terça-feira, 18 de março de 2014

DO CONTRA >> Clara Braga

Ao longo do tempo percebi que as crianças não leem mais as revistinhas da Turma da Mônica como liam antigamente. E se leem, são aquelas nas quais a turma já é adolescente. Nunca li uma dessas, puro preconceito, eu sei, mas acho que Turma da Mônica de verdade é aquela com eles crianças.

Também não se assiste mais Chaves, como pode? Chaves é tão bom! Lembro de uma amiga minha que disse que não permitia que a sua filha de 2 anos assistisse Chaves porque toda vez que ela assistia queria bater nas pessoas, ou seja, Chaves é ruim para a formação de uma criança. Será? Se fosse assim, como pode as crianças não lerem Turma da Mônica e serem iguaizinhas ao personagem Do Contra?

Comecei a dar aula de artes para crianças em uma escola e, pelo visto, criança hoje em dia é assim. Você diz "vamos falar baixo para ouvir o colega", então eles começam a berrar e fazer sons tão estridentes que eu tenho certeza que só os cachorros escutam, porque eu já fiquei surda! Você diz "não pode correr, você vai machucar as crianças que estão no corredor", então eles correm mais rápido que The Flash, embora também nunca tenham ouvido falar dele. Você diz "agora não vamos usar o caderno, vamos fazer uma brincadeira e depois estudamos a lição do livro", eles prontamente abrem o livro e começam a fazer a atividade. Você fala "ok, então se vocês querem livro, todos pegando os livros, vamos fazer as atividades juntos", e eles rapidamente respondem: "aaah nããão, Tiiia, a gente quer brincar!" Quem entende?

Criança também tem uma habilidade impressionante de mudar de humor. Você leva eles para a sala de artes e eles parecem que vão derrubar a sala. Correm, gritam, pulam, arrastam cadeira, se jogam no chão, entre outras coisas. Ai você dá uma bronca e diz que desse jeito eles vão acabar se machucando. Eles fazem aquela cara de arrependidos, tristes, aquele olhar baixo de quem sabe que fez besteira. Em dois segundos, eles estão pulando, gritando, se jogando etc, como se nada tivesse acontecido. Eis que, como avisado, um se machuca. Aé vem a fase manhosa, você sabe que nem machucou muito, mas eles fazem aquela cara de dor e dizem: "Tiiia, fulaninho me machucou, tá doendo. Tiiia, olha meu braço!" Você olha e não vê nada, mas para ser legal entra na manha e diz que ele pode ir na coordenação pegar gelo. Aliás, gelo é o remédio mais milagroso do mundo. O aluno volta com o gelo, com aquele olho ainda meio molhado de quem estava chorando na coordenação, então entra na sala e participa da atividade durante 5 minutos. Em seguida já não se sabe mais onde está o gelo e a dor da criança nunca existiu, pois lá está ela de novo correndo, gritando, jogando etc.

O engraçado é que quando você pergunta o que eles gostam de fazer, todos respondem em alto e bom som: "JOGAR VIDEO GAME, TIIIA!" Mas video game não precisa de concentração? Eles conseguem ficar sentados por mais de 2 minutos seguidos olhando para o mesmo lugar? Duvido! Ou então esse é exatamente o problema, passam tanto tempo sentados na frente da televisão que ficam com energia acumulada, ai resolvem gastar tudo na minha aula.

Estou pensando seriamente em mandar uns recadinhos na agenda dos alunos, avisando aos pais que, como tarefa de casa, eles têm que, a cada dia da semana, levar seus filhos para brincar na rua e ensinar uma brincadeira que eles tinham na infância deles. E se não adiantar, na próxima aula, ao invés de papel crepon e giz de cera, eu vou levar aquelas arminhas de tranquilizantes!


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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bem-vinda ao time, Clara. Eu comecei com adolescentes. Mas descobri que aluno é aluno, independente da idade. :) E há muito a aprender com cada um deles.