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SONHO DE DICIONÁRIO >> Eduardo Loureiro Jr.

Dia desses, ganhei um presente tão exótico quanto um sorvete flambado ou um guarda-chuva de renda. Tratava-se de um dicionário de sonhos. O exotismo está na esdrúxula combinação. Cresci ouvindo de meu pai que o dicionário era o "pai dos burros", fonte de esclarecimento, repositório de definições precisas. E, durante as minhas noites de criança, fui aprendendo — muitas vezes com pesadelos — que os sonhos eram misteriosos e indecifráveis.

Como não se recusa um presente, ainda mais um presente sobre o qual se tem curiosidade, aceitei com satisfação o dicionário de sonhos, sem saber que começaria a usá-lo já no dia seguinte, quando sonhei que roubava um sapato, e não um sapato qualquer, mas o sapato-fone de Maxwell Smart.

No sonho, eu havia pedido emprestado ao atrapalhado agente americano seu par de sapatos. Ele havia aceitado me emprestar apenas o sapato do pé esquerdo, pois o do pé direito era o sapato-fone, por meio do qual ele poderia ser chamado a qualquer momento pelo seu chefe da CIA. A cena do sonho focava o sapato esquerdo na calçada, em close, e depois abria para mostrar Maxwell Smart tentando pular um muro calçado apenas com o sapato direito. Nessa hora, eu lhe roubava o sapato-fone e saía correndo com os dois sapatos na mão. Na cena seguinte, eu já estava calçado e pulava meu próprio muro, rapidamente para que o próprio Maxwell — ou um outro engraçadinho qualquer — não me roubasse os sapatos.

Eis o sonho. Enigmático, incompreensível, esfíngico. Perfeito para eu inaugurar meu dicionário de sonhos.

Como sou uma pessoa tanto onírica quanto enciclopédica, nutria esperanças de encontrar um verbete assim: "Roubar um artefato de um agente secreto = inveja profissional". Mas não havia tal verbete feito exatamente para o meu sonho. Tive que dividi-lo em partes.

Encontrei primeiro o verbete roubar, e devo confessar que jamais acertaria intuitivamente no significado de tal ato em sonho: Receberá uma jóia de presente. Fiquei animado, mas com um certo sentimento de culpa. Ando mesmo precisado de uma jóia ou qualquer coisa que eu possa converter em dinheiro, mas roubar — mesmo em sonho — não está no meu dicionário de princípios éticos. Pensei até na possibilidade de devolver os sapatos ao agente secreto na próxima oportunidade, ou seja, no cochilo da tarde, mas desisti quando li o verbete devolver objetos roubados: Terá insônia por algum tempo. Entre ganhar uma jóia de presente e ficar com insônia, preferi a primeira, mesmo com o alto quilate da culpa.

Fui em busca de outra parte do meu quebra-cabeça. Dada a associação do pé com o pênis, fiquei conjecturando se o sapato representava preservativo, mas não estava relacionada ao sexo a definição do dicionário dos sonhos. Sapatos: Não encontrará obstáculos para alcançar a meta. Como fossem sapatos de homem, o dicionário acrescentava: O êxito nos negócios virá mais tarde. "Mais tarde?! Por que não agora?" A ganância já estava tomando conta de mim. Controlei-me. Enquanto tardasse o êxito nos negócios, eu iria sobrevivendo da jóia que ganharia de presente. Mas a coisa foi se complicando e, na batalha entre o caos do sonho e a precisão do dicionário, o primeiro começou a mostrar sua força. Ter sapatos pretos (como os do agente secreto): maus tempos estão chegando. Depois da jóia, com certeza. Eu não deveria gastar demais logo após ganhar o presente. Mas os maus tempos viriam antes do êxito nos negócios — ou seja, seriam temporários — ou chegariam já depois da bonança? Que mais poderia me dizer o dicionário?

Folheei apressado as páginas, já preocupado em encontrar "pular muro = vontade de trair a esposa", o que não ficaria muito bem para um recém-casado como eu. Realmente, no verbete pular, dar um pulo significa Você é muito incoerente nos assuntos sentimentais. Mas incoerência interior não se traduz necessariamente em traição, o que me tranquilizou, ainda mais depois que li o significado de pular sobre um obstáculo. Já que não havia pular sobre um muro, o mais correto mesmo é que eu aceitasse o augúrio: Receberá notícias alegres. Um final feliz para o meu sonho, o que muito me aliviou.

Como tenho mania de concluir, resolvi fazer um pequeno resumo da interpretação: Ganharei um valioso presente que me auxiliará a suportar temporários maus tempos até que o êxito se estabeleça em meus negócios e, mesmo sentimentalmente incoerente, receberei notícias alegres.

Que notícias alegres são essas, fiquei me perguntando. E quando, na noite seguinte, sonhei com um desconhecido — alto, quase um gigante — que me apertava a mão, corri para o dicionário...

Mas fique tranquilo, não aborrecerei ainda mais o estimado leitor com essas esquisitices. O alarme do bom senso toca estridente. Hora de acordar. Fim.

Comentários

vanessa cony disse…
Muito divertido,Eduardo!!!
Parabéns.
Gosto muito de textos comuns do nosso dia.São ao meu ver eriquecedores a medida que valorizamos as pequeninas coisas.
Mais uma vez.Parabéns.
fernanda disse…
Eu tenho dois dicionários dos sonhos e, para muitos verbetes, eles têm interpretações totalmente diferentes. Então, escolho o que me convém. Como meus sonhos também são complexos e eu preciso dividir em partes, como você fez, às vezes pego um significado de cado livro e monto a conclusão que mais me agrada. No fim das contas, todos os meus sonhos significam coisas boas...rs
Bjos!
Que bom, Vanessa, que compartilha do meu gosto pelas miudezas do dia-a-dia. :)

Quer dizer, Fernanda, que você é uma enganadora do destino? :) É isso aí: livre-arbítrio é pra quem pode.
Anônimo disse…
Não é CIA, é CONTROLE. Abraço.
Olá, Anônimo. Nem tudo é verdade no sonho. Nem na crônica. :)

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