quarta-feira, 19 de março de 2014

O CROONER DE RESTAURANTE >> Carla Dias >>


Quando menino, daqueles que preferiam escutar um disco do Supertramp a dar estilingadas por aí, descobriu o que a maioria de nós sabe: há canções que dizem exatamente o que desejamos dizer naquele momento em que as palavras fazem a diferença. Para a maioria que somos nós, isso é algo interessante, e até costumamos pegar emprestados versos de canções para declarar sentimentos àqueles que nos fazem calar com sua graça.

Mas o que ele, menino dos que preferiam dublar, faixa a faixa, um disco inteirinho dos Beatles, usando o controle remoto como se fosse microfone, a sair por aí, integrante de turmas de moleques loucos por futebol, o que esse menino compreendeu e aceitou é o que o difere de nós.

Ele não sabe dizer sentimentos profundos. Ele só sabe cantá-los.

Ele se tornou um adulto conhecido no circuito dos restaurantes mais bacanas de sua cidade. Muito bem vestido — mas nem sempre de terno e gravata, meus caros, que o figurino depende do cenário e da história a ser contada com versos emprestados —, ele passa por tais lugares e canta as canções preferidas dos homenageados. Já cantou para dizer sentimento de amor romântico, fraterno, até para esclarecer mágoas e declarar oficial o desapego de um pelo outro. Sua voz, que ele sabe como modular ao tom do que é celebrado, e dependendo do olhar de quem oferece a homenagem, é seu instrumento oficial de comunicação com estranhos que têm história pra contar.

Mas fora do trabalho, olha lá... O menino, daqueles que preferiam assistir a um bom show a participar de uma partida de futebol, vive em um pequeno apartamento onde sol não bate, onde o tudo é o mínimo, e o conforto passa longe. Além da cama improvisada, há quase vinte anos, tem esse sofá perto da janela, onde ele se senta, enquanto fuma um cigarro ou lê um livro. O fogão elétrico de duas bocas dá conta do recado, assim como os ganchos no qual pendura suas roupas e a companheira indispensável: uma boa garrafa de uísque. Seu universo se tornou, por ironia das suas escolhas e dos passos do destino, um lugar silencioso.

Não que tenha se esquecido do menino que foi, ou da alegria que era cantar sentimento. Ter se tornado crooner de restaurante não tirou isso dele. Quando assume o momento, faz dele o mais importante. Por isso se tornou tão popular, e tem sido procurado por pessoas que nem mesmo conhecem os restaurantes onde trabalha. Já lhe ofereceram a oportunidade de cantar sentimento em outros tipos de eventos, como festas de aniversários, casamentos, eventos corporativos, mas ele nunca aceitou, porque acredita que, sentadas à mesa, frente a frente, olhares grudados no do outro, as pessoas possam compreender melhor o sentimento cantado.

E se fora do circuito de restaurantes ele é apenas “o cara do apartamento 7, acho que ele é mudo”, como já escutou, e mais de uma vez, seus vizinhos cochicharem sobre ele, bom, como toda figura ensimesmada ele tem o seu segredo. Não é segredo grande, de enormidade capaz de mudar a vida de muitos. É segredo porque não soube compartilhar, e, de repente, se conseguisse fazê-lo, haveria mais nele do menino que foi.

Dentro da gaveta do criado-mudo, ele guarda um caderno surrado, onde muitas canções que compôs, desde menino, estão registradas. Canções sobre pessoas imaginadas, acontecimentos que, ele acredita, são impossíveis lhe acontecer, conquistas imaginárias. E sobre tristeza, mágoas, decepções, coisinhas de fundo do baú da felicidade, mas que fazem parte da vida de uma pessoa.

Assim, desse jeito que a vida o leva e ele leva a vida, considera-se uma pessoa inédita, como as canções no seu caderno. Pensou, e mais de uma vez, em cantar seus sentimentos para alguém, mas desistiu no meio do caminho, deixando passar possíveis amores, amigos, afetos.

Ainda ontem, cantou sentimentos de um jovem empresário ao seu pai, um homem de feição dura, que chorou feito criança depois do feito, abraçando as mãos do filho, entre as suas. É essa capacidade de colaborar com o outro, a fim de despir as pessoas de suas armaduras, inspirá-las a aceitar que há quem lhes queira bem, mesmo ao exigir explicações e soltar alguns desaforos, que faz com que o menino - que é daqueles que preferem comprar um disco do Alceu Valença, para escutar a noite inteira, a ir para a balada com os amigos —, seja feliz lá do seu jeito.

O que o homem do apartamento 7 espera, cultivando sua mudez improvisada, é que, dia desses, apareça alguém em sua vida que torne impossível ele não cantar uma de suas canções. Que o faça cantar os próprios sentimentos. Até lá, ele pode muito bem ajudá-lo a cantar os seus.



MY KIND OF LADY - SUPERTRAMP


Imagem: sxc.hu



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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Assim como o menino, também acho que os sentimentos ficam melhor cantados. :)

solar da literatura disse...

prezada carla dias

você é uma eximia conhecedora da nossa alma.
nos conhece e vai fundo nos sentimentos.

viva!!!

Carla Dias disse...

Eduardo... Como ficam, não? Eu sei que você acha, que você sabe que sim.

Solar... Viva, sim! Obrigada pela gentileza :)

Paramédico Voador disse...

Bom dia, cronista! Só li seu texto devido à presença da música do Supertramp, fazia muito tempo que não a ouvia. Eta juventude... Já o personagem de sua crônica captou um tipo da modernidade: o do presunçoso que tem um talento de segunda mão e que aspira pelo sucesso, pelos "15 minutos de fama" e, com isso, conquistar a mulher de seus sonhos. Sua crônica passou de raspão no conto "O Homem Célebre", de Machado de Assis, um dos melhores dele. Continue!