domingo, 15 de agosto de 2010

O PARAÍSO >> Eduardo Loureiro Jr.

Estive no Paraíso e voltei para contar a história. Não, não se preocupem, não morri nem passei por uma experiência de quase-morte. Uma das coisas surpreendentes sobre o Paraíso é que não é preciso morrer para ir até lá.

E o leitor que não pense que se trata de uma pegadinha, que eu, ao final da crônica, vá dizer que estive num bairro de Belo Horizonte ou numa cidade de Santa Catarina. Paraíso é o que não falta, eu sei, mas aquele de que estou falando, e onde estive, é aquele paraíso que se supõe utópico, difícil de ser atingido.

Uma primeira coisa notável sobre o Paraíso é que ele, em praticamente tudo, se parece com a Terra. Posso até dizer que o Paraíso está na Terra, faz parte dela.. Materialmente falando, é assim como um Sítio do Picapau Amarelo, com direito a vovós bordadeiras e contadoras de histórias, cozinheiras espetaculares, sábios viscondes, emílias tagarelas, meninas de nariz empinado e homens valentes. No Paraíso, há árvores frutíferas de toda espécie, incluindo um pé de quincoa, que eu desconhecia. Mesmo que não se veja, o mar está próximo, e a qualquer momento pode surgir o Capitão Gancho.

Como veem, o Paraíso não é a monotonia que alguns — sem muita imaginação — presumem. Em matéria de animação, o Paraíso não deve nada à Terra, da qual faz parte, como eu já disse.

Outra ideia falsa sobre o Paraíso é que lá se vê Deus face a face, e se conversa com santos. Nada disso. Para quem não O via, Deus continua invisível e, para quem não dialoga com eles, os santos continuam incomunicáveis.

O leitor há de perguntar então que raio de paraíso é esse, qual é a vantagem. E eu lembro que no Paraíso há caramanchão e rede armada na varanda. Embora também haja pequenas rãs e uma ou outra barata, sem contar as osgas. "Grande coisa", dirá o leitor, "isso eu tenho na minha casa de praia". Sim, já lhe falei que o Paraíso é próximo ao mar.

"Qual a vantagem então?", insiste o leitor. E a resposta é simples, embora talvez seja incompreensível para alguns: no Paraíso, não há projeção. "Sem cinema, nem pensar", dirá o leitor cinéfilo. Mas não é disso que falo. O que está ausente no Paraíso é a projeção de que fala a psicanálise: "mecanismo de defesa que consiste em atribuir a terceiros ou ao mundo que o rodeia os erros ou desejos pessoais".

A impossibilidade da projeção é essencial para a identidade paradisíaca do Paraíso porque a única coisa capaz de estragar o Paraíso somos nós mesmos, a gente, os seres humanos. O Paraíso é bom como está, nós é que tentamos deturpá-lo, projetando nossas imagens sobre a cenografia já perfeita do Paraíso.

E que fique claro que, se a projeção está ausente do Paraíso, é apesar das ameaças constantes de seus visitantes, como eu mesmo. As pessoas chegam ao Paraíso e, por hábito, danam a projetar. Projetam medos em bichos, perigos em árvores, culpas nos outros visitantes. Fazem, enfim, o que costumam fazer em qualquer outro lugar da Terra. A diferença é que, no Paraíso, há os guardiães da clareza. Ao primeiro sinal de projeção, eles já alertam o visitante de seu procedimento enganoso, ilusório: "Esse receio é seu, essa ansiedade e essa responsabilidade são suas". Após ouvir dois ou três alertas desses, o visitante já vira Natureza, sem pecado e sem perdão, e torna-se ele próprio um guardião que não permite que nada seja projetado em si.


Os dias no Paraíso passam assim: em clareza, ânimo e abundância. E, quando é hora de voltar, embora se sinta uma certa saudade antecipada, percebe-se, com otimismo, que o Paraíso é só um experimento, um laboratório de leveza e alegria que merece ser espalhado por toda a superfície da Terra. Sem sermões ou pregações, sem ameaças ou condenações, sem receitas ou mandamentos, apenas evitando projetar e receber projeções para que a poluição visual daquilo que é nosso e que atribuímos aos outros, e ao mundo, vá se desfazendo e revelando a beleza que está por trás de nossos ilusórios cartazes e outdoors. A real beleza de si, dos outros e do mundo é o Paraíso bem à nossa frente.

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5 comentários:

Marilza disse...

É Eduardo, acho que o Paraíso está dentro de cada um de nós e na forma como vemos ou encaramos a vida.

Carla Dias disse...

Vou sair por aí, pretando atenção, livrando-me das projeções oferecidas e recebidas. Quero estar, ainda que por um tempinho, no paraíso.

albir disse...

É isso aí, Edu, me lembrou Drummond quando também nos ajuda a encontrar o "paraíso":

"descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver".

fernanda disse...

Mas vou te dizer que a projeção é mais tentadora que o fruto proibido. Eu preciso de um personal guardião da clareza grudado em mim 24 horas por dia (coitado, ia ter tanto trabalho...rs). Mas não custa tentar sozinha, né? Quem não quer o paraíso?

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É isso mesmo, Marilza. :)

Ué, Carla, mas você tem jeito de quem já vive no paraíso. :)

Insuspeitadas alegrias é o que mais há no paraíso mesmo, Albir. :)

"Personal guardian" é ótima, Fernanda.