domingo, 9 de março de 2014

SAUDADE 363 >> Eduardo Loureiro Jr.

Sei que deveria sentir saudade das pessoas que já partiram e que não mais verei nesta vida, ou daquelas que não vejo tem bastante tempo e que são tão queridas, ou ainda das que vi há poucos dias mas cujo amor me faz querer estar sempre por perto. Mas a verdade é que, nos últimos dias, minha maior saudade era de uma linha de ônibus: “363 – Icaraí / Fortaleza”.

Passei as últimas seis semanas dirigindo um carro, e já estava doido de vontade de retornar para o ônibus. Um carro tem, claro, suas vantagens. Você pode pegá-lo na garagem de casa, você determina o trajeto que quer seguir, você pode parar onde queira de acordo com sua vontade, você pode aumentar ou diminuir a velocidade ao seu gosto e você para na porta de onde quer chegar. Além disso, carros têm antenas que permitem você escutar rádio, e eu gosto muito de escutar rádio, ouvir canções de surpresa, melodias que não ouvia há muito tempo ou então novas pérolas que eu ainda não conhecia.

O ônibus também tem seus atrativos, embora, a princípio, apareçam mais os pontos negativos: pontos de parada sem conforto, imprevisibilidade dos horários, demora a passar, risco de lotação, contato físico com desconhecidos, paradas excessivas, ausência de cinto de segurança e mau gosto musical de certos motoristas. Mas tem algumas coisas boas em se andar de ônibus...

As caminhadas. Num mundo de controles remotos, carros, escadas rolantes e elevadores, a gente é sedentário por padrão. No trajeto básico casa-trabalho que faço de ônibus, ando por volta de 1.600 metros antes e após pegar o ônibus. Já é uma pequeno exercício físico.

A espera. Sim, a espera. Sei que o tempo é curto e, pra muita gente, 24 horas por dia é pouco. Mas esperar é fundamental. E olha que o 363 pode me deixar esperando por até 40 minutos. É esperando que eu me conscientizo de que as coisas têm seu tempo, que a vida, assim como os ônibus, é circular, que passa e vai, depois volta. Esperando, eu posso observar outras pessoas que também estão esperando. Eu não sou o único a esperar. No fundo, todos nós esperamos alguma coisa. E, se estivermos no lugar certo, uma hora aquilo pelo que estamos esperamos irá passar, e basta que acenemos com o braço para que essa coisa pare e abra as portas para nós.

A entrega. No ônibus, você entrega seu destino ao motorista. Não cabe a você conduzir o veículo. Também não cabe a você frear a cada parada e voltar a acelerar a cada sinal verde. Não é necessário dirigir defensiva ou ofensivamente. Você simplesmente se senta (de preferência à janela) e deixa o mundo passar pelos seus olhos. Por esse pequeno prazer, eu já me programo para pegar ônibus em horário de pouco movimento ou em paradas em que me sentarei antes que o ônibus lote. Faz muitos meses que ando no 363, quase sempre sentado.

A música. No ônibus, você pode usar um fone de ouvido que lhe faz escutar apenas música, coisa que você não pode, ou não deve, fazer em um carro, já que precisa prestar atenção auditiva ao trânsito dos demais veículos. No 363, eu faço minha programação musical e lhe garanto que é só sucesso o tempo todo.

E existem as pessoas. Aquelas mesmas que disputam espaço com você e que nem sempre são bem-educadas, mas que podem lhe surpreender por sua beleza, por sua gentileza, por sua extroversão, por sua loucura, por sua introspeção, por seu sofrimento tão aparente e por seus sorrisos gratuitos. As pessoas, sim: as pessoas como eu. E as pessoas, sim: as pessoas tão diferentes de mim.

Então ontem esperei quinze ou vinte minutos pelo 363 para voltar pra casa. Consegui sentar à janela, do lado esquerdo. Enquanto o motorista dirigia, eu caçava uma lua pela janela, até que a encontrei: lua nova armada feito rede na varanda do céu. O grupo 14-bis tocava e cantava em meus ouvidos seus melhores e mais animados sucessos: “Natural”, “Mesmo de Brincadeira”, “Nossa linda juventude”...

Quando passei na ponte sobre o Rio Ceará, olhei para o mar por longos poucos segundos. Eu via apenas a escuridão, mas sabia que o mar estava lá. E que bastava uma alvorada para ele aparecer em toda a sua cor e movimento.

O tempo passou tão rápido enquanto eu matava minhas saudades do 363 que quase perdi a segunda parada da Praia do Pacheco.

Agradeci ao motorista, desci do ônibus, ouvi o barulho do motor pela última vez e reduzi o volume do fone de ouvido uns quatro ou cinco pontos de modo que a música se misturasse com o som dos meninos jogando bola antes que a mãe os chamasse para tomar banho e dormir. Caminhei pelo calçamento e pela calçada com os olhos cheios de céu: na varanda da lua nova brilhavam estrelas cujo brilho os grilos tentavam imitar com sua voz.

Na esquina de casa, troquei duas ou três frases com um vizinho e com o vigia. Caminhei os últimos metros, abri o portão, cruzei a entrada e a varanda, abri a grade e a porta, liguei a luz, comi um pedaço de rapadura, tirei a roupa, tomei banho, armei a rede, peguei o celular para uma rápida leitura digital, acionei o despertador, apaguei a luz e dormi para sonhar com as minhas outras 362 saudades. Uma delas, uma das primeiras: a saudade de escrever.

Hoje acordei, lavei o rosto, escovei os dentes, penteei o cabelo, meditei, liguei o computador, comi uma laranja e aqui estou eu de volta, após um ano e meio ausente, novamente escrevendo.

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11 comentários:

Zoraya disse...

Puxa, Eduardo, valeu a pena esperar para ler esse texto lindo, mais uma lição de vida que qualquer outra coisa, sem pretensões, cheio de singeleza. O parágrafo da espera, eu confesso q guardei. Beijos.

Samuel Saraiva disse...

Muito bom, parabéns!!!

Felipe Holder disse...

A gente estava esperando pacientemente, sem acenar com a mão. Bem-vindo de volta, meu amigo.

Paulo Barguil disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulo Barguil disse...

Se o filho ingrato, à casa do pai retorna, proporcionando-os alegria, imagine a alegria dos convidados, quando o anfitrião faz o mesmo... ;-)

Marisa Nascimento disse...

Um ano e meio? Pareceu uma eternidade, sabia? Peço que você continue trafegando por aqui, porque o seu movimento colocando em trânsito as palavras, deixa os dias de seus leitores muito mais suaves. Para esta viagem eu já comprei passagem!

Fabio Barros disse...

Viva!!!

Iupi!!! Urrú!!!

albir disse...

Bem-vindo, Edu, a sua casa. Sentimos 363 saudades.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, meus amigos. Essas boas-vindas de vocês me emocionaram. :)

Anônimo disse...

Ola, ainda nao tinha lido essas cronicas.. mas ja amei.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Continue amando, Anônimo. :)