sexta-feira, 14 de março de 2014

DICIONÁRIO DA CONDESSA ANNABELLE CHOSEDELOC >> Zoraya Cesar

Vagando pelos jardins, ouvindo a cantilena monótona de Mlle. Fleur du Cactus, dei-me, repentinamente, por entediada. Ela não parava de falar do jovem tenente por quem caíra de amores e que estava tentada a largar a confortável vida de casada para viver uma aventura. Mon Dieu, como são parvas essas jovens. 

Cresceu em mim uma generosa – minha principal característica, juntamente com a modéstia – e irreprimível vontade de ensinar às jovens inocentes e incautas o que realmente é a vida. Confesso que o desejo de ter o que fazer também me mobilizou. Comecei então a elaborar um dicionário, no qual revelo a verdadeira natureza dos objetos que nos cercam, na esperança de ajudá-las a entender os perigos do mundo  e como tirar proveito da vida. Esses são os primeiros verbetes:

RELÓGIO

Substantivo masculino e, portanto, praticamente inútil. Criado com o específico fim de infernizar as mulheres, a palavra deriva do latim horologium, conhecimento da hora. Para quê? São sempre horas de fazer alguma coisa, geralmente enfadonha e estéril: hora de pegar os remelentinhos na escola; de receber a insuportável família do marido barrigudo; de se reunir com as amigas para jogar bridge e ouvir todas as mazelas íntimas de suas vidinhas medíocres; de visitar a sogra rica e pão-dura, incapaz de servir um chá decente... Soube que daqui a alguns séculos as mulheres queimarão sutiãs para simbolizar sua liberdade. Mon Dieu! Como são tolas! Deveriam queimar os relógios, pois é com eles que a sociedade nos controla. 

Um relógio não passa de um mostruário macabro no qual você vê que, a cada segundo, está mais velha, mais feia, mais próxima da viuvez – se tiver sorte de ainda estar casada, se nenhuma coquette 30 anos mais nova não tiver roubado seu marido e ficado com todos os bens, fazendo com que aqueles anos de sacrifício nos quais você aturou o careca rabugento de seu esposo fossem em vão. 

Mulheres pontuais são a coisa mais irritante da face da Terra, mais até que o latido do poodle de Mme. de Pompadour. Não à toa essas inglesas são tão non-charmantes! O uso do relógio não deixa desculpas para ficarmos um pouco mais ao léu, para chegarmos atrasadas àquele chá entediante, para aproveitarmos um pouco melhor o amante. Ah, encontrei uma utilidade para tal objeto. Saber a hora certa de o marido chegar. Isso, claro, deveria ser preocupação do amante, não nossa, mas, enfim, o mundo é injusto com as mulheres.

ESPELHO

Do latim speculum, mas, mon Dieu, mulheres que citam latim são tão aborrecidas que deveriam ser confinadas ao claustrum. Outro substantivo masculino que, sem sombra de dúvidas, foi criado para nos torturar. É descrito como uma superfície polida, com capacidade para refletir a luz. 

Vamos revelar a verdade. Não é uma superfície polida, mas, ao contrário, mal-educadíssima, pois é de uma sinceridade acachapante, e sabemos nós, mulheres vividas e sábias, que toda sinceridade acachapante é uma monstruosidade social. O espelho reflete, impiedosamente, que a maquiagem carregada não esconde mais as rugas; que os cabelos brancos agora crescem nas narinas e descem pelo nariz afora; que os seios perderam a luta contra a gravidade; que os braços, antes roliços, agora viraram um depósito de gordura balouçante, que nos faz usar vestidos de manga comprida mesmo num calor senegalês.

Não ousem dizer que “polida” se refere ao estado da superfície e não às maneiras sociais, ou serei obrigada a mandá-las pentear os bigodes do Marechal. Sou uma mulher culta, sei o que “polido” quer dizer. Mas o dicionário é meu e é melhor as senhoritas aprenderem logo as lições que passo, antes que seja tarde. Olhem o relógio, olhem-se no espelho. Vocês já não são tão novas quanto há alguns dias. Seus maridos já não as olham com o mesmo interesse, mas sim à mais nova debutante apresentada na Corte, ou, segundo ouvi dizer, à última mulher-fruta aparecida no mercado (oh tempora, oh mores). 

