sexta-feira, 11 de maio de 2012

VOLTA POR CIMA >> Zoraya Cesar

Nunca antes pensara Suzana em abandonar a vida de solteira sem laços, sem lenço, sem documento, por ninguém. Até encontrar Antonio Carlos, o grande amor de sua vida.

Estar com ele, fazer planos, viajar, andar de mãos dadas, dormir abraçadinhos, dava um sentido todo especial à sua vida. Suzana estava feliz. Pela primeira vez soube o que era amar e ser amada. Era uma boa pessoa, o Antonio Carlos, ajudava nas contas, dava apoio nos momentos difíceis, e também a amava.

Tudo lindo, não? Mas sempre tem um “mas”, que vem logo a seguir, tenham calma.

O amor em Suzana crescia e o tempo passava - pois o tempo passa, até para os amantes – e, com ele, o tic-tac de seu relógio biológico começou a bater forte, qual um carrilhão numa sala vazia. O amor, que a fez sossegar o facho (ainda se usa isso?), também a fez não caber em si mesma.

Ela sentia necessidade de dividir esse amor todo com mais alguém. Ela queria filhos. Queria ser mãe. E mãe dos filhos dele, o seu amado. Sendo assim, decidiu-se. E, saltitante de amor, foi conversar com Antonio Carlos.

Saiu arrasada.

Ele nem pensava nisso, estavam bem daquele jeito, filhos? Como nunca falaram a respeito, achava que ela, tão independente, sem horário para nada, jamais iria querer ficar presa a uma criança. E finalizou o golpe dizendo que ele, Antonio Carlos, estava dispostíssimo a casar com ela sob quaisquer condições, desde que não tivessem filhos.

Por quê?, desesperou-se Suzana. Porque eu não me sinto preparado, seria um péssimo pai e não gosto de ficar preso nem ter ninguém dependendo de mim, respondeu ele.

Suzana voltou para casa se arrastando pelo chão. E agora? Ficar com o homem da sua vida, e nunca ser mãe, ou largá-lo e partir em busca de alguém com quem ela quisesse criar uma família? A única hipótese inaceitável, para Suzana, era engravidar à revelia do amado. Seria desonestidade em estado bruto, pensava.

Vendo que corria o risco de perder a namorada, Antonio Carlos correu atrás do prejuízo e  pediu-lhe para não ser precipitada, dizendo que, por amor, poderia até mudar de idéia, era questão de tempo. Ela aceitou. Afinal, porque não dar um pouco de tempo para o seu amado? Filho era mesmo coisa séria.

O tempo estendeu-se por mais alguns anos, durante os quais Antonio Carlos era cada vez mais amoroso, e ai, a pobre Suzana cada vez mais apaixonada.

Uma noite, porém, em pleno jantar à luz de velas, ela se descontrolou. Não aguento mais, esperei até o último minuto, nem sei se ainda consigo engravidar... e encharcou a toalha, aguou o vinho e a sobremesa com suas lágrimas.

Me perdoe,  murmurou ele, a cabeça baixa, não sei se posso, se quero, não me sinto... ele tossiu violentamente, quando o vinho jogado por ela entrou por sua boca, olhos, nariz.

Cretino, gritou Suzana enquanto derrubava a mesa, pratos, garrafas e comidas pelo chão, pisoteando tudo, completamente alucinada. E por que, gritava, só agora me diz isso? Ele ainda tentou responder que não queria perdê-la, que estava inseguro, essas coisas que as pessoas falam quando são covardes demais para assumir suas responsabilidades. Apenas tentou, pois Suzana parecia um animal enfurecido.

Ela saiu cambaleante de dor e lágrimas, até hoje não sabe como conseguiu chegar em casa, carregando no peito aquele vazio enorme. Sem o amor de sua vida, sem filhos, sem família, sem perspectivas. E sentindo-se uma idiota.

O tempo, senhor da História, nos permitiu chegar ao final dessa.

Antonio Carlos nunca se casou. Não encontrou outra mulher que o aturasse ou o amasse como Suzaninha. Mas não ficou sozinho não. Sua mãe, receosa de que ele empedernisse em irrevogável misantropo, comprou-lhe um poodle. E como ela viaja muito para visitar a filha nos EUA, ele é obrigado a cuidar do cachorro. E também a passear, levar ao veterinário, e fazer companhia, pois não tem coragem de sair de casa e deixá-lo sozinho. Logo ele, Antonio Carlos, que sempre detestara a idéia de ter algum ser vivo dependente dele, hahahah, ria-se Suzana, de longe.

Ah, sim, nossa amiga Suzaninha adotou um menino, e faz questão de ensinar que homem decente não é o que tem um bom emprego, é o que não enrola uma mulher. Está felicíssima.

O final é esse, mas a moral, cada um escolhe a sua: mulher que anda na linha o trem passa por cima? O melhor amigo do homem é o cachorro? Homem é tudo farinha do mesmo saco? Vingança é um prato que se come frio? Outras?

Quem nunca amou e foi enganado na vida, que atire a primeira pedra.


Partilhar

9 comentários:

Anônimo disse...

Tudo bem a Suzana ficar com raiva por ter sido enrolada... mas ela também foi bem egoísta, né? Ninguém é obrigado a ter filhos, isso é opção do casal. E se um não quer, dois não brigam. Nem deixam herdeiros.

Wanderley Leimgruber disse...

A única felicidade plena é a incompleta, pq mantem o movimento, a busca... ela encontrou o filho e ele tb, só q canino. Ninguém sabe nada mesmo.

Muito bom seu texto.

Marisa Nascimento disse...

Zoraya,
Acho que eles são mais felizes assim, não é?
Fingir ser alguém para satisfazer o outro não é bom ou renunciar pelo outro é pior ainda.
Melhor ser o que se é!
Bjs

aretuza disse...

Conhço tantas Susanas.... Sempre esperando, dando corda para a linha do tempo, acreditando q lá na frente as coisas vão mudar... Ainda bem que ela acordou!!! Vou mandar para as amigas Susanas!!!

Anônimo disse...

Adorei! Muito bom o texto!

Acho que ninguém é imutável, mas a transformação vem de dentro, por vontade ou necessidade própria, nunca por ou para agradar terceiros.

Cristiane

Érica disse...

A vida é feita de escolhas e uma escolha que é boa hoje pode não ser boa amanhã. A questão é que não devemos deixar de tentar, nem nos acomodarmos nas escolhas erradas que fazemos. O mundo está em eterno movimento e nossas vidas vão girando com ele numa alternância incessante de tentativas e erros... até que um dia, quem sabe, acertamos... ou não, como diria Caetano...

Cecilia Radetic disse...

Também conheço muitas Suzanas, que a espera do momento de seu homem abriram mão de sua maternidade.
Acho que a questão é não nos acomodarmos em função de alguém, ou, como Suzana ensina ao filho, não enganar ao outro.
Cada um tem o direito de fazer suas escolhas e filhos podem ser uma escolha de cada um. Não se deve impor isso a nínguém, muito menos de forma manipuladora, como o Antonio Carlos fez - e no final acabou pai de um poodle - há vingança maior que essa? rsrs

Zoraya disse...

Gente, obrigada pela leitura e comentários. Que nenhum de nós sejamos antonio carlos ou suzanas na vida (bem, suzanas com final feliz até vai...) beijos bonitos a todos

albir disse...

Zoraya,
texto bom é isso: divide a torcida. Beijo.