domingo, 2 de março de 2014

DA VIDA E OUTRAS URGÊNCIAS >> Whisner Fraga

Eu só tive um avô e uma avó, pois, ao que consta, os pais de minha mãe morreram quando ela era ainda muito nova, de modo que não tivemos nenhum contato com eles, nem mesmo por meio de fotos. Assim, acho que minha memória afetiva ficou um pouco prejudicada com o fato. Não acostumado com reuniões familiares, cresci sem dar muita bola a primos, tios e adjacências. Hoje, se me perguntam do Márcio ou do Fernando, tenho de me concentrar para extrair alguma novidade digna de nota.

Aqui não estou fazendo apologias a nada, mas somente divulgando uma constatação. Acredito que Helena crescerá do mesmo jeito, pois estamos a trezentos e setenta quilômetros de distância de uns avós e a pouco mais de seiscentos de outros, o que impede, evidentemente, uma convivência mais próxima. Não acho, de forma alguma, que isso seja bom, mas não temos outra opção. A vida nos prega peças, isso é fato, de modo que temos pouco controle sobre nós próprios.

Helena crescerá, assim, longe dos tios e de outros parentes do segundo escalão, sem um referencial familiar-afetivo mais amplo. De cá, posso dizer que minhas lembranças não abarcam muitos momentos com os tios ou avós, por mais que meu pai se esforçasse para nos levar com frequência a reuniões com os parentes. Acredito também que minhas recordações acabaram por se tornar mais ligadas a objetos do que a seres humanos.

O isqueiro com que meu avô acendia o cigarro, derramando no ar uma mistura de azeite, tabaco e mofo, o canivete com que ele cortava o rolo de fumo, a lâmina carcomida, uma meia-lua de aço encardida, a mesa em que sempre descansava um jornal dobrado de maneira aleatória, a televisão ligada no Jornal Nacional, a luz amarela incapaz de iluminar tudo o que deveria, o fogão em que minha irmã viu a cabeça de meu tio morto lançando um sorriso incompreensível lá do outro lado.

Não há uma receita para a educação dos filhos. Fazemos o possível e sempre o possível, Helena, será pouco diante de sua necessidade de criança curiosa e aflita com as coisas do mundo. Hoje ela está cercada de coisas vivas: gatos ronronando pelos móveis, bonsais esparramados pelas prateleiras, amigos espargindo gargalhadas pelos cantos da sala. Ainda assim, Helena se lembra das avós Zozô e Maguta, dos avôs Dorival e Mamede, com um leve e saudoso semblante, como se nos cobrasse sutilmente uma explicação para a ausência.

Mas ausência não é esquecimento, tento me justificar. E sei que, mesmo que Helena passe pouco tempo com os avós, ela fará como eu fiz: se recordará dos breves, mas significativos instantes de convivência. Amanhã será ela a evocar: papai, você se lembra do vovô esfregando os pés no Nino? Papai, e o vovô passeando comigo no meio de tantos carros? E a vovó que me fez aquelas asas de avião? E a vovó que foi pela primeira vez na praia conosco? E talvez ela conclua que nossa melhor companhia, afinal, é aquilo de bom que carregamos dentro de nós.

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4 comentários:

Zoraya disse...

que linda crônica Whisner! suas lembranças e memórias são sempre divertidas ou comoventes. obrigada por compartilhar. de repente voce faz um livro cheio de memórias para a pequena Helena...

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Lindo, Whisner!
Continue compartilhando conosco esse bom que você carrega dentro de si.

whisner disse...

Zoraya, sou leitor de suas crônicas. Nem sempre comento, mas sou fã de seus textos. Eduardo, volte logo, sinto falta de suas crônicas irreverentes. Abraços aos dois e grato pela leitura.

albir disse...

Whisner,
ao ler suas memórias penso nas minhas com mais carinho.