sexta-feira, 25 de maio de 2012

AS CARTAS NÂO MENTEM >> Zoraya Cesar

O rapaz magricela de boné com a aba virada para trás resmungava e ouvia funk ao mesmo tempo em que distribuía os folhetos, nos quais se lia:
Saiba o que vai acontecer e esteja preparado. Madame Cora não erra jamais.
Ao lado da imagem um pouco borrada da dita madame, um número de telefone e um grave aviso:
Só atendo com hora marcada. Não se desespere, procure Madame Cora.
Ele estava ansioso por distribuir todos os folhetos do dia e começar a longa jornada para casa. Se soubesse rezar ou acreditasse em qualquer coisa, rezaria para alguém procurar Madame Cora levando o folheto, para ele ganhar uma comissão. Minguada, mas comissão.  Duas moças passaram por ele e uma delas pegou o folheto, para espanto da outra, você acredita nessas bobagens? imagina, respondeu, só peguei por curiosidade, e seguiram seu caminho.
Jessica não pegou o folheto por curiosidade, mas por estar à beira do desespero, faria qualquer coisa para Anderson largar a mulher por ela, a amante apaixonada. Mas, depois de um ano de idas e vindas, a coisa estava desandando, ele já não parecia tão disposto a sair de casa, estava dividido, a mulher não estava bem de saúde, essas histórias mais antigas que o tempo. 
É disso que eu preciso, pensou Jessica, lendo o folheto. Eu sei que ele quer ficar comigo, aquela vaca deve estar fazendo macumba. Eu também posso fazer.
E se bem o pensou, melhor o fez (li essa expressão em algum lugar, adorei, finalmente pude usá-la). Ligou para Madame Cora, deu uma desculpa no banco onde trabalhava, pegou duas conduções e lá chegou. Uma adolescente vestida de branco, cabelos bem penteados, ofereceu-lhe um copo de água, fluidificada, disse, abre os canais de comunicação com o Além, Madame Cora já vai recebê-la. Jessica tomou, obediente, e a moça sinalizou para ela entrar por uma porta entreaberta nos fundos da sala.
Madame Cora aparentava jovens 50 anos, bem vestida como as ciganas de Hollywood, unhas sem esmalte, o rosto sem maquiagem. Olhou para Jessica e suspirou, mais uma boboca querendo o marido das outras. Mas vamos ao trabalho.
As cartas de Madame Cora foram cruéis. Disseram que Anderson não tinha intenção alguma de largar a mulher, e que Jessica deveria se afastar o quanto antes, pois ele não estava destinado para ela. Jessica insistiu, mas não tem nada que eu possa fazer para mudar isso? Não se deve mexer com o destino, falou Madame Cora, severa. Jessica chorou, mas eu gosto dele, tem de ter alguma coisa, eu quero, eu quero, eu quero.
Madame Cora pensou, amargurada, que essa gente não aprende, a maioria vem aqui assim, querendo mudar os rumos do plano Divino a seu bel prazer, em vez de aproveitar os avisos. No entanto, ela também não podia interferir no destino alheio. Se a cliente estava pedindo e ela, Madame Cora, sabia o que fazer... bem, cada um recebe o que pede. Ditou a Jessica uma série de instruções, nomes de ervas, fases da lua, invocações (não posso dizer quais, nem adianta pedir, Madame Cora me mata!) e um aviso de amigo: pense bem, minha filha, as cartas não mentem, você terá de agüentar as conseqüências até o efeito passar, não se deve mexer com o livre arbítrio dos outros, ele é casado.
Jessica saiu confiante. Não seria uma cartomante moralista que haveria de convencê-la a desistir do seu amor. Danem-se os avisos.
Ela fez tudo conforme o prescrito e, coincidentemente ou não – depende da crença de cada um -, o fato é que Anderson largou a mulher e mudou-se para a casa de Jessica.
Foi um desastre. Ele começou a beber e fazer cenas de ciúme absurdas, Jessica nunca mais teve sossego nem para sair com as amigas. Eram três infelizes, um por ter saído da casa que nunca pretendera largar; outro, por ter perdido o amante em troca de um marido ciumento e raivoso; e o terceiro por ter sido abandonado sem explicação.
Jessica continuava desesperada, não mais para ficar com Anderson, mas para se livrar dele. E também da ex-mulher, que vivia fazendo ameaças de mortes, surras, escândalos. Quanto tempo aquilo ia durar? Até passar, resignava-se a pobre Jessica, que ainda pensou em procurar Madame Cora, mas desistiu. Jamais voltaria a se misturar com magias e destinos novamente.
Do outro lado da cidade, Madame Cora tomava calmamente um chá da erva-doce colhida no seu quintal. As pessoas ou não acreditam em coisa alguma, ou acreditam apenas no que querem, o que dá no mesmo: em infortúnios, filosofava. E se preparou para atender o primeiro cliente da tarde, uma mulher que havia sido abandonada pelo marido por causa de uma bancariazinha muito da sirigaita.


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8 comentários:

Anônimo disse...

Boa história, pena que mais comum do que a gente imagina! Rsrsrs. As pessoas primeiro querem as "coisas" e só depois pensam nas consequências ...
Cris

aretuza disse...

Mas afinal, e o telefone da Madame COra???????!!!!!!!!!!!

Apb1 disse...

...é por essas e outras que eu não quero que Zozoca abandone Tuto, pra ficar comigo.... RSRSRSRS Tunin. Beijão, Parabéns!!!

Alexandre Durão disse...

Zoraya. Adorei. Pensei no seguinte: você já tem um ótimo material para montar um livro sobre mulheres em torno do amor/paixão/sofrimento. Você sabe escrever sobre isso. Junte essa sua Jessica com aquela que bateu no rapaz de programa, com a que resolveu beijar os desconhecidos e com a que deixou o envelope vermelho na porta. Histórias de mulheres, pensa nisso.
Beijos.

Clarisse disse...

ZÔ, adorei! Essa aí com certeza não sabia o que estava pedindo, é a famosa benção que vira maldição.... Bjs, bjs, Clá

Anônimo disse...

Oh, Madame Cora!? Ajude-me!!!

albir disse...

Zoraya,
essa tergiversação devia gerar impedimento pelo estatuto das cartomantes. Mas tem a vantagem de que Madame Cora já tende com mais informação. Beijo.

Carla Dias disse...

Fiquei com pena da Madame Cora. Isso pode acabar em círculo vicioso. Vai que a ex-esposa se torna amante do marido da ex-amante. Medo...