Um espelho não reflete a luz. Reflete a verdade, e a verdade é a mais cruel das criaturas.

DIAMANTE

Deriva do grego adamas, invencível. É a mais dura substância do planeta. (Soube que, daqui a mais alguns séculos, um sujeito norte-americano, essa raça esquisitíssima, degenerada dos ingleses, claro, criou uma espécie de ser com estrutura de adamantium, dotado de poderes especiais. Que falta de criatividade! Muito mais plausível um herói, talvez um gaulês, que, tendo caído num barril de poção mágica, adquiriu uma força extraordinária e... Nós criamos isso? Ohhh, como é bom ser francês... ).*

Diamantes, uma poderosa arma contra os relógios, as horas e os espelhos, pois essa pedra deixa até a feiíssima Mme. Mathilda Air du Velhuscosée bonita. E, numa época de vacas magras (me perdoem a expressão camponesa), podem ser vendidos por bom preço, permitindo que sua possuidora mantenha as aparências. 

A mulher que possui diamantes é invencível, e, para consegui-los, ela pode e deve se transformar na substância mais dura do planeta; nenhum estratagema é suficientemente ilegal, imoral ou engordativo para se conseguir um diamante.

No próximo tomo falarei sobre outro substantivo – masculino, claro – de crueldade inexcedível, o tempo. 

E aproveitarei para ensinar como não beber, por engano, o chá especialmente preparado por você para a sogra pão-dura, e morrer no lugar dela, como uma burguesa desmiolada qualquer.

*sou fã do Wolverine, a Condessa é que é um pouco rabugenta...


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11 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Zoraya, muito divertida a rabugice de Madame Annabelle. :)

Ana Luzia disse...

Madame, já tem sua primeira aluna inscrita! Estou à frente do espelho, olhando pára o relógio, aguardando mais e mais dicas incríveis!

que o "tempo" passe logo, pra eu descobrir que grandes revelações me aguardam!!

e se alguém quiser me presentear com um diamante, estou às ordens, rsrs...

bj!

Mauro disse...

Adorei, Zô! Ácida como ninguém! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Carla Dias disse...

Adorei, Zoraya!
É muito bacana o humor que você coloca nos seus textos, daquele que faz até Condessa rabugenta ficar muito, mas muito interessante. Beijos.

Cecilia Radetic disse...


Espero que Madame dê o ar da graças mais vezes, pois seus conselhos são sábios.
Adorei o dicionário. E também sou fã do Axterix!
O único problema é que agora fiquei com raiva do meu espelho, mas o relógio já tranquei na gaveta!

Anônimo disse...

Zo, esse sua madame se corresponde com o Machado de Assis? creio que sim..."verdade é a mais cruel das criaturas...verdade...Acho que madame copiou do provérbio húngaro "diga a verdade e saia correndo"...nesse caso quem sai correndo não é o espelho...rs...rsbeijos. Aglae

Anonimus Barrigudus Carecodoricus disse...

Tô com ciúmes do Wolverine...

Erica disse...

Ri muito... criatura tresloucada mesmo essa CONDESSA ANNABELLE CHOSEDELOC (tive que copiar e colar o nome pra ficar mais fácil rs.), mas de ideias avançadíssimas, muito alinhadas (onde será que eu já ouvi falar isso? rs) com a atualidade. Adorei as descrições dos primeiros verbetes. Fiquei muito curiosa pra saber o significado da última palavra prescrutada nesse dicionário inovador: o cruelíssimo e inexorável TEMPO!

aretuza disse...

quero fazer o curso da madame anabelle!!!

albir disse...

Muito bom, Zoraya, fico aguardando o próximo tomo.

Carlos Henrique disse...

É impossível não devorar seus textos numa voraz e súbita mordida, Zoraya, são de um paladar doce, ardente e suculentos irresistíveis.
Estamos ansiosos pelos próximos tomos!