Pular para o conteúdo principal

MANIFESTO >> Whisner Fraga


Estudávamos, eu e meus irmãos, no período da manhã, o que equivale a dizer que devíamos acordar às seis da manhã ou pouco menos, o que era muito penoso, porque todos nós gostávamos (e acho que ainda gostamos) de dormir. Depois, brigávamos entre nós para ver quem buscaria o pão e quem faria o café e o chá. Geralmente os mais fracos perdiam – eu ia até a padaria e minha irmã preparava o leite e companhia. Com o tempo, meu irmão, mais parrudo do que nós outros, percebeu que podia dormir até mais tarde, já que, para se encaminhar para a escola, só devia vestir o uniforme, ajuntar os livros e se deliciar com o café da manhã preparado por nós.

A sorte é que o Polivalente, escola que frequentávamos, era perto de casa. Uns quinze minutos a pé ou cinco minutos de bicicleta. Minha irmã, mimada como era, cursava um colégio chique, que ficava mais distante de nosso bairro, o que não representava problema nenhum, já que tinha carona todos os dias. A Escola Estadual Antônio de Souza Martins era disputada, todos queriam estudar lá nos anos 1980. Tínhamos aula de Artes, Educação para o lar, Práticas agrícolas, era um negócio inconcebível em um país que escapava de uma ditadura militar. Então havia um vestibular, que era tão concorrido quanto os quase extintos vestibulares para ingresso nas boas universidades públicas de nossa pátria.

Enquanto escrevo, acabo por me lembrar de uma história interessante. Ao lerem o ocorrido, por favor, não me tomem como arrogante, porque não sou de jeito nenhum. Não chego ao cúmulo de ter algum complexo de inferioridade, mas também não cultivo qualquer sentimento de superioridade com relação ao que quer que seja. O fato é que prestei o tal vestibulinho para ingressar no colégio e aguardava ansioso a resposta. Se fosse reprovado, teria de ir para uma escola inferior e, pior, longe de casa. Na manhã do dia acertado para divulgarem o resultado, uma amiga de minha mãe liga para ela: não tinha visto meu nome na lista. Desesperada, minha família corre para a 16, pois o resultado estava afixado nos muros de entrada do Polivalente. Claro, todo mundo começou a procurar lá no fim da lista de uns quatrocentos nomes e veio rumo ao início. Entre os primeiros colocados estava lá: Whisner Fraga Mamede. Eu tinha tudo para ter uma baixa auto-estima, não?

Estive recentemente em Ituiutaba e, como sempre faço, visitei o Polivalente. Mais uma vez voltei triste para casa. Não condeno, de maneira alguma, os gestores atuais da escola, nem tampouco seus professores, que, estou certo, fazem o possível. Vi o capim invadindo o que já foi uma pista de corrida, vi as quadras e mesmo o campo, sem manutenção, abandonados, vi parte do prédio fechada, pois não tem mais condições de uso. O edifício de hoje é somente uma sombra do que foi há trinta anos. Conheço a realidade da educação, pois também sou professor e posso dizer que os diretores, os docentes não têm culpa. Sabemos que a educação no Brasil nunca foi prioridade e se há o mito que havia mais dinheiro para esta área anos 1970, é porque poucas pessoas iam para a escola, o que barateava todo o processo. O orçamento não conseguiu crescer na mesma proporção que o número de alunos que ingressam no sistema. O que podemos fazer? Deixar de enxergar a educação pública, gratuita e de qualidade como um favor e começar a percebê-la como um direito de todos. Assim que isso acontecer, podemos ir à luta.

Comentários

Zoraya disse…
Whisner, estou adorando suas memórias. E parabéns, minha família fez algo parecido comigo e eu tive de resolver na terapia, hahahah. Beijos
Anônimo disse…
ESTOU ADOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOORRRRRRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAANNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNDO ESSAS CRÔNICAS. GENTEM, ESSAS CRÔNICAS SÃO DEMAIS.
whisner disse…
Zoraya, só não fiz terapia por pura e irremediável pãodurice. Bjs e grato pela leitura.
whisner disse…
Anônimo, seu comentário me deixou muito contente!
Carla Dias disse…
Interessante saber dessa sua história e poder comparar com o que acontece hoje. Eu continuo esperançosa de que o ensino seja cuidado como se deve e dê frutos, que dê espaço para pessoas aprenderem de verdade.

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …