Pular para o conteúdo principal

DE JOVENS E MOTOS >> Whisner Fraga

Em 1959, Emilinha Borba lançava a música “Corre, corre, lambretinha”, que fez um sucesso danado no carnaval daquele ano. A letra, “Hoje tudo está mudado, mudou tudo, sim, senhor, e eu tenho uma lambreta para ver o meu amor”, arrancava suspiros de marmanjos. Quem não queria ter sua própria condução? Meu amigo Enio Eustáquio pode ser que se lembre dessa canção, embora eu ache que, naquela época, ele ainda não frequentava os bailes da cidade.

Um contemporâneo dele, meu pai, um ousado pivete de treze ou quatorze anos, inspirava-se na musa e imaginava-se com sua própria lambreta. Enquanto isso, o irmão, meu tio Tião, uns dez anos mais velho, já realizava o sonho da Vespa-própria e zanzava motorizado por Ituiutaba, para inveja de todos os moleques.

Reza a lenda que este tio, um belo dia, chegou em casa um pouco alegre com as cervejas a mais que bebera naquela noite. Louco por uma cama, mal desce da Vespa e pede ao primeiro que vê pela frente para guardá-la. O primeiro, por sorte, era meu pai. Não precisaria nem escrever que ele não guardou imediatamente o veículo e, se o faço, é por causa de algum leitor desatento ou inexperiente.

Quem já possuiu uma moto sabe que há poucas coisas melhores do que perambular com uma, seja pela cidade, seja por uma rodovia. O vento afagando o rosto, o raro sentimento de liberdade e assim por diante. É claro que tudo isso é potencializado quando falamos de um garoto de quatorze anos.

Meu pai andava se engraçando com uma menina dois anos mais nova e, se não entrego o nome da dita-cuja, é por respeito à coitada, que poderia ler essa crônica e se zangar à toa. Catou a lambreta e rumou para a casa da garota. Não sei se naquela época as ruas eram designadas por números e não por nomes e também não quero pesquisar e correr o risco de descobrir a verdade e acabar com essa sensação gostosa a que chamam devaneio, de modo que escreverei simplesmente que ele ia por uma das avenidas principais de Ituiutaba, em busca do rosto da namorada.

Ela, por seu turno, estava, como de resto estavam todas as meninas casadoras, grudada no parapeito da janela. Ao avistar o rosto fresco, a carne púbere, papai esqueceu-se do mundo. Esquecendo-se do mundo, não mais prestou atenção ao trânsito ou ao fato de que estava no selim de algo motorizado e, portanto, perigoso. Só tinha olhos para os outros olhos, negros, preocupados, da amada. E foi, a lambreta se dirigindo, quase sem a necessidade do motorista. Até que, como se estivesse mirando, foi bater na parede da casa da moça.

As garotas da redondeza riram muito e meu pai, envergonhado, catou os restos da Vespa e seguiu, debaixo de troças sem fim, para a pensão de meus avós. Como o irmão abusara da bebida, sabia que ainda tinha algum tempo para arrumar uma desculpa e não receber uns tabefes por ter arruinado a lambreta. No dia seguinte, não precisou fazer nada: o irmão, confuso, ao ver a situação, virou-se para todos e disparou: merda, isso que dá beber e dirigir!

Comentários

É, Whisner... Parece que ladrão que rouba beberrão também tem o seu perdão. :)
o ano de 1959 foi parte dos anos dourados e a lambreta o maior charme fazia o sonho da rapaziada

texto pra dar saudade!

enio


Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …