quarta-feira, 26 de março de 2014

SEM DESTINATÁRIO >> Carla Dias >>


Eu não sei quem você é. Você não sabe quem eu sou. Não sabemos se temos algo em comum: desejos, discos, comida, partido político. Não fazemos ideia se, dia desses, estaremos em um mesmo lugar, na mesma hora.

Por nada saber sobre você, eu imagino com a imaginação desenfreada. Lembra-se de quando pintávamos desenhos na escola? Era pato azul, margarida verde, pele laranja. O preceito desse meu sentimento em relação à imaginação é o mesmo. Trata-se da mesma liberdade daquela época, de quem ainda não decorou a verdade absoluta sobre isso e aquilo. De quem ainda não desaprendeu a desconfiar de qualquer verdade absoluta.

Absolutismo me dá preguiça. E pra você? No que dá?

Ah, sim, a vida urge e a telecomunicação anda muito mais rápida e rasteira do que no tempo dos classificados em revistas de novelas em quadrinhos, as velhas, porém interessantes, fotonovelas. Nelas, parecia que o tempo era mais largo, não? As pessoas conversavam sem pressa, e suas feições eram congeladas pelo sentimento transmitido em palavras flutuando em balõezinhos.

Eu não sei se você é cientista, bancário, catador de silêncios ou criador de caso. Qual é o signo, a sina, a rua onde mora, a infância que lhe batizou, e a bebida preferida. A minha é chá de camomila, mas disso você não sabe. Com algumas gotinhas de limão, para enfeitar o paladar.

Outro dia, eu lhe disse palavras escritas, em mensagem que mandei para mim mesma, por e-mail. Como aquelas pessoas que, necessitadas de serem escolhidas pela atenção de alguém, mandam buquês de flores a si mesmas, no trabalho, que é para que todos testemunhem o apreço, ainda que falseado.

Debaixo das pálpebras das tantas formas de comunicação de hoje em dia, descansa o desejo dos olhos nos olhos, que somos bichos que necessitam de espreitar, no decorrer do apaixonamento. E apesar de tentarmos o contrário, preferimos, ainda, conhecer pessoas a mergulharmos em perfis. Uma dose de tempo, outra de acaso.

Se o universo ainda não lhe contou, eu gosto de tomar chuva, de andar descalça pela casa, de escutar discos no último volume. Prefiro a noite, a exuberância das emoções fora do tom ao conluio das certezas. Saiba que, o que não cai bem no meu currículo, desfila bonito na minha vida. Sou nada profissional quando a conversa é fiada no sentimento.

Eu não conheço você, tampouco você sabe sobre mim, o que não lhe impede de pensar sobre mim, que a vida, com a diversidade de meios de nos comunicarmos, de nos achegarmos, ainda depende da aposta do destino. E o espírito, que renega amarras, viaja na velocidade desconhecida dos milagres. A geografia pode estar contra nós. A metafísica pode ser nossa aliada, assim como a aspereza pulcra que habita os poemas de Bukowski. O que não nos impede de chegar ali, naquele mesmo lugar, no momento: o mesmo.

Podemos ser crônica ou comicamente incompatíveis. Podemos, até, concordar com isso. Talvez sejamos a combinação exata dos ingredientes da imperfeição. Agora, é nos encontrar para ver... Aqui ou acolá, Porto Alegre ou Uberlândia. Londres ou New Orleans. Haiti ou Frankfurt. Seja lá onde for.


Imagem: sxc.hu



Partilhar

3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que lindeza mais linda!

Zoraya disse...

Carla, ia destacar uma frase aqui, outra ali, e de repente vi que acabaria destacando o texto todo! E nada mais me resta q nao copiar o Eduardo: Que lindeza mais linda, de chorar! Obrigada por mais esse momento lírico incomparável

Carla Dias disse...


Eduardo... Fico sempre feliz quando você encontra lindeza nos meus textos. Acho de uma lindeza...

Zoraya... Eu que agradeço por você se permitir esbaldar nos meus textos. Isso me deixa sempre muito contente.