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LERO-LERO >> Paulo Meireles Barguil

Lero-lero, conforme o Houaiss, significa conversa vazia, inútil, vã. Essa expressão deriva de léria – lábia, fala astuciosa que visa iludir, enganar outrem – e lereia – conversa inútil, estéril, oca, sem nenhum resultado prático; conversa fiada, conversa mole.

Em meio a tantas conversas, é natural que, vez por outra, a gente entre em uma sem futuro. Até mesmo porque, não se sabe, a priori, o resultado dela, a não ser que pelo menos uma pessoa intencione enganar, em virtude de seus objetivos...

Nem sempre a verdade é dita, seja porque algo pode comprometer alguém – na maioria das vezes, o próprio falante, como é o caso da maioria daqueles que exercem o poder e desejam com ele permanecer – e implicar em mudança da realidade, seja porque a pessoa sabe que ignora – um professor, por exemplo, que, em pleno século XXI, tenta manter a máscara de que conhece tudo e, em vez de reconhecer seus limites e dizer que vai pesquisar, prefere falar difícil e manter a pose.

Rogério Cardoso interpretou com maestria Rolando Lero personagem da Escolinha do Professor Raimundo, criada por Chico Anysio – que, em virtude dos parcos saberes, tentava, com muita criatividade, acertar a resposta da pergunta feita pelo mestre, mas sempre falhava!

O que poucos sabem é que a verdade nunca é dita, pelo simples motivo de que ninguém é onisciente. Nesse sentido, Gibran, em O Profeta, sabiamente nos alerta: "Não digais: 'Encontrei a verdade'. Dizei de preferência: 'Encontrei uma verdade'".

A Ciência expressa o esforço da Humanidade para decifrar os infinitos enigmas da natureza e, assim, contemplar a verdade. Nos últimos milênios, várias teorias foram do céu ao inferno, enquanto outras fizeram o caminho inverso. Há, também, as que ficaram um tempo no limbo, também nomeado de purgatório. E, finalmente, aquelas que, embora paridas, nunca fora apresentadas...

Todos somos convidados a expiar as falhas, os pecados, as omissões derivantes dos nossos sentimentos, pensamentos, palavras e ações... Não estou fazendo um discurso religioso, no sentido estrito, mas uma reflexão espiritualizada, no sentido lato, pois estou me referindo a todas as áreas da nossa vida.

No caso da Ciência, o purgante de uma Teoria é outra Teoria, que, muitas vezes, sem qualquer cerimônia, pisa no pescoço da outrora reinante, toma-lhe a coroa e o trono, passando a receber a adoração dos súditos.

De modo geral, a constituição do conhecimento é um processo é lento e demorado, recheado de hipóteses e fracassos, onde o acerto é a exceção...

Assistimos no ambiente acadêmico a uma corrida maluca, tal como aquele desenho animado do final dos anos 1960, em que muitos, desde renomados pesquisadores a estudantes da Educação Básica, tentam encontrar atalhos alguns lícitos, outros nem tanto... para alcançar o sucesso ou cumprir a missão com o menor esforço possível.

No final do mês passado, a Nature revelou que mais de 120 artigos publicados nas revistas científicas Springer e IEEE, entre 2008 e 2013, foram removidos pelas respectivas editoras. O motivo? "Elas descobriram que cada um deles era jargão sem sentido, todos gerados automaticamente por computador.". Eles são os lero-leros da Pós-Modernidade!

Há de se perguntar: "Mas os artigos não eram revisados por pareceristas ad hoc?". Se sim, como eles não perceberam isso? Teriam ficado com vergonha de dizer que não entenderam ou que não concordaram? Se não, quer dizer que existe Comitê Científico de fachada?

Ainda bem que não estou na Idade Média e não corro risco de ser queimado naquele tipo de fogueira, por isso eu lhe indago, fulgurante internauta: "Será que, muitas vezes, a produção acadêmica mundial não é um grande 'leriado'?".

Comentários

Paulinho, gostei do seu leriado. :)

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