quarta-feira, 4 de agosto de 2010

AINDA QUE NÃO TENHA BOLO >> Carla Dias >>


Eu gosto de andar de ônibus.

Uma das minhas sobrinhas fará aniversário daqui algumas semanas. Nos seus quase dez anos de idade, disse-me, ao telefone, que eu tenho porque tenho de ir ao aniversário dela, “mesmo que não tenha bolo”. Ano passado, ela fez o mesmo pedido, mas ela mora em outra cidade, caiu numa sexta, véspera do lançamento do meu livro, então dei o cano na fofa da sobrinha. Foi de partir o coração, sem contar que ano passado não havia a opção de não ter bolo.

Ainda ao telefone, imitei a voz esganiçada que ela gosta de fazer quando o assunto é importante e envolve um quê de coação sentimental. “E se eu estiver na África nesse dia?” perguntei, e ela foi logo acertando as coisas: “Ué... Você pega um ônibus e vem pra cá!”. E eu sorri, quietinha, encantada com a geografia infante. “Mas e se eu estiver na China?”, rebato. “Ah, tiiiia! Você pega um ônibus e vai até a África, e depois pega outro e vem pra cá!”.

O que mais me encanta é a distância que as crianças mantêm das pessoas e das coisas, porque para elas tudo é logo ali, não leva mais do que alguns minutinhos, cabe num abraço. Para a minha sobrinha não seria nada impossível que eu atravessasse dois países, num mesmo dia, de ônibus, só para estar num terceiro na hora de ela assoprar as velinhas... Ou não, afinal, o convite-intimação incluía um “mesmo que não tenha bolo”.

Depois da Inglaterra, parei com o “e se” e mandei um beijo, mas não sem antes ela dizer que eu podia dar um livro de presente para ela... Ou uma boneca... Ou uma roupa... Ou apenas levá-la para passar uns dias lá em casa. Enfim, além de atravessar três países de ônibus para chegar a um quarto, em menos de um dia, ainda teria de parar numa livraria... Ou numa loja de brinquedos... Ou numa loja de roupas... Ou inventar um feriado que calhasse com o dia de aniversário dela para poder trazê-la para minha casa e ler uma edição de mil novecentos e nada do livro “Emília no país da gramática”, que é fantástico, mesmo a gramática sofrendo mutações.

Desliguei o telefone, rindo sozinha, contando para as paredes que ganhei na loteria seis vezes, porque cada sobrinho meu é um prêmio. Eles sempre dizem algo capaz de me encantar, fazer-me cair na gargalhada, mesmo nas suas crises – e nas minhas - de emburramento, teimosia, enfim, eles não são perfeitos, como qualquer pessoa, mas cabem perfeitamente no meu amor de tia.

Mas o fato é que eu adoro andar de ônibus.

Nesse bate-papo com a minha sobrinha - que também envolveu certo aborrecimento, porque o irmão dela, meu sobrinho de cinco anos, rasgou a foto do Justin Bieber que ela namorava, no ônibus, voltando para casa de um passeio, e ela ficou extremamente aborrecida, assim como o irmãozinho dela, que acha o Justin um “feioso” –, caí na infância dos meus desejos, versados na minha adultice, e comecei a me imaginar andando de ônibus pela África, com paradas providenciais pelas comunidades nas quais a música e a dança predominam. Depois, o ônibus equilibrado sobre a Grande Muralha da China, meu nariz encostado no vidro da janela, os olhos engolindo a beleza do lugar. Já na Inglaterra, o ônibus estacionaria na porta da casa do Sting, que me convidaria para um chá e com quem eu teria uma longa conversa sobre a origem das suas canções.

Quando coloco os fones do meu mp3 player nos ouvidos e aperto play, a música me acompanha até a casa da minha mãe. São três ônibus, duas horas e meia de viagem na ida e outras duas horas e meia na volta. Eu nunca estive na África, na China ou na Inglaterra. No Brasil, passei apenas por algumas cidades do interior de São Paulo, a trabalho, e conheço Poços de Caldas e São Thomé das Letras, em Minas Gerais, e Foz do Iguaçu, Paraná, onde estive por conta de um casamento, há muitos anos. Também a trabalho, passei, mas de raspão mesmo, pelas cidades do Rio de Janeiro, de Salvador, de Brasília e de Curitiba. Considero-me uma órfã das viagens, mas espero ser adotada pelo desejo de cair no mundo, dia desses.

Apesar de tudo, andar de ônibus pela cidade me apetece, ainda mais com trilha sonora. Há dias em que as cenas são tão ternas, em outros, violentas. E há dias em que tudo se mistura, como se eu estivesse, num mesmo dia, passado por três países de três continentes diferentes e estivesse chegando ao quarto, ao meu lar... Ainda que não tenha bolo.

www.carladias.com


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6 comentários:

fernanda disse...

Então espero que um ônibus da vida um dia te traga a Belo Horizonte. Aí vou te apresentar para as meninas da minha família e você vai ver que estão todas igualmente apaixonadas pelo Justin Bieber (que é igualmente odiado pela ala masculininha...rs). Bjos!

Carla Dias disse...

Fernanda... Pode deixar que meu ônibus passará por Belo Horizonte, quando eu resolver despregar os pés daqui. Quero ver de perto essa safra de Bieberets : )

albir disse...

Carla,
não esqueça o Rio, que a gente prepara um bolo. Ou um pão de açucar.

Carla Dias disse...

Combinado, Albir!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, essa sua crônica sobre ônibus me fez esquecer um pouco o sonho do teletransporte. :)

Carla Dias disse...

Eduardo... Deixa eu sonhar um pouco com teletransporte e depois te conto como seria essa viagem : )