Pular para o conteúdo principal

O CROONER DE RESTAURANTE >> Carla Dias >>


Quando menino, daqueles que preferiam escutar um disco do Supertramp a dar estilingadas por aí, descobriu o que a maioria de nós sabe: há canções que dizem exatamente o que desejamos dizer naquele momento em que as palavras fazem a diferença. Para a maioria que somos nós, isso é algo interessante, e até costumamos pegar emprestados versos de canções para declarar sentimentos àqueles que nos fazem calar com sua graça.

Mas o que ele, menino dos que preferiam dublar, faixa a faixa, um disco inteirinho dos Beatles, usando o controle remoto como se fosse microfone, a sair por aí, integrante de turmas de moleques loucos por futebol, o que esse menino compreendeu e aceitou é o que o difere de nós.

Ele não sabe dizer sentimentos profundos. Ele só sabe cantá-los.

Ele se tornou um adulto conhecido no circuito dos restaurantes mais bacanas de sua cidade. Muito bem vestido — mas nem sempre de terno e gravata, meus caros, que o figurino depende do cenário e da história a ser contada com versos emprestados —, ele passa por tais lugares e canta as canções preferidas dos homenageados. Já cantou para dizer sentimento de amor romântico, fraterno, até para esclarecer mágoas e declarar oficial o desapego de um pelo outro. Sua voz, que ele sabe como modular ao tom do que é celebrado, e dependendo do olhar de quem oferece a homenagem, é seu instrumento oficial de comunicação com estranhos que têm história pra contar.

Mas fora do trabalho, olha lá... O menino, daqueles que preferiam assistir a um bom show a participar de uma partida de futebol, vive em um pequeno apartamento onde sol não bate, onde o tudo é o mínimo, e o conforto passa longe. Além da cama improvisada, há quase vinte anos, tem esse sofá perto da janela, onde ele se senta, enquanto fuma um cigarro ou lê um livro. O fogão elétrico de duas bocas dá conta do recado, assim como os ganchos no qual pendura suas roupas e a companheira indispensável: uma boa garrafa de uísque. Seu universo se tornou, por ironia das suas escolhas e dos passos do destino, um lugar silencioso.

Não que tenha se esquecido do menino que foi, ou da alegria que era cantar sentimento. Ter se tornado crooner de restaurante não tirou isso dele. Quando assume o momento, faz dele o mais importante. Por isso se tornou tão popular, e tem sido procurado por pessoas que nem mesmo conhecem os restaurantes onde trabalha. Já lhe ofereceram a oportunidade de cantar sentimento em outros tipos de eventos, como festas de aniversários, casamentos, eventos corporativos, mas ele nunca aceitou, porque acredita que, sentadas à mesa, frente a frente, olhares grudados no do outro, as pessoas possam compreender melhor o sentimento cantado.

E se fora do circuito de restaurantes ele é apenas “o cara do apartamento 7, acho que ele é mudo”, como já escutou, e mais de uma vez, seus vizinhos cochicharem sobre ele, bom, como toda figura ensimesmada ele tem o seu segredo. Não é segredo grande, de enormidade capaz de mudar a vida de muitos. É segredo porque não soube compartilhar, e, de repente, se conseguisse fazê-lo, haveria mais nele do menino que foi.

Dentro da gaveta do criado-mudo, ele guarda um caderno surrado, onde muitas canções que compôs, desde menino, estão registradas. Canções sobre pessoas imaginadas, acontecimentos que, ele acredita, são impossíveis lhe acontecer, conquistas imaginárias. E sobre tristeza, mágoas, decepções, coisinhas de fundo do baú da felicidade, mas que fazem parte da vida de uma pessoa.

Assim, desse jeito que a vida o leva e ele leva a vida, considera-se uma pessoa inédita, como as canções no seu caderno. Pensou, e mais de uma vez, em cantar seus sentimentos para alguém, mas desistiu no meio do caminho, deixando passar possíveis amores, amigos, afetos.

Ainda ontem, cantou sentimentos de um jovem empresário ao seu pai, um homem de feição dura, que chorou feito criança depois do feito, abraçando as mãos do filho, entre as suas. É essa capacidade de colaborar com o outro, a fim de despir as pessoas de suas armaduras, inspirá-las a aceitar que há quem lhes queira bem, mesmo ao exigir explicações e soltar alguns desaforos, que faz com que o menino - que é daqueles que preferem comprar um disco do Alceu Valença, para escutar a noite inteira, a ir para a balada com os amigos —, seja feliz lá do seu jeito.

O que o homem do apartamento 7 espera, cultivando sua mudez improvisada, é que, dia desses, apareça alguém em sua vida que torne impossível ele não cantar uma de suas canções. Que o faça cantar os próprios sentimentos. Até lá, ele pode muito bem ajudá-lo a cantar os seus.



MY KIND OF LADY - SUPERTRAMP


Imagem: sxc.hu

Comentários

Assim como o menino, também acho que os sentimentos ficam melhor cantados. :)
prezada carla dias

você é uma eximia conhecedora da nossa alma.
nos conhece e vai fundo nos sentimentos.

viva!!!
Carla Dias disse…
Eduardo... Como ficam, não? Eu sei que você acha, que você sabe que sim.

Solar... Viva, sim! Obrigada pela gentileza :)
Paramédico Voador disse…
Bom dia, cronista! Só li seu texto devido à presença da música do Supertramp, fazia muito tempo que não a ouvia. Eta juventude... Já o personagem de sua crônica captou um tipo da modernidade: o do presunçoso que tem um talento de segunda mão e que aspira pelo sucesso, pelos "15 minutos de fama" e, com isso, conquistar a mulher de seus sonhos. Sua crônica passou de raspão no conto "O Homem Célebre", de Machado de Assis, um dos melhores dele. Continue!

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …