domingo, 30 de março de 2014

DOMINGOS EM CASA >> Whisner Fraga

Era final dos anos 1980 e as bandas de rock nacional despontavam como ícones adolescentes e eu ouvia todas. Claro que as duplas sertanejas começavam a tomar seu espaço, mas ainda assim com um pé no clássico: guitarra era palavrão para elas. Os discos de vinil eram uma grande diversão, embora cara. Íamos a uma loja, ficávamos a tarde inteira escutando músicas, até nos decidirmos a levar um álbum para casa.

Naquela época, meus pais acabaram por comprar um aparelho Polivox, que devia ter uns 40 Watts de potência, mas resolvia razoavelmente o problema da falta de música no lar. Como éramos seis convivendo em uma frágil harmonia, cada um devia ter seu horário junto ao toca-discos. Eu geralmente aproveitava a noite, e, enquanto todos assistiam às novelas, ajeitava o fone de ouvido para escutar minhas músicas prediletas.

Quando criança, lembro-me de minha mãe lavando nossas roupas. Ao lado do tanque, um pequeno rádio estava sintonizado em uma AM qualquer da cidade. Foi assim que conheci Raul Seixas. Tenho quase certeza que minha mãe não curtia o rock daquele sujeito, mas não desligava o aparelho, pois vivia com as mãos ocupadas.

Ultimamente o som havia perdido espaço aqui em casa. Eu só escutava meus compositores preferidos no carro e geralmente no trajeto até o trabalho. Ou seja, durante meia hora. Mas parecia que faltava algo, não estava satisfeito. É sempre muito ruim quando temos de estacionar e silenciar uma canção antes de seu fim. Como nosso minisystem é muito grande, ficou encaixotado desde nossa mudança, há um ano. Aqui em São Paulo, espaço é algo valioso.

Então me desfiz do trambolho e comprei outro menor, bem menor. Um microsystem. Assim, tirei das caixas a coleção de música clássica para crianças e estamos, eu, Helena e Ana, curtindo, neste momento, um pouco de Verdi. Que maravilha! Desde ontem a família se reúne para estes momentos de encanto. Ana, uma pianista aposentada, conta as histórias das composições para Helena. Eu mesmo me arrisco a falar sobre o Lago dos Cisnes, já que Tchaikovsky é meu compositor predileto.

Eu acredito que a música é algo primordial para o ser-humano. Tenho convicção de que somente a arte teria o poder de salvar a humanidade de suas próprias garras. Todavia, arte é o que menos encontramos nas casas brasileiras. Música de baixa qualidade, subliteratura, blockbusters de Hollywood, novelas imbecilizantes, o dia-a-dia de nosso povo é cercado de lugares-comuns, que apenas contribuem para a formação de cidadãos apáticos e despreparados para o exercício da compaixão. E acho que isso não mudará durante os próximos mil anos.

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3 comentários:

Zoraya disse...

é com muita tristeza q concordo com seu último parágrafo. Mas é com muita alegria que li toda a sua crônica, como sempre, memória de alta qualidade. Valeu!

whisner disse...

Oi Zoraya, obrigado pela leitura. Um grande abraço!

Carla Dias disse...

Whisner, eu sou um pouquinho mais otimista. Acho que a arte foi banalizada de tal forma que só nos resta encarar essa verdade e mudar o foco para o que é realmente capaz de contribuir com nosso espírito. Espero que mais casas se encham de música, como a sua.