domingo, 16 de março de 2014

DE JOVENS E MOTOS >> Whisner Fraga

Em 1959, Emilinha Borba lançava a música “Corre, corre, lambretinha”, que fez um sucesso danado no carnaval daquele ano. A letra, “Hoje tudo está mudado, mudou tudo, sim, senhor, e eu tenho uma lambreta para ver o meu amor”, arrancava suspiros de marmanjos. Quem não queria ter sua própria condução? Meu amigo Enio Eustáquio pode ser que se lembre dessa canção, embora eu ache que, naquela época, ele ainda não frequentava os bailes da cidade.

Um contemporâneo dele, meu pai, um ousado pivete de treze ou quatorze anos, inspirava-se na musa e imaginava-se com sua própria lambreta. Enquanto isso, o irmão, meu tio Tião, uns dez anos mais velho, já realizava o sonho da Vespa-própria e zanzava motorizado por Ituiutaba, para inveja de todos os moleques.

Reza a lenda que este tio, um belo dia, chegou em casa um pouco alegre com as cervejas a mais que bebera naquela noite. Louco por uma cama, mal desce da Vespa e pede ao primeiro que vê pela frente para guardá-la. O primeiro, por sorte, era meu pai. Não precisaria nem escrever que ele não guardou imediatamente o veículo e, se o faço, é por causa de algum leitor desatento ou inexperiente.

Quem já possuiu uma moto sabe que há poucas coisas melhores do que perambular com uma, seja pela cidade, seja por uma rodovia. O vento afagando o rosto, o raro sentimento de liberdade e assim por diante. É claro que tudo isso é potencializado quando falamos de um garoto de quatorze anos.

Meu pai andava se engraçando com uma menina dois anos mais nova e, se não entrego o nome da dita-cuja, é por respeito à coitada, que poderia ler essa crônica e se zangar à toa. Catou a lambreta e rumou para a casa da garota. Não sei se naquela época as ruas eram designadas por números e não por nomes e também não quero pesquisar e correr o risco de descobrir a verdade e acabar com essa sensação gostosa a que chamam devaneio, de modo que escreverei simplesmente que ele ia por uma das avenidas principais de Ituiutaba, em busca do rosto da namorada.

Ela, por seu turno, estava, como de resto estavam todas as meninas casadoras, grudada no parapeito da janela. Ao avistar o rosto fresco, a carne púbere, papai esqueceu-se do mundo. Esquecendo-se do mundo, não mais prestou atenção ao trânsito ou ao fato de que estava no selim de algo motorizado e, portanto, perigoso. Só tinha olhos para os outros olhos, negros, preocupados, da amada. E foi, a lambreta se dirigindo, quase sem a necessidade do motorista. Até que, como se estivesse mirando, foi bater na parede da casa da moça.

As garotas da redondeza riram muito e meu pai, envergonhado, catou os restos da Vespa e seguiu, debaixo de troças sem fim, para a pensão de meus avós. Como o irmão abusara da bebida, sabia que ainda tinha algum tempo para arrumar uma desculpa e não receber uns tabefes por ter arruinado a lambreta. No dia seguinte, não precisou fazer nada: o irmão, confuso, ao ver a situação, virou-se para todos e disparou: merda, isso que dá beber e dirigir!

Partilhar

2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É, Whisner... Parece que ladrão que rouba beberrão também tem o seu perdão. :)

solar da literatura disse...

o ano de 1959 foi parte dos anos dourados e a lambreta o maior charme fazia o sonho da rapaziada

texto pra dar saudade!

enio