quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A CANÇÃO DA VEZ >> Carla Dias >>

Há dias que uma canção deu de ficar tamborilando em mim, feito fundo musical para os meus pensamentos. Às vezes, estou em uma conversa séria sobre o trabalho, ou digitando burocracias, e lá vem ela, inteirinha: letra e música, com direito ao arranjo e uma visão do vídeo.

Quando era bem mais jovem, tipo metade da minha idade, eu costumava ir para a cama e selecionar, na minha cachola, a música de ninar. Porém, eu me empolgava e, quando me dava conta, os meus pensamentos haviam se transformado em verdadeiros shows, com direito a cenário e duração de duas horas.

Sim, a música é importante na minha vida, é o que me mantém um ser que vive em sociedade. Sem ela, eu moraria num buraco de tatu. Na verdade, às vezes eu me hospedo em buracos de tatu.

Outro dia, eu estava atendendo uma pessoa muito, mas muito mal humorada e sem um pingo de educação. Além de tudo, ela era faladeira. E eu escutava o que ela tinha a dizer, mas então eu parei de escutar, porque na minha cabeça, começou a tocar uma seleção de hits dos anos 70. Não foi falta de educação minha, mas se eu continuasse a escutá-la, com todo o seu requinte no ato de humilhar o outro, provavelmente eu teria desembolsado o meu lado B de escorpião, e melhor é ele continuar naquele lugarzinho confortável no qual ele se encontra, ao menos no horário comercial.

Voltando a música da vez...

Nas últimas semanas, eu tenho trabalhado no meu livro que será publicado ano que vem. Nessa fase, entra também reescrever alguns trechos para amarrar a história. Eu já tinha decidido que as citações a cada capítulo seriam de letras de música, e como sempre faço, escrevo escutando música, o que me ajuda muito (estou escutando o disco da Marketa Irglova, enquanto escrevo esta crônica). Porém, cheguei neste capítulo dolorido e não conseguia acertar a mão. A ideia estava lá, mas faltava o tempero emocional.

Passei dias empacada naquele capítulo e, consequentemente, na revisão do livro. Até a tal música chegar e se hospedar em mim.

Eu li em algum lugar, certa vez, sobre essa pessoa que não gostava de música. Para mim, soava como alguém que não gostava de respirar. Mas então pensei de outra forma... Ah, ela gosta do silêncio, de ouvir a boa e velha melodia do silêncio, ou então da voz, o sempre presente ritmo de cada um ao dizer palavras.

Eu consegui terminar o capítulo, mas não fosse essa música, ainda estaria procurando o tom certo das palavras. Eu o fiz escutando essa canção, mas não foi apenas a letra, a poesia que me inspirou. A melodia é tão, mas tão dolente e profunda, que me fez mergulhar em mim e buscar o peso certo para o significado daquele momento da história que eu criara.

E depois disso, ela ainda continua aqui, no meu dentro.





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2 comentários:

albir disse...

Carla,
mesmo os que dizem não gostar de música, se procurarem, encontrarão sua trilha sonora. Aquelas músicas que remetem a momentos bons ou maus, mas que compõem uma história.

Carla Dias disse...

Albir... Concordo com você. É um gostar disfarçado de não gostar.