segunda-feira, 31 de março de 2014

EI, VOCÊ NÃO É SHELDON COOPER! >> André Ferrer

Revi alguns episódios de The Big Bang Theory (TBBT). Voltei à primeira temporada e consegui tirar uma teima.

Sheldon apresenta, sim, algumas características da Síndrome de Asperger. Isto é inegável. Trata-se, no entanto, de uma sitcom e Sheldon é plano tanto quanto é possível a um personagem ser plano nesse gênero de entretenimento. Até mesmo o Charlie (Sheen) Harper de Two and a half men (Dois homens e meio) apresenta algumas curvas no seu design psicológico.

Para quem não lembra ou não sabe, personagens de narrativas podem ser classificados como planos ou esféricos de acordo com a sua complexidade. Em geral, os personagens dos grandes romances são esféricos, o que dificilmente acontece nas novelas e nas séries de TV.

A Síndrome de Asperger é um problema que traz muito sofrimento às pessoas desde a infância. Encontrei comunidades na web onde fãs de TBBT se dizem “aspies” enquanto comentam as peripécias do Sheldon e sua turma! Um absurdo motivado por modismo e ignorância. Insisto, portanto, neste conselho para quem acha o Sheldon o máximo: leia um artigo ou assista a um vídeo sobre os aspies. Aprender com os problemas de quem realmente tem problemas conduz à reflexão. Muita gente amadurece e abandona o papel adolescente de “poser” (imitador inconsequente) queixoso.

Como eu ia dizendo, procurei um site para fazer o download da primeira temporada da série. Queria me certificar de que Sheldon era mais caricato e dramaticamente pobre do que Charlie Harper, o compositor beberrão, mulherengo e chauvinista que hospeda o irmão e o sobrinho em Malibu. Revi, cuidadosamente, o início de TBBT e, para ser exato, empreguei uma amostra de três episódios. Descobri, então, que já era o bastante.

Eu não encontrei nenhuma profundidade em Sheldon e, novamente, perguntei a mim mesmo: o que, afinal de contas, justificaria tanta badalação ao redor de TBBT?! Por que tantos jovens se autoproclamam fãs número um de um sujeito como aquele? Ora, uma pessoa como Sheldon, no mundo real, faria e seria tudo o que qualquer jovem simplesmente não desejaria fazer e ser nem por duas horas nas suas vidas sensacionais, ou seja, estudar muito (sim, até os gênios precisam estudar!) e ter um comportamento esquisito. Agora, eu pergunto: alguém seria assim por escolha? Claro que não.

Para os jovens fãs e imitadores (que, aliás, ficam ainda mais planos que o original), Sheldon é como aqueles aparelhos vibradores que prometem “exercício físico e perda de calorias sem o menor esforço”. Sintam-se geniais! Basta fazer de conta que é o Sheldon sem ser um equivalente real do Sheldon porque, agora, existe a modinha de ser nerd sem ser nerd. Porque simplesmente capitalizaram em cima da rica e profunda figura do pária (excluído). Como se a existência do nerd tivesse alguma coisa a ver com popularidade e “espírito descolado”.

Um pedido: respeite quem não tem escolha. Não imite nem se divirta com caricaturas de gente que só pode ser como é.


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2 comentários:

Zoraya disse...

Estamos mesmo na era das reproduções do vazio. Na falta de herois ou personagens ou personalidades com substância, o pessoal vai imitando o nada que está pela frente. Estou pessimista hoje: acho que seu apelo (que é o meu também) cairá no vácuo. Pensar dá trabalho. Como sempre, bom te ler.

albir disse...

Muito importante o seu pedido, André: respeite até o que não se respeita. Abraço.