Pular para o conteúdo principal

ARRUMAMALAÊ >> Eduardo Loureiro Jr.

Na véspera de não partir nunca
Ao menos não há que arrumar malas
Nem que fazer planos em papel,
Com acompanhamento involuntário de esquecimentos.
(Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa)

Viagem boa é voltar para casa. Viagens para mim sempre foram turbulentas como a música do Neo Pi Neo: "Rámu na areia naum, a rural rái atolá. Ramu dêce pra impurrá, ramu dêce pra carrá e a rural desatolá." Viagem era "programa de índio", como se dizia quando eu era criança — embora, até onde eu saiba, índio não goste muito de viajar.

Só comecei a gostar de viajar quando saí de Fortaleza, minha cidade natal, para morar em Teresina. Então eu viajava para Fortaleza, o que era um retorno para casa, e depois tinha que voltar para Teresina, que era minha nova casa. Viajar passou a ser uma mudança temporária de casa.

Isso contraria o senso comum em relação às viagens. As pessoas, de uma maneira geral, gostam de viajar para conhecer outros povos, culturas, paisagens. Esse gosto das pessoas pelo estranho é estrangeiro para mim. Mesmo não se tratando de viagens, me impressiona como as pessoas gostam de fazer coisas diferentes, de sair de casa. Come-se, encontra-se com os amigos, ouve-se música, até se vê televisão fora de casa. Não sei como não inventaram ainda estabelecimentos especializados em mijar e cagar fora de casa. Seria um sucesso. Muita gente adoraria sentar num troninho diferente, lendo revistas diferentes, se asseando com uma ducha diferente e se enxugando com um papel higiênico diferente. Esse gosto excessivo de variedade revela uma profunda insatisfação com a própria vida normal, cotidiana.

Mas fui tomando gosto por viajar, e algo estranho aconteceu. Comecei a me sentir em casa fora de casa, com aquela sensação de que "eu bem que poderia morar aqui" em Cuzco, ou em Firenze. O mesmo não valeu para Puno, Roma ou Buenos Aires, então não deve ser uma questão de "eu poderia morar aqui" mas de "eu já devo ter morado aqui". Sim, porque não há prova maior da reencarnação do que as viagens. Que outra palavra, que não "viagem", poderia definir melhor essas nossas décadas aqui na Terra? Sim, viemos a trabalho, mas aproveitamos a passagem (que é cara) para também dar um passeio. Como já viemos para cá várias vezes, para muitos de nós trata-se de uma viagem para casa, assim como a chamada "morte" — na falta de uma melhor palavra — representará um retorno para outra casa, outra Fortaleza. Aliás, palavra melhor para morte talvez seja "embarque". E não precisa nem ser claustrofóbico para admitir que carros, ônibus e aviões se assemelham a caixões. Por isso que as pessoas — contrariamente às estatísticas de acidentes — têm mais medo de avião que de carro ou de ônibus. O avião é um caixão subindo para o céu: uma sugestão muito poderosa de morte.

E isso tudo porque eu viajo amanhã. De Brasília, minha atual casa, para Fortaleza, minha casa primeira. As malas eu não arrumo de véspera. Quem me garante que não morrerei durante a noite, perdendo tempo com a arrumação de uma mala que nem vou usar. Não, isso é só uma brincadeira, não o real motivo. Arrumo minha mala apenas duas ou três horas antes de embarcar porque levo coisas que estou usando. Não tenho suprimentos-extra para viagem. Quando alguém fala que já tem uma mala pronta para o caso de uma viagem repentina, não entendo. Se eu tivesse uma mala pronta para viajar, não teria roupa para vestir. De certa forma, eu fico em casa como quem está viajando: apenas com o necessário. Vestindo uma calça, lavando outra. Sete camisas, uma para cada dia. Três pares de meia e três cuecas — esse pequeno excesso porque meias e cuecas se usam uma só vez e, dependendo de onde se está, não secam em 24 horas. Calçados só dois: um tênis para sair e um chinelo para ficar. Minha mala é pequena para "viajar" no dia-a-dia sem pagar excesso de bagagem.

Mas nem tudo é roupa, quando se trata de viajar. Há outros pequenos arranjos: números de telefone de pessoas a contactar, documentos e cartões (de crédito, de plano de saúde) , aparelhos eletrônicos (celular, notebook, iPod, com seus respectivos cabos), impressos (para os atendimentos e cursos a dar e receber), etc. Isso sem contar as coisas que se tem de deixar prontas em casa, na cidade de origem: roupa lavada, compromissos negociados, recados, avisos, lembretes. E ainda tem as despedidas, os tchaus, os até-logo, os vou-mas-volto.

Então peço licença ao leitor para tomar ali umas providências. Se eu estiver mesmo me sentindo em casa durante a viagem, continuo escrevendo normalmente aos domingos pelas próximas semanas.

Tchau. Até logo. Vou, mas volto.

Comentários

Marilza disse…
Eduardo, não precisa pedir licença. Escreva! Amo suas crônicas.Escreva e nos delicie com sua "viagens".
Eu viajo sempre! Só ou acompanhada mas, viajo. Ás vezes com mala pronta na véspera (sim mulheres, em geral teem umas coisinhas extras, rsrs), ou de última hora.
Boa viagem e...volte!
fernanda disse…
Eu adoro viajar, mas adoro também a sensação de estar de volta a BH. Estive em lugares que me marcaram produndamente e tenho vontade de ir em tantos outros. Essa sensação que você descreve, de estar de volta, eu tive nitidamente no Palácio do Quintadinha, em Petrópolis. Quando eu entrei lá fiquei toda arrepiada, até chorei...rs. Sem motivo aparente. Tenho certeza de que isso é ligação de vidas. Não dá nem pra explica, só quem já se sentiu assim sabe.

Demora não, tá? ;)
Anônimo disse…
Pegue carona nessa viagem:
SAbia que espíritos não sentem? A não ser que eles usem nossos corpos como veículo para que consigam sentir. Qdo vamos a algum lugar que nunca vimos e nos sentimos em casa... pessoas estranhas que no primeiro contato nos deixa intrigado com tamanha sintonia... são os espíritos que usam nosso corpo para voltar a sentir. Tdb pq isso nos faz bem também.
Espíritos pegam uma carona, sabe como é? Bons sentimentos=bons espíritos :) Dá prá ver que eu adoro viajar né? rs
Que os bons espíritos te acompanhem nessa viagem!
Bjo, kris.
albir disse…
Só tem que pedir licença quando não escrever a crônica de domingo. E dar muitas explicações, que consideraremos sem muita benevolência.
watusi disse…
A vantagem da internet é justamente essa, se você for e sentir novamente "eu poderia morar aqui " e resolver ficar, nós não ficaremos orfãos, já que de qualquer lugar que estiver estará mesmo em casa por aqui!
Oi, Marilza, minhas crônicas ficaram muito felizes com sua declaração de amor. :)

É, Fernanda, mistérios...

Viajei na sua viagem, Kris. E adorei viajar com você.

Vixe, Albir. Com essa burocracia toda para não escrever, acho que vou continuar escrevendo. :)

Watusi, você matou a charada. O Crônica do Dia é minha casa. :)

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …