quarta-feira, 9 de maio de 2012

QUE ME PERDOEM OS FILÓSOFOS
>> Carla Dias >>




Eu não sei filosofia. Tive um professor de filosofia no colégio, há mil tempos, mas não me lembro de um nada do que ele ensinou, porque a dele era uma filosofia despedaçada. E olha que eu era boa aluna. Nada naquelas aulas me surpreendeu a ponto de permanecer.

Alguns amigos sabem filosofia, não do jeito que os filósofos a sabem, eu creio, mas de um jeito literário-panfletário, com direito a marcador de texto em mãos, a colorir tudo o que irá parar nas mensagens pessoais ou que será citado em status de rede social.

Talvez o meu problema seja a mania insistente de transformar tudo em poesia. Alguns dizem que faço isso para estragar a seriedade dos assuntos, mas não! Jamais alvejaria seriedades com descaso. Digo em poesia porque sou ignorante, não sei dizer de outro jeito. Não sei o jeito que é para poder dizê-lo.

Assisti a um programa de tevê no qual um filósofo – que não gosta de ser chamado filósofo – estava sendo açoitado com perguntas sobre a filosofia entremeada à política. Não que ele desgostasse da inquirição, pois é figura que a provoca sem medo, só que me pareceu que ele queria ir além, apesar de cercado pelo tema. Lembro-me de ter dito, para a televisão mesmo, como se ele pudesse me escutar: filosofia é e ponto ou é além? 

Na minha condição de ignorante, posso perguntar o que quiser sem medo de errar, porque errar vem no pacote com a ignorância. E não estou fugindo responsabilidade de eventualmente aprender, mas é que a liberdade que a ignorância oferece é dos melhores prefácios para o aprendizado. Talvez eu nunca compreenda a complexidade da filosofia, mas jamais deixaria de perguntar sobre ela.

No meio do alvoroço, alguém decidiu falar sobre os livros do filósofo. Foi então que o filósofo - que não gosta de ser chamado filósofo – poetizou.

Quando ele citou a arte, fazendo referência ao juízo estético, citando a imagem pictórica, ele me fez acreditar novamente no poder da ambiguidade, no bem e mal, certo e errado, feio e bonito, os contrários no mesmo balaio, o olhar do aceite. Não reconheci certos termos, que devem ser coisa de filosofia mesmo, mas ele falou de um jeito de poeta que não é poeta, mas sim filósofo que não gosta de ser chamado filósofo. Além do mais, há algo que parece que, também na filosofia, anda fazendo falta: aqueles que atinjam um alto nível de conhecimento, que realmente tenham se dedicado a aprender, e não apenas a citar a bibliografia dos que nasceram há séculos, e que popularizem essa sabedoria sem imbecilizá-la. Já que, infelizmente, popularizar tem feito par com o imbecilizar, como se fossem um casal que jamais recorrerá ao divórcio, porque isso não é coisa que se faça.

Posso não saber filosofia, e talvez nunca a aprenda como se deve, tornando-me apenas uma entusiasta do tema, quem certamente terá dificuldades em se lembrar dos nomes dos célebres filósofos de todos os tempos, até mesmo do nosso. No entanto, adoro o verbo, o significado amplo que ele abarca, no Aurélio mesmo. É que filosofar sobre pedras criando círculos na água, ou sobre os lábios se preparando para o beijo. Sobre o que dói e o que alegra, assim como o que é claramente percebido e o que depende da atenção do distraído. Filosofar é se esbaldar em uma poesia de sentidos aguçados.

Que me perdoem os filósofos. 

Imagem © Rodrigo Scott - rodrigoscott.com



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5 comentários:

Anônimo disse...

Que a poesia perdoe a filosofia que a ela não se alinha....
Abs
Vera Menezes

Vicente Lima disse...

Carla, filosofia é reflexão, a busca de resultado; se vc passa horas, dias, semanas, pensando no que escreveu, ou falou, é porque filosofou. Como seu fã, posso dizer que já li textos filosóficos seus.
Boa Crônica.

Marisa Nascimento disse...

Carla, ler você há muito tempo já se tornou parte da minha filosofia de vida :) bjs

Zoraya disse...

Eles perdoam sim, ainda mais de ler sua crônica.

Carla Dias disse...

Vera... Muito poeticamente bem colocado. Abraço!

Vicente... Então sou de filosofar o tempo todo, porque não consigo para de pensar, refletir, questionar. Obrigada pela gentileza de ler meus textos.

Marisa... Fiquei tão contente em saber que a sua filosofia de vida recebeu bem os meus textos. Beijos!

Zoraya... Ufa! Ser perdoada, de vez em quando, é bom.