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SÉTIMO CAPÍTULO - FINAL >> Carla Dias >>



Eles se conheceram em um bar. Ela estava com amigos, comemorando o aniversário de um deles. Ele estava sozinho, bebendo o último drinque da noite antes de voltar para casa, para a realidade do silêncio com o qual ela o recebe há anos, e que é sempre quebrado, lindamente, pelos blues de B. B. King.

Flertaram como homens e mulheres flertam desde sempre. O que mais o agradava era que ela nada sabia sobre ele, sendo assim, não havia motivo para temê-lo. Porém, quando ele se juntou ao grupo de amigos, recebendo dela o direito à intimidade das mãos dadas, ao escutá-la dizer palavras com a voz que não combinava com ela, mas de um jeito tão bonito que o fez imaginá-la crooner de uma orquestra de delírios, não tardou a começar a perceber as coisas como a sua profissão determinava.

Profissionais da área dele descobrem seu dom no dia de aniversário de 34 anos. A partir daí, tudo muda em sua realidade. No mesmo dia, eles fazem as malas e mudam de país, para garantir que não haja contato com a família, o que poderia colocar em risco um trabalho que depende da sutileza, da percepção apurada.

Ignorando a profissão dele, em algumas horas de conversa ela o definiu poeta. A cada vez que ela sorria, ele padecia da tristeza de quem deixara de ser o homem desejando o romance para se tornar o profissional a executar sua função.

Um interpretador de olhares até poderia ser um poeta, mas a sua poesia jamais seria autoral. É um profissional que lida com o que há de mais secreto, com o que o ser humano não diz em palavras e esconde em gestos, mas que está sempre lá, em seu olhar. Sendo assim, a profissão exige o esmero na tradução do que dizem os olhares. E tais significados são utilizados pelos profissionais não tradicionais na lida, ampliando a percepção deles ao executar suas funções, garantindo que eles façam o melhor.

Ele tem 34 anos há duas décadas. O profissional de sua área tem data de validade. Após se descobrir interpretador de olhares, ele começa uma jornada de 77 anos de trabalho, sem envelhecer, mantendo-se tão ágil e lúcido quanto aos 34 anos de idade. É como se o tempo parasse para ele. E então, no dia do seu aniversário de 111 anos, ele se deita para dormir e não acorda.

Desde que as profissões não tradicionais foram reveladas e as pessoas comuns passaram a identificar os seus profissionais, ele foi chamado de vampiro tantas vezes quanto jamais será chamado pelo nome. Nos primeiros anos de trabalho, tentava explicar que não era um morto-vivo sugador de sangue, mas um ser humano com uma habilidade especial. Depois desistiu de se explicar e se adaptou, adotando a solidão como companheira.

Invejado por aqueles que buscam a eterna juventude, odiado pelos pragmáticos e pelos temerosos que o julgam uma aberração e não compreendem a importância da sua profissão, ele teve de aprender a aproveitar a uma hora que antecede a interpretação de um olhar.  A uma hora em que lhe é permitido se relacionar normalmente com uma pessoa. E então, quando essa uma hora passa, tudo muda. Como agora, quando ele sente a mão dela afrouxar o toque, seu corpo estremecer e percebe sua boca ficando seca. E tudo se aquieta, as pessoas ao redor parecem personagens de filme mudo. O silêncio - o mesmo que o recebe em sua casa e que ele desafia ao tocar os blues de B. B. King - os abraça, interpretador e cliente.

Ela já não sorri, não há euforia em seu semblante. Na verdade, há uma tristeza profunda no lugar do usual medo. Ela toca a face dele, os olhos aguados, e assim o interpretador de olhares, antes de se dedicar ao feito, diz: não chore, porque você é das raras pessoas que podem nos ajudar a apurar a percepção humana quando é preciso encarar promessas descumpridas, aceitar que é hora de partir deste mundo, para que as mágoas não ecoem eternamente, e que corações possam se recuperar, após desapontamentos. Você é colaboradora para que os suspiros ganhem significados e os desfechos sejam justos.

O interpretador de olhares acarinha-lhe as faces. Ela sabe que não se lembrará dele, depois de concluída a interpretação. Sabe que aquela hora tão significativa habitará a sua alma e ecoará como uma das faltas que sentirá do que jamais viveu. Ele sabe que, depois do feito, não a encontrará novamente, o que torna a ação mais difícil. Só que ele é um profissional com responsabilidades que não pode renegar como um trabalhador comum poderia. Não há como pedir demissão, começar de novo. Ele é o que é.

Aproxima seu rosto do dela, tão perto, até seus narizes se tocarem. Olhos nos olhos, ele pede que ela não chore e aos poucos ela se acalma, para de chorar. Em alguns minutos, ela se desvencilha dele e volta para a festa, para os barulhos de comemoração, sorrindo e falante, sem se lembrar do que acontecera antes.

Sabe que a vida depende de profissionais como ele para fluir mais harmoniosa. Compreende a importância de liderar os profissionais não tradicionais, de mantê-los cientes da importância do que fazem. Só que é praticamente impossível de se negar - porque eles são humanos como os outros, apesar de detentores de habilidades especiais – que para esses profissionais a vida também é mais solitária, desafiadora e melancólica.

(primeiro capítulo) Mensageiro de promessas descumpridas
(segundo capítulo) Acompanhante de almas
(terceiro capítulo) Abrandador de mágoas
(quarto capítulo)   Remendador de corações
(quinto capítulo)   Semeador de suspiros
(sexto capítulo)    Orquestrador de desfechos

Imagem "De onde viemos" © Rodrigo Scott - rodrigoscott.com


Comentários

Zoraya disse…
Romance já! e eu AMO B.B. King. Beijos
albir disse…
Confesso-me um pouco desapontado com a palavra "final". Queria que a série durasse mais. Mas sei que outras virão: séries, crônicas, ou que nome ou forma tenham. Beijo.
Carla Dias disse…
Zoraya... Culpa sua ter colocado essa ideia de transformar os contos em romance. Aí me animei, né? Beijos!

Albir... Tive de colocar a palavra 'final' lá porque me conheço, acabaria não tendo fim a lista de profissões peculiares. E também porque quero escrever um romance usando os personagens que os contos abordam. Vamos ver se dá certo. Beijos!

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