantasma que ficou no meio do caminho.

— O Lautréamont também está aqui?

— Não. Isidore ainda está se tratando das dores. Ele e um monte de gente.

— E quanto ao sr.?

— Eu ainda sou responsável por produzir as dores. Não sei fazer outra coisa.

— Pois eu acho o seu trabalho de primeiro nível, sr. Baden.

Pedi licença e saí dali. Mal virei num corredor que dava nos banheiros e um senhor de cabelos brancos, óculos enormes de grau, largas costeletas e com uma cara murcha veio na minha direção e me parou com a mão no peito. Na outra mão tinha uma garrafa de uísque pela metade. Olhou pra mim enfurecido e falou:

— Morra!

— Mas eu já morri — respondi a ele.

Ele então se afastou um pouco e me examinou com os olhos enviesados e a cara inclinada. Me alcançou a garrafa.

— Porra! Então você já sabe o que tem que fazer.


www.omarona.blogspot.com


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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Maravilha, Léo!

Gaspar Lourenço disse...

já algum tempo tenho lido as tuas crÓnicas, ou contos, nao consigo diferencia-las. o Facto é que, acho-te muito bom naquilo que fazes. por vezes ponho-me a rir sem parar a maneira que satirizas cada situaçao por vc escrita, adoro a ironia que usas nos teus contos cronológicos. Adimiro-te bastante, tens sido uma inspiraçao para mim. Forças

Gaspar Lourenço, Luanda-Angola
23 anos
santuariopoetico.blogspot.com