domingo, 27 de maio de 2012

MANIFESTO >> Whisner Fraga


Estudávamos, eu e meus irmãos, no período da manhã, o que equivale a dizer que devíamos acordar às seis da manhã ou pouco menos, o que era muito penoso, porque todos nós gostávamos (e acho que ainda gostamos) de dormir. Depois, brigávamos entre nós para ver quem buscaria o pão e quem faria o café e o chá. Geralmente os mais fracos perdiam – eu ia até a padaria e minha irmã preparava o leite e companhia. Com o tempo, meu irmão, mais parrudo do que nós outros, percebeu que podia dormir até mais tarde, já que, para se encaminhar para a escola, só devia vestir o uniforme, ajuntar os livros e se deliciar com o café da manhã preparado por nós.

A sorte é que o Polivalente, escola que frequentávamos, era perto de casa. Uns quinze minutos a pé ou cinco minutos de bicicleta. Minha irmã, mimada como era, cursava um colégio chique, que ficava mais distante de nosso bairro, o que não representava problema nenhum, já que tinha carona todos os dias. A Escola Estadual Antônio de Souza Martins era disputada, todos queriam estudar lá nos anos 1980. Tínhamos aula de Artes, Educação para o lar, Práticas agrícolas, era um negócio inconcebível em um país que escapava de uma ditadura militar. Então havia um vestibular, que era tão concorrido quanto os quase extintos vestibulares para ingresso nas boas universidades públicas de nossa pátria.

Enquanto escrevo, acabo por me lembrar de uma história interessante. Ao lerem o ocorrido, por favor, não me tomem como arrogante, porque não sou de jeito nenhum. Não chego ao cúmulo de ter algum complexo de inferioridade, mas também não cultivo qualquer sentimento de superioridade com relação ao que quer que seja. O fato é que prestei o tal vestibulinho para ingressar no colégio e aguardava ansioso a resposta. Se fosse reprovado, teria de ir para uma escola inferior e, pior, longe de casa. Na manhã do dia acertado para divulgarem o resultado, uma amiga de minha mãe liga para ela: não tinha visto meu nome na lista. Desesperada, minha família corre para a 16, pois o resultado estava afixado nos muros de entrada do Polivalente. Claro, todo mundo começou a procurar lá no fim da lista de uns quatrocentos nomes e veio rumo ao início. Entre os primeiros colocados estava lá: Whisner Fraga Mamede. Eu tinha tudo para ter uma baixa auto-estima, não?

Estive recentemente em Ituiutaba e, como sempre faço, visitei o Polivalente. Mais uma vez voltei triste para casa. Não condeno, de maneira alguma, os gestores atuais da escola, nem tampouco seus professores, que, estou certo, fazem o possível. Vi o capim invadindo o que já foi uma pista de corrida, vi as quadras e mesmo o campo, sem manutenção, abandonados, vi parte do prédio fechada, pois não tem mais condições de uso. O edifício de hoje é somente uma sombra do que foi há trinta anos. Conheço a realidade da educação, pois também sou professor e posso dizer que os diretores, os docentes não têm culpa. Sabemos que a educação no Brasil nunca foi prioridade e se há o mito que havia mais dinheiro para esta área anos 1970, é porque poucas pessoas iam para a escola, o que barateava todo o processo. O orçamento não conseguiu crescer na mesma proporção que o número de alunos que ingressam no sistema. O que podemos fazer? Deixar de enxergar a educação pública, gratuita e de qualidade como um favor e começar a percebê-la como um direito de todos. Assim que isso acontecer, podemos ir à luta.


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5 comentários:

Zoraya disse...

Whisner, estou adorando suas memórias. E parabéns, minha família fez algo parecido comigo e eu tive de resolver na terapia, hahahah. Beijos

Anônimo disse...

ESTOU ADOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOORRRRRRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAANNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNDO ESSAS CRÔNICAS. GENTEM, ESSAS CRÔNICAS SÃO DEMAIS.

whisner disse...

Zoraya, só não fiz terapia por pura e irremediável pãodurice. Bjs e grato pela leitura.

whisner disse...

Anônimo, seu comentário me deixou muito contente!

Carla Dias disse...

Interessante saber dessa sua história e poder comparar com o que acontece hoje. Eu continuo esperançosa de que o ensino seja cuidado como se deve e dê frutos, que dê espaço para pessoas aprenderem de verdade.