domingo, 6 de maio de 2012

PIPOCANDO ALEGRIA >> Eduardo Loureiro Jr.

Pedi a Deus alegria, e Ele veio pipocando poesia...

"Deus, me dê alegria...", pedi assim, meio envergonhado por estar pedindo coisa que talvez não se peça porque não pode ser dada à toa. Com a cabeça encaraminholada de culpas e ultrarresponsabilidades, refiz o pedido, já quase sem o ardor do coração: "Deus, me ensine o caminho da alegria".

Minha carência de alegria era graúda, alimentar. Eu tinha fome de alegria. Fome já sem forças de plantar, comprar ou roubar. Fome fraca, sentada em via pública, braço estendido e apoiado sobre a perna em V invertido, boné na mão. Fome andarilha, esfarrapada mendiga:

— Um'alegria pelamordedeus!

Fome minha, quando eu tenho, e eu tenho todo dia, eu sacio com pipoca, quem me conhece sabe. Não armazeno arroz, feijão, farinha... armazeno milho. Não vou pagar um real, um e cinquenta num saquinho. Pipoca eu e faço e como é de bacia. Fome assim tão grande quanto fome de alegria.

Perambulando de fome foi que me vi numa calçada de Pirenópolis, a 145 quilômetros de casa, num sol de 3 da tarde. Foi quando o pipoqueiro parou, aproveitando a sombra que, não fosse eu tão pobre, chamaria de minha:

— PAROU, PAROU, PINTOU POESIA! — gritou assim o pipoqueiro em seu megafone.

Eu olhei para ele como quem não tem coragem de pedir um saquinho de alegria.

— FALE UM VERSINHO E GANHE UM SAQUINHO — quase ordenou o pipoqueiro, como se respondendo aos meus pensamentos.

Três meninas, crianças ainda, retardaram o passo com três sorrisos.

— Querem pipoca? — perguntou o pipoqueiro.

— Não sei poesia — respondeu uma das meninas.

O pipoqueiro enfiou a mão no bolso de seu avental verde e trouxe de lá um livrinho do Mário Quintana.

— Pode escolher.

A menina do meio acolheu o livro, desembaraçou as páginas e trouxe bem isto, boca no megafone:

TODOS ESSES QUE AÍ ESTÃO
ATRAVANCANDO O MEU CAMINHO
ELES PASSARÃO
EU PASSARINHO

Poesia veio, pipoca foi. As outras meninas se animaram a ganhar os seus saquinhos. Poesias vieram, pipocas foram. Três meninas, leitoras agora, retomaram o passo com três sorrisos.

Depois vieram moços e moças, velhos e velhas. PAROU, PAROU, PINTOU POESIA! E eu vendo e ouvindo o pipocar de poesias, ainda descrente de que fosse assim tão fácil.

Uma mulher aproximou-se de mim. Ajeitei o boné em minha mão frouxa. Não veio moeda, veio um pedido:

— Eu não sei verso nenhum. Você poderia dizer um poema ao pipoqueiro por mim?

O pipoqueiro PAROU, PAROU, PINTOU POESIA e colocou o megafone em meu boné. Fiz força para receber o peso da esmola:

— Não sei, não posso, não vou.

A mulher e o pipoqueiro insistiram com o olhar. Eu, fraco, obedeci:

— Sabe lá...

— No megafone — o pipoqueiro ordenou.

Continuei obedecendo:

SABE LÁ O QUE É NÃO TER E TER QUE TER PRA DAR?
SABE LÁ, SABE LÁ
NOS ARREDORES DO AMOR
QUEM VAI SABER REPARAR
QUE O DIA NASCEU?

— Obrigada, moço — agradeceu a mulher, com seu saquinho de pipoca já na mão.

— Quer pipoca? — perguntou para mim o pipoqueiro.

— Quero — respondi miúdo, disfarçando meu QUERO megafônico.

E o pipoqueiro ficou esperando até que eu me lembrasse de uns versos tristes de Ronaldo Marcos Simões Moreira:

NÃO DEIXAREI DE SONHAR CONTIGO
E EM CADA INSTANTE OPORTUNO DA VIDA
QUEIXAR-ME-EI AO CUPIDO
ESSE LOUCO DONO DO AMOR PROIBIDO
A QUEM TODOS RECORREM COM ENFADO
E FALAM DO AMOR COMO SE TIVESSEM MORRIDO

O pipoqueiro estendeu para mim o saquinho de pipocas e, como eu pedisse sal em pensamento, derramou uma lágrima sobre as pipocas.

Fácil como vieram para as minhas mãos, as pipocas se foram para o túnel escuro e longo de minha fome.

— Quer mais? perguntou o pipoqueiro.

Respondi-lhe em versos de Fabiano dos Santos:

VOCÊ PASSOU
E FEITO PLUMA JOGOU
UM BEIJO EM MIM
ME DEIXANDO ASSIM
FEITO CRIANÇA QUANDO GANHA BRINQUEDO
A PLUMA BATEU NO MEU VIDRO
QUASE QUEBRANDO O MEU MEDO

O pipoqueiro sorriu um saquinho de pipocas para mim. Minha fome agora tinha um tamanho quase comível.

— Mais? — quis saber o pipoqueiro. E eu me perguntei se era a minha fome de pipocas ou se era a fome dele de poemas.

Saciei-nos com um poema de Manu Kelé:

AS ESTRELAS DE LUZ MANSA
E A LUA A DORMIR
CÁ NA TERRA A ESPERANÇA
DE VIVER PERTO DE TI
TE AGRADAR COM SENTIMENTOS
VERDADEIROS SEDUTORES
E TE DAR MUITOS MOMENTOS
DE EMOÇÕES E DE AMORES
ABRANDAR TODO O TEU MEDO
ADORNAR TODO O TEU SONHO
COM AS ESTRELAS DE LUZ MANSA
E A LUA A DORMIR

O pipoqueiro suspirou um terceiro saquinho de pipocas para mim. Com o que me levantei, coloquei o boné na cabeça, agradeci e passei a caminhar pela cidade, cantando uns versos de Wilson Pereira. Tanto caminhei e cantei que outros cantaram e caminharam comigo até que, completando a volta perfeita do círculo, chegamos em multidão à sombra do pipoqueiro PAROU, PAROU, PINTOU POESIA.

Inspiramos todos o cheiro quente da pipoca recém-pipocada, e cantamos juntos:

O AMOR É UM TREM DE DESEJOS
TREM ANTIGO
ANTIGO DEMAIS
VEM CARREGADO DE SONHOS E DE QUEIJOS
LÁ DE MINAS GERAIS

Saquinhos, saquinhos e mais saquinhos de pipoca o pipoqueiro entregou para cada um de meus acompanhantes. Quando chegou a minha vez, ainda havia bastante pipoca mas não havia mais saquinhos. Voltei a sentir uma pontada de fome de alegria. O mundo parou a sua dança.

O pipoqueiro, feito Deus fosse, apontou para a minha cabeça. Eu sorri, estendendo o boné com braço e mão firmes. E o pipoqueiro encheu minha bacia de poeminhas brancos em flor.

Deus me deu alegria, e ainda ensinou o caminho:
PAROU, PAROU, PINTOU POESIA.
DIGA UM VERSINHO E GANHE UM SAQUINHO.
Grato, Sr. Pipoqueiro.


*

SERVIÇO — Meu pipoqueiro na verdade foram três: Marcelo, Maria e Manuela. Eles realizam o projeto Pipocando Poesia, que eu tive a alegria de conhecer, receber e comer enquanto participava da 4ª FLIPIRI.





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12 comentários:

KLAUS POEMAS disse...

Agradabilíssimo. Parabéns. Um abraço. Klaus

Tatiana Nunes de Oliveira disse...

Parou, parou e pipocou alegria em meu coração ao ler o teu texto, Eduardo. Texto com palavras que pipocam suavemente dentro da gente! Emoção parou, parou e ficou! Obrigada por me oferecer, neste domingo, tantos saquinhos de alegria.

Marisa Nascimento disse...

Eduardo, que presente lindo neste domingo.
Amei passear na página pipocando poesia. Amei te ler com tanta poesia.
Bjs.

aloka disse...

Facinho assim, a pipoca pipocando e os versos fluindo. Só um poeta bom de verso, improvisado ou decorado, pode comer pipoca quentinha e matar a fome de poesia e do corpo faminto com tanta versatilidade como você. Parabéns e obrigada.

Aloka

Ranyele Oliveira disse...

Uma perfeição...

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Salve, poeta Klaus! Grato, irmão. :)

Grato, Tati. Revê-la foi também um saquinho na minha alegria de sábado. :)

Marisa, você é uma pipoca de amor. Grato. :)

Grato, Aloka, que rima com pipoca, mais um sinal de sua alegria. :))

Prazer, Ranyele. Aquele sábado foi mesmo uma tarde perfeita. Que bom que a crônica também lhe pareceu assim. ;)

albir disse...

Mais um passeio com você, Edu, pelas asas da poesia. Merecia estar na série da Carla Dias sobre profissões. Você seria Guia Poético com pagamento em pipocas. Abraço.

Olivia Maia disse...

Pense num cabra bom... pedinte fervoroso... amigo de Deus... que nos emocionou com versos e melodias. E nos fez ganhar pipocas santitantes de alegria.
Uai! trem bãoooo, sô!

Elicio Pontes disse...

Eduardo
O Pátio de PIRI estava mesmo precisando de poesia e música vindas lá do Ceará. Pipoca é bom, com poesia é melhor. E à noite foi de lua cheia e serestas pelas pedras da rua.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Albir, quando eu crescer, quero ser personagem da Carla. :) Grato.

Elício e Olívia, a presença de vocês foi uma bênção: o sal e a manteiga da pipoca. Grato.

Zoraya disse...

Ah, puxa, quero um pipoqueiro assim todos os dias, quando sair do trabalho. E de repente aprender o ofício, para sair por aí distribuindo pipocas em troca de poesia nos dias tristes. Lindo

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Acho que você tem perfil para o ofício, Zoraya. :) Grato.