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AS CARTAS NÂO MENTEM >> Zoraya Cesar

O rapaz magricela de boné com a aba virada para trás resmungava e ouvia funk ao mesmo tempo em que distribuía os folhetos, nos quais se lia:
Saiba o que vai acontecer e esteja preparado. Madame Cora não erra jamais.
Ao lado da imagem um pouco borrada da dita madame, um número de telefone e um grave aviso:
Só atendo com hora marcada. Não se desespere, procure Madame Cora.
Ele estava ansioso por distribuir todos os folhetos do dia e começar a longa jornada para casa. Se soubesse rezar ou acreditasse em qualquer coisa, rezaria para alguém procurar Madame Cora levando o folheto, para ele ganhar uma comissão. Minguada, mas comissão.  Duas moças passaram por ele e uma delas pegou o folheto, para espanto da outra, você acredita nessas bobagens? imagina, respondeu, só peguei por curiosidade, e seguiram seu caminho.
Jessica não pegou o folheto por curiosidade, mas por estar à beira do desespero, faria qualquer coisa para Anderson largar a mulher por ela, a amante apaixonada. Mas, depois de um ano de idas e vindas, a coisa estava desandando, ele já não parecia tão disposto a sair de casa, estava dividido, a mulher não estava bem de saúde, essas histórias mais antigas que o tempo. 
É disso que eu preciso, pensou Jessica, lendo o folheto. Eu sei que ele quer ficar comigo, aquela vaca deve estar fazendo macumba. Eu também posso fazer.
E se bem o pensou, melhor o fez (li essa expressão em algum lugar, adorei, finalmente pude usá-la). Ligou para Madame Cora, deu uma desculpa no banco onde trabalhava, pegou duas conduções e lá chegou. Uma adolescente vestida de branco, cabelos bem penteados, ofereceu-lhe um copo de água, fluidificada, disse, abre os canais de comunicação com o Além, Madame Cora já vai recebê-la. Jessica tomou, obediente, e a moça sinalizou para ela entrar por uma porta entreaberta nos fundos da sala.
Madame Cora aparentava jovens 50 anos, bem vestida como as ciganas de Hollywood, unhas sem esmalte, o rosto sem maquiagem. Olhou para Jessica e suspirou, mais uma boboca querendo o marido das outras. Mas vamos ao trabalho.
As cartas de Madame Cora foram cruéis. Disseram que Anderson não tinha intenção alguma de largar a mulher, e que Jessica deveria se afastar o quanto antes, pois ele não estava destinado para ela. Jessica insistiu, mas não tem nada que eu possa fazer para mudar isso? Não se deve mexer com o destino, falou Madame Cora, severa. Jessica chorou, mas eu gosto dele, tem de ter alguma coisa, eu quero, eu quero, eu quero.
Madame Cora pensou, amargurada, que essa gente não aprende, a maioria vem aqui assim, querendo mudar os rumos do plano Divino a seu bel prazer, em vez de aproveitar os avisos. No entanto, ela também não podia interferir no destino alheio. Se a cliente estava pedindo e ela, Madame Cora, sabia o que fazer... bem, cada um recebe o que pede. Ditou a Jessica uma série de instruções, nomes de ervas, fases da lua, invocações (não posso dizer quais, nem adianta pedir, Madame Cora me mata!) e um aviso de amigo: pense bem, minha filha, as cartas não mentem, você terá de agüentar as conseqüências até o efeito passar, não se deve mexer com o livre arbítrio dos outros, ele é casado.
Jessica saiu confiante. Não seria uma cartomante moralista que haveria de convencê-la a desistir do seu amor. Danem-se os avisos.
Ela fez tudo conforme o prescrito e, coincidentemente ou não – depende da crença de cada um -, o fato é que Anderson largou a mulher e mudou-se para a casa de Jessica.
Foi um desastre. Ele começou a beber e fazer cenas de ciúme absurdas, Jessica nunca mais teve sossego nem para sair com as amigas. Eram três infelizes, um por ter saído da casa que nunca pretendera largar; outro, por ter perdido o amante em troca de um marido ciumento e raivoso; e o terceiro por ter sido abandonado sem explicação.
Jessica continuava desesperada, não mais para ficar com Anderson, mas para se livrar dele. E também da ex-mulher, que vivia fazendo ameaças de mortes, surras, escândalos. Quanto tempo aquilo ia durar? Até passar, resignava-se a pobre Jessica, que ainda pensou em procurar Madame Cora, mas desistiu. Jamais voltaria a se misturar com magias e destinos novamente.
Do outro lado da cidade, Madame Cora tomava calmamente um chá da erva-doce colhida no seu quintal. As pessoas ou não acreditam em coisa alguma, ou acreditam apenas no que querem, o que dá no mesmo: em infortúnios, filosofava. E se preparou para atender o primeiro cliente da tarde, uma mulher que havia sido abandonada pelo marido por causa de uma bancariazinha muito da sirigaita.

Comentários

Anônimo disse…
Boa história, pena que mais comum do que a gente imagina! Rsrsrs. As pessoas primeiro querem as "coisas" e só depois pensam nas consequências ...
Cris
aretuza disse…
Mas afinal, e o telefone da Madame COra???????!!!!!!!!!!!
Apb1 disse…
...é por essas e outras que eu não quero que Zozoca abandone Tuto, pra ficar comigo.... RSRSRSRS Tunin. Beijão, Parabéns!!!
Alexandre Durão disse…
Zoraya. Adorei. Pensei no seguinte: você já tem um ótimo material para montar um livro sobre mulheres em torno do amor/paixão/sofrimento. Você sabe escrever sobre isso. Junte essa sua Jessica com aquela que bateu no rapaz de programa, com a que resolveu beijar os desconhecidos e com a que deixou o envelope vermelho na porta. Histórias de mulheres, pensa nisso.
Beijos.
Clarisse disse…
ZÔ, adorei! Essa aí com certeza não sabia o que estava pedindo, é a famosa benção que vira maldição.... Bjs, bjs, Clá
Anônimo disse…
Oh, Madame Cora!? Ajude-me!!!
albir disse…
Zoraya,
essa tergiversação devia gerar impedimento pelo estatuto das cartomantes. Mas tem a vantagem de que Madame Cora já tende com mais informação. Beijo.
Carla Dias disse…
Fiquei com pena da Madame Cora. Isso pode acabar em círculo vicioso. Vai que a ex-esposa se torna amante do marido da ex-amante. Medo...

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