PARTES NUM OUTONO >> Sandra Modesto

 

Entardecia. Na boca da noite, um lento vendaval. Cheguei ao Tijuco. Quando o sol corta certa ansiedade, quando eu morro algumas saudades, quando minha pátria morreu em mim. Ela volta. Sinto o cheiro devorando nossas inquietações. E agora?

Noite é um lugar onde as dores multiplicaram- se e há outono nem sempre igual. Por aqui, saudades de um sagrado verão. Agora eu sou misturada.

Não importam as estações, de vez em quando uma temperatura miúda, um resfriado pequeno, alguns sonhos cantando.

O rio debruçado em estranhezas. O corte da cana, o aroma de poeira, se é que, poeira tem aroma. Devoro o olhar numa devastação chorosa.

Um senhor correndo para buscar o facão e levar para roça, uma criança chorando porque não ganhou chocolate, um sol amornando os dias, o moço pedindo alimentos de casa em casa. Vi arroz, feijão e pensei: “Óleo”.  Peguei um litro na mercearia da esquina, pedi para anotar, cheguei perto e entreguei. Naquele domingo, ele ia comer o básico no almoço.  “Deus te abençoa”. “Amém”!

A vida anda tão sombria. E o tempo corta, segue, e tudo é desigual.

Eu envelheci. Já marquei um roteiro rumo aos médicos. O aperto das mamas, o aumento do grau dos óculos, a injeção para controlar a osteoporose, os medos ao abrir todos os resultados dos exames sofríveis. Eu sou um rascunho murmurante aos poucos. É o meu jeito de contar histórias.

Lembro-me dos meus cabelos amarrados, soltos, cachos pelas pontas, eu menina, eu me permitindo a beleza de uma juventude. Ela se foi. Mas o espelho é meu amigo. Parece ser. Certeza eu tenho apenas a da morte. Tudo morre. Até a máscara cair.

Vou deixar um texto indeterminado. Não somos mulheres fortes o tempo todo. Choramos, desintegramos lentamente. Sorrimos. E voltamos. Eu voltei. Talvez, seja uma volta pequena. Ando meio pequena. Aqui no Tijuco, tá tudo seco.

Notas da autora: Trecho de um texto para o meu quarto livro. Penso em publicar não sei quando.

Comentários

Zoraya Cesar disse…
"Eu sou um rascunho murmurante aos poucos."

Excelente texto, Sandra, excelente. Cheio de frases agudas disfarçadas de poesia. Muito bom.
Alfonsina disse…
Que texto lindo e poético, amei!
Albir disse…
Que lindas e ricas imagens, Sandra! A gente entra no texto e sai regenerado.
Sandra Modesto disse…
Obrigada, Zoraya, Alfonsina e Albir.

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