domingo, 18 de dezembro de 2011

FICA, 2011 >> Eduardo Loureiro Jr.

Nós somos aqueles pelos quais estávamos esperando. (Nação indígena Hopi)

Eu sei que o tempo passa, e que todo ano passa, e que é bom que seja assim, mesmo porque não há outro jeito, a vida é eterno movimento e quem fica parado é poste, mas, sei lá, a gente bem que podia abrir uma exceçãozinha pra 2011.

Não, eu não vou dizer que foi um ano em que tudo aconteceu às mil maravilhas. O leitor mesmo deve ter sofrido alguns arranhões, talvez até algum corte profundo. Em 2011, ganhamos algumas cicatrizes, daquelas que não vão sumir tão cedo. Mas cá entre nós, caro leitor, uma cicatriz é bem melhor, bem mais natural, que tatuagem ou maquiagem definitiva. Cicatriz é coisa de quem viveu, de quem caiu e se levantou, de quem rastejou mas encontrou a luz no fim do túnel, de quem arriscou e, de tanto tentar, conseguiu alguma vitória.

O mundo está mudando. Isso ficou claro em 2011. Ainda tem gente que olha pras coisas e diz que o mundo não tem jeito, que a humanidade é um caso perdido, mas cada vez fica mais claro que essas pessoas não estão descrevendo o mundo nem a humanidade, mas aquilo que elas veem diante do espelho. O mundo, como diz Cartola, é um moinho, "vai triturