segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

BENDECO >> Albir José Inácio da Silva

Morreu o Bendeco, fácil e à toa como viveu. Não plantou árvores, livros ou filhos que o perpetuassem. Era considerado maluco porque não guardava nada. Comida, roupas, móveis, só precisava do que estivesse usando. O resto distribuía. Depois trabalhava, pedia, ganhava. Não queria luxos, e só teve o que seria muito pouco para os outros.

Uma vez ganhou um rádio, que completava o pouco dinheiro por um serviço. Como já tinha rádio, deu pra uma velhinha mau-humorada, que quase morreu de susto porque nunca tinha ganhado nada.

De outra, ao final de uma semana de capina, Bendeco entregou sua parte para Deoclécio. Deoclécio era um molecão que perambulava por lá e a quem Bendeco ajudava, dividindo trabalho e comida. Ia pra São Paulo comprar mercadoria, vender no Rio e trazer muito dinheiro para os dois. Deoclécio desapareceu, mas boatos diziam que ele tinha enricado no comércio.

Era essa a lógica de Bendeco. Saciada a fome no almoço, distribuía as sobras. Só no jantar voltaria a pensar na comida. Não na que distribuiu, que essa já passou, mas na que teria de arranjar. Pressionado, desculpava-se dizendo que não tinha geladeira. Mas a verdade é que não guardava nem biscoito. Não entendia o guardar, mesmo que a vida todos os dias lhe provasse que ia precisar. Como era normal para ele dividir, pedia com naturalidade. Mas ninguém tinha obrigação de sustentá-lo, e isso provocava a ira de alguns.

Padre Antônio era um deles. Irritava-se quando lhe contavam que Bendeco andava repetindo palavras do sermão fora de contexto: “Não ajunteis tesouros na terra” ou “Olhai os lírios do campo, eles não fiam nem tecem, contudo o pai cuida deles”. Proibiu cesta-básica para o desaforado.

- Está querendo desmoralizar a igreja! – fuzilava. Que não lhe falassem mais daquele maluco!

A não ser por aquelas citações, Bendeco não demonstrava maior religiosidade nem rejeitava qualquer crença. Um velho professor, que às vezes lhe dava um pouco de comida e algum sorriso, costumava dizer que ele era o único comunista de verdade que ele conhecia.

Bendeco não foi alegre nem triste. Viveu apenas. Nem bonito nem feio, não era sequer considerado esteticamente. Não era querido nem odiado. Só parte do bairro, como os postes e os bancos, que às vezes são usados, às vezes desprezados e às vezes depredados.

Agora morreu, e uma “vaquinha” impediu que ele se fosse como indigente. Um carro freou quando o sino já anunciava o último trajeto. A julgar pela pressa, Deoclécio vinha pagar o empréstimo. Mas ainda dessa vez Bendeco recusou o que não precisava.

Acho que Bendeco está feliz assim. Afinal, foi o povo quem lhe pagou a última passagem.

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3 comentários:

Zoraya disse...

Albir, que lindeza de texto. Faz a gente ter vergonha por deixar tantos Bendecos sem assistência mínima (alguns reamente precisam de tão pouco!)e por se apegar a tantas coisas inúteis. Obrigada!

Marisa Nascimento disse...

Albir, mais uma preciosidade sua!
Você consegue envolver os leitores fazendo que, ao final da leitura, continuem a pensar sobre tudo que foi escrito.

albir disse...

Obrigado, Zoraya e Marisa, pela generosidade e carinho.