domingo, 23 de março de 2014

VIDA E MORTE DE UM TRAUMA
Eduardo Loureiro Jr.

Trauma é quando uma coisa muito ruim acontece e aquela coisa continua acontecendo dentro da gente mesmo que já tenha parado de acontecer do lado de fora.

Quando eu fazia a 2ª série e tinha oito anos, deu vontade de fazer cocô no meio de uma aula. Pedi licença à professora e fui ao banheiro. Só depois que me aliviei é que descobri que não havia papel higiênico. A solução que encontrei foi me limpar com a cueca. Acho que ninguém na sala percebeu que eu estava sem cueca nem a zeladora reparou numa cueca escondida no cesto de lixo, mas, daquela manhã em diante, eu nunca mais saí de casa sem fazer cocô antes. Com vontade ou sem vontade, eu sentava no vaso de casa o tempo que fosse necessário para expelir alguma coisa. Estava criado meu trauma, que, por anos e ânus, me trouxe minutos diários de leitura no banheiro, muitos frascos de elixir paregórico e hemorroidas.

Décadas depois, por uma questão de saúde, tive que desfazer, minuto a minuto, gota a gota, fibra a fibra, o meu hábito. E eu até me julgava curado do trauma, mas o destino resolveu fazer comigo a prova dos nove...

Ontem, 35 anos após a traumática caganeira no colégio, eu estava confortavelmente sentado à janela do 363, na altura da Avenida Francisco Sá, quando, entre um sacolejo e outro do ônibus, senti aquele terremoto abdominal. Numa situação dessas, o sujeito, no caso eu, passa pelos mesmos estágios de alguém que é diagnosticado com uma doença fatal e irreversível: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação.

NEGAÇÃO. Não, isso não está me acontecendo. Foi só um leve ajustamento das placas tectônicas intestinais. Já vai passar. Mas as minhas tripas, atentas ao meu diálogo interior, se contorceram em discordância.

RAIVA. Puta merda! De novo? Já fiz cocô duas vezes hoje. Não sei pra que agendei esses atendimentos para hoje. Devia estar em casa pra cagar em paz!

NEGOCIAÇÃO. Tudo bem, calma. Vamos fazer o seguinte, meu intestino querido. Você se segura aí até eu descer do 363, depois faz com que o Circular 1 passe rapidinho e não fique parado muito tempo no final da linha. Aguente até eu chegar à Praça Portugal, depois mais uns 10 minutinhos de caminhada até o Varanda Mall... Não, tudo bem. Se você não aguentar tanto, nós vamos logo no Shopping Aldeota, assim que descermos do Circular 1. Meu intestino me respondeu que talvez pudesse aguentar uns dois minutos, mas nunca quarenta, e deu uma remexida altamente sonora.

DEPRESSÃO. Meus Deus, por que isso está acontecendo comigo? “Ó vida, ó dor de barriga, ó azar da moléstia!” Eu vou me cagar nas calças, todo mundo vai sentir o cheiro e vão mangar de mim. Vou ficar conhecido como o cagão do 363. Eu quero morrer antes de me cagar. O intestino, compreensivo, deu uma acomodada, mas eu sabia que não duraria muito.

ACEITAÇÃO. Ok, se é pra se cagar, vamos cagar com dignidade. Tem um supermercado a uns duzentos metros daqui. Levantei do assento, puxei a cordinha e, dois semáforos depois, agradeci ao motorista (será que ele estranhou eu ter descido cinco ou seis paradas antes do meu ponto tradicional?).

Caminhei até o supermercado o mais rápido que pude sem abrir demais as pernas em cada passo. Entrei no supermercado tentando parecer um cliente normal. Tentei procurar eu mesmo pelo banheiro, mas o intestino deu aviso de que não poderia esperar pela minha vergonha.

Tinha um zelador passando pano no chão. Me controlei para não dizer “meu senhor, eu tô me cagando nas calças, onde é que fica o banheiro?”, e falei educadamente:

— Boa tarde.

— Boa tarde — disse o zelador, desencurvando o corpo.

— Vocês têm banheiro aqui?

O homem, muito solícito, resolveu responder nos mínimos detalhes:

— Sim, o acesso é pelo lado de fora da loja. Você pega a rampa...

O resto eu não ouvi (o intestino falava mais alto). Agradeci já me virando na direção da entrada da loja e da rampa.

Ô rampa longa! E ainda fazia uma curva e tinha mais rampa longa. Se eu apressava o passo, o intestino mexia. Se eu ralentava o passo, a barriga doía. No subsolo do supermercado, estava a tão esperada porta com a placa “Banheiro Masculino”. Logo abaixo dela, um cartaz de papelão amarelo, desses bem chamativos usados para promoções de última hora. Letras garrafais pintadas com pincel atômico em duas cores: “INTERDITADO”.

Revivi os cinco estágios pré-morte em um único segundo. “Isso não está acontecendo comigo”, “puta que o pariu!”, “dá pra segurar mais um pouco, intestino?”, “perdi, vou me cagar”, “quais são minhas alternativas?”.

A verdade é que eu tinha três alternativas: o banheiro feminino, o banheiro masculino para deficiente e o banheiro feminino para deficiente.

Para o leitor pode parecer uma escolha simples, mas para mim não foi. Porque, quando estou dirigindo, eu não estaciono em vaga de deficiente. Mesmo em ônibus, eu não sento em vaga de deficiente, mesmo que seja o único assento livre no ônibus. Então não havia por que eu usar um banheiro para deficiente.

Quem me conhece sabe que eu sou caxias, CDF, cu de ferro... É isso! Cu de ferro! Essa é a lição final do trauma. Toda a rigidez de horário, todo o metodismo, todo o controle sobre cada pequeno fato da vida... tudo tentando controlar o mundo pelo cu. Eu que sempre tentei fazer o certo agora entendo por que as pessoas fazem as coisas erradas: estacionamentos em fila dupla, desvios de verba, todas as incivilidades, todas as trapaças, todas as regras de boa conduta estão sendo quebradas por que a pessoa está com algum tipo de caganeira e o banheiro certo está interditado. Caganeiras físicas, caganeiras mentais, caganeiras emocionais. Todo mundo cagando para as regras porque o intestino não está para  brincadeira. Abri a porta do banheiro masculino para deficiente gritando empolgadamente por dentro: Viva o jeitinho brasileiro!

Mas minha empolgação durou pouco. A primeira visão que tive do banheiro foi um tubo amarronzado em cima da caixa do vaso. Não havia papel higiêncio. E o vaso estava todo mijado. Aquele tubo amarronzado voltou a acionar os cinco estágios: “Não pode ser. Não, não, não!”, “Onde está Deus numa hora dessas? Deve estar morrendo de se abrir”, “Tem certeza que não dá pra aguardar até eu ir ao banheiro feminino de deficiente, ó intestino”, “além de me cagar, vou pegar alguma doença usando esse vaso”, “ok, vou ter que me virar, quais as minhas alternativas?”.

Ao pendurar a mochila no basculante, lembrei de “uma camisinha para vaso” que eu havia comprado por pura curiosidade, uns meses antes. Compra daquelas de impulso, feita na beira de um caixa de loja de miudezas. Bendito seja o consumidor compulsivo que mora dentro de mim. Vesti a tampa do vaso, desabotoei e baixei as calças, sentei no vaso.

Silêncio. No princípio, era o nada. E, um milésimo de segundo depois, a grande explosão que deu origem ao universo...

Enquanto as partículas se espalhavam pelo espaço do grande vaso cósmico, duas pessoas tentaram abrir a porta do banheiro. Dois deficientes que não puderam exercer seu direito de ir ao banheiro porque eu, em pleno gozo de minha saúde, aliviado e desenfezado, estava cometendo uma grande e prazerosa transgressão.

Depois que relaxei foi que me lembrei que havia resolvido o problema do vaso sujo, mas o banheiro continuava sem papel. Olhei ao redor. Havia uma ducha, mas o leitor não se anime muito, não, porque a ducha não tinha cabeça ou seja lá como se chama aquela parte da ducha que a gente aperta para sair água. Se eu fosse o zelador daquele banheiro, teria fechado a chave sem chance de abertura daquela ducha, para evitar que algum deficiente ou mesmo algum eficiente molhasse inadvertidamente todo o banheiro. Então girei a chave de água, na base da ducha, sem nenhuma expectativa, sabendo que dela poderia não sair gota alguma de água. De todo modo, posicionei a ducha corretamente e girei a chave...

Sim, havia água. Havia água suficiente para me deixar limpinho sem necessidade de papel higiênico. Eu era um homem feliz. Fechei a ducha, tirei um pouco a bunda do vaso e dei uma balançadinha para tirar o excesso d’água. Esperei mais um tempinho para secar um pouco e, quando estava apenas úmido, levantei de vez e vesti a cueca e a calça. Dei descarga, retirei a camisinha do vaso e coloquei no lixo. Não havia sabonete, sólido ou líquido, mas eu tinha álcool gel na mochila.

Saí com um sorriso no rosto e dei de cara com um não deficiente de cara feia, só esperando a porta se abrir para entrar. Subi a rampa e ainda pensei em parar na farmácia do supermercado e comprar um elixir paregórico, talvez uma fralda geriátrica também, mas apenas sorri diante do pensamento, que passou como uma nuvem budista grande e gorda. Um anjinho tocou uma trombeta e o outro anunciou: “Ele passou no teste. Está curado”. Um coro de anjos entoou o refrão: “Aleluia! Aleluia... Aleluia, aleluia, aleluia!

Para não chegar atrasado ao meu compromisso, peguei um táxi em vez de um ônibus. Após indicar o destino ao taxista, fiz uma pequena oração pelo meu trauma, morto e enterrado no cruzamento da Sargento Hermínio com a Padre Anchieta: “Que descanse em paz”.

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8 comentários:

Felipe Holder disse...

Obra-prima, meu amigo. Obrou com vontade!
Ah, e bem-vindo ao clube! ;)

Ana Campanha disse...

hahahahahahahahahaha!!! Eu quase passei por isso dentro de um avião!! E foi assim que descobri que tenho um certo nível de intolerância à lactose. Consegui chegar ao meu destino, mas, antes de fazer a baldeação entre aviões, tive que visitar um banheiro lotado e deixar de ser refém da dor de barriga!

Saudade dos seus textos, Eduardo! =D

Ricardo Barros Sampaio disse...

Ótima leitura para descontrair o domingo. Quase zero graus do lado de fora mas um sorriso no rosto!
Por fim, nunca desperdice uma vontade de cagar, por menor que seja, você pode se arrepender depois.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, gente, por prolongar o prazer da escrita com a leitura desses comentários carinhosos e bem-humorados. :)

albir disse...

Nem posso lamentar suas desventuras, já que elas viraram literatura. Abraço.

nunnescosta Costa disse...

Puxa!! que belo texto.. lendo esse texto sorrir á vontade e ainda deu vontade de cagar...

Fernanda Pinho disse...

Parabéns pelo livramento do trauma, Eduardo.
Lembrei de uma vez que eu fiz cocô no uniforme do jardim porque eu tinha nojo de me limpar com papel higiênico cor de rosa. Mas fazer cocô na roupa, ok...rs

Zoraya disse...

Putz, nao posso nem ser hipócrita de dizer que me compadeci de seu perrengue pq meu lado sádico despertou e eu tive acessos de riso... desculpe... kkkkkkk