quinta-feira, 17 de maio de 2012

TUDO QUE EU QUERIA DIZER PARA MARTHA >> Fernanda Pinho




Estimada Martha,

tudo bem? As palavras que te escrevo agora soarão como uma carta, mas sabemos que não é. Primeiro porque não tenho seu endereço. Segundo porque, vamos combinar, quem escreve carta em pleno 2012? Mas posso começar fazendo uma confissão? Sou meio démodé. Não fosse o primeiro motivo, eu esqueceria o segundo e te mandaria uma carta do jeito que uma carta deve ser: a próprio punho, quiçá num envelope com tarjinhas em verde e amarelo. Digo, acho que o envelope seria vermelho e azul. Às vezes ainda me pego surpresa com as pessoas falando espanhol ao meu redor. Tenho lapsos de esquecimento de que não estou no Brasil. Estou vivendo em Santiago do Chile.

É, como você também. Li em algumas crônicas suas que viveu aqui por um tempo. Gostou? Eu estou adorando. Não lembro se nas crônicas que li você manifestava sentimentos bons ou ruins sobre ter vivido aqui. Também não lembro em qual livro li isso. Não sou esquecida, como posso ter dado a impressão. Sou apenas um pouco confusa.

Lembro, por exemplo, de todos os livros seu que li. Não foram tantos, é verdade. Primeiro foi o "Doidas e Santas". Eu já havia lido a maioria das crônicas por aí, mas você há de concordar comigo que ler todas reunidas no formato de livro tem um sabor especial. Ao menos para mim, que ainda tenho vontade de ler e escrever cartas.

Depois li o "Fora de Mim". De uma tacada só. E foi um trauma. Li numa manhã de sábado e na noite do mesmo dia passei por um término de relacionamento muito próximo ao que você relatava no livro. Martha, cheguei a pensar que você tinha me dado azar. É que além de confusa sou um pouco supersticiosa. Fiquei meses fugindo dos seus textos, como o diabo da cruz.

Até que no natal do ano passado, resolvi aproveitar o espírito natalino e as promessas de renovação para me desprender dessa bobagem. Pedi dois livros seus num amigo oculto (ou secreto, se preferir). Claro que como pessoa que ainda aprecia as cartas e que tem preferência por ler crônicas reunidas em livros, também sou o tipo que acha sem graça esse negócio de dar sugestões de presentes para o amigo oculto. A surpresa do presente deveria ser o charme da brincadeira. Mas, ok, assim não corremos o risco de levar um presente-bomba para a casa. O que levei, nesse dia, foi o "Feliz Por Nada" e o "Tudo Que Eu Queria te Dizer". E é exatamente o "Tudo O Que Eu Queria te Dizer" que me traz aqui hoje.

Que espécie de pessoa sou eu que deixo o assunto principal para o final? Sou uma espécie meio confusa, démodé, supersticiosa e também ansiosa. Tanto que te escrevo sem sequer ter terminado a leitura. Ah, tem isso também. Ganhei os livros em dezembro e só fui ler em maio, porque ainda andava cismada com você. Mas suas cartas, até onde li, dissolveram a cisma, me esquentaram a alma (e é difícil alguma coisa me esquentar no frio que faz aqui), me amoleceram o coração. Tenho lacrimejado na leitura de cada uma delas, graças à sua capacidade sutil de nos fazer se sentir na pele de remetentes e destinatários tão diversos.

O que eu queria te dizer é: obrigada, Martha. Por se dedicar a escrever cartas e crônicas que deixam a vida mais bonita. E romances também, vai. Eu sei que a culpa não foi sua.

Sem mais para o momento.

Fernanda

Imagem: www.sxc.hu


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3 comentários:

Kika disse...

Querida. Posso falar?
Voce é muito melhor do que a Martha.

Marilza disse...

Olha, nao diria melhor, mas tão boa quanto! Você só se mudou se país; a leveza, a escrita solta continuam as mesmas. Bjs

Cristiane disse...

:) fiquei com vontade de ler a Martha, eu que já li dela tão pouco.