domingo, 20 de maio de 2012

VOLCANO E HURRICANE
>> Eduardo Loureiro Jr.

Seu nome era Hurricane (Furacão). Ela era um boxeador negro americano dos anos 60. Sua carreira foi interrompida por uma acusação de assassinato pela qual foi condenado. O movimento civil não conseguiu retirá-lo da prisão. Ele chegou a ganhar uma canção de Bob Dylan com seu nome, mas não ganhou a liberdade. Dezenove anos depois, um terceiro julgamento o declarou inocente. Furacão havia sido vítima de uma armação policial de caráter racista.

A prisão de Furacão começou com 90 dias de solitária por ele ter se recusado a usar o uniforme de presidiário. Depois disso, ele criou sua própria solitária, dormindo durante o dia e passando as noites acordado. Aprendeu a lidar com seu desejo frustrado de liberdade recusando o próprio desejo. Usou seu tempo para manter sua forma física, ler e... escrever sua biografia, que foi publicada.

Um dos velhos exemplares de seu livro foi comprado por um jovem estudante, também negro, que estava sendo educado por uma família, um grupo de amigos, no Canadá. Impressionado com a biografia, o jovem escreveu para Furacão, que respondeu. Começou uma grande amizade que culminou com a mudança do grupo para os Estados Unidos com o objetivo de libertar o amigo. Reentrevistando testemunhas do processo, o grupo de canadenses conseguiu encontrar evidências que permitiram a absolvição de Furacão.

Eu não sabia de nada disso até anteontem, quando vi o filme Hurricane, de 1999.

Também eu já fui um boxeador. Minha irmã, um ano e meio mais nova que eu, diz que, quando éramos crianças, eu a chamava para brincar de boxe. Sim, eu sei que deveria procurar alguém do meu tamanho e do meu sexo, alguém que eu só encontraria alguns meses depois, quando me envolvi em minha primeira (até onde eu me lembro) e única briga de rua. Bati, apanhei. Apanhei, bati. E decidi parar por aí. Externamente.

Por volta dos 8 anos, desisti de uma promissora carreira de Hurricane para me tornar um Volcano. Troquei o calor da luta pelo frio das cordilheiras. Virei um vulcão inativo coberto de neve. Coisa bonita de se ver. Recebo mesmo muitos cumprimentos por minha calma, suavidade, gentileza, mansidão, paciência... a lista é longa. But that's not me. Não sou eu inteiramente. Quando os outros estão despertos, eu estou dormindo. Só quando eles — incluindo você, caro leitor — pernoitam, eu acordo.

Eu não precisei de uma conspiração policial para ser aprisionado. Eu encarcerei a mim mesmo. Vivo em uma solitária, num pequeno mundo só meu. Neste mundo, eu continuo aplicando meus golpes: jabs, diretos, cruzados, ganchos, uppercuts. Luto comigo e com os outros em pensamentos nocauteadores. O rosto da minha mente tem narizes quebrados, olhos roxos e até orelhas mordidas. Eu guardo, guardava, em segredo meu corpo mental mutilado. A fala é íntima do pensamento. Ela pode revelar seus segredos. A boca fala do que o coração está cheio. Meu coração está cheio de inconformação, ódio, rancor. Eu decidi ficar calado.

Substituí a fala pela escrita. A escrita aceita borracha. A escrita aceita BACKSPACE. Criei um delay, um retardamento, em minha comunicação. Coloquei as mãos, os dedos, os dígitos, entre a palavra e o coração. Tentei escrever como convém, sem querer ferir ninguém. Minha biografia não é livro impactante, é crônica dominical de sangue cansado após percorrer caminho tão longo do coração até o teclado.

A escrita me trouxe muitos novos amigos: visitas cheia de graça em minha prisão de segurança máxima. Eles — vocês — são minha esperança de que a fúria destrutiva da lava não seja a única forma de conquistar a liberdade. As palavras de Furacão para seu jovem amigo talvez possam um dia ser ditas por Vulcão: "O ódio me pôs na prisão. E o amor vai me tirar".




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8 comentários:

Marisa Nascimento disse...

E esse seu amor pelas palavras que me aprisiona aqui no crônica do dia...obrigada por essa prisão que me faz entender cada vez mais a liberdade de ser :)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato sempre, Marisa. :)

albir disse...

Você padece da prisão que prende todo ser humano. Por isso tanta solidariedade. Um abraço carcerário.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Albir, você é um maravilhoso companheiro de cela. :)

Vicente Lima disse...

Eu estava lendo um texto doce, porém rígido, reflexivo, de muita informação; não dispensaria uma palavra dele - eu estava algemado a ele -, não lembro, todavia, o nome do autor. Euclides, Eudidis, Eduris, bem não lembro. Opa. Recordo o final é Loureiro Jr.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Fez-me sorrir, Vicente. :) Grato.

Zoraya disse...

Irretocável, libertador. Se servir de consolo, há algumas outras celas solítárias ocupadas por Volcanos, num corpo perto de você. Obrigada, mais um texto para guardar.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Precisamos então arrumar um carcereiro tão gente boa quanto o do filme, Zoraya. :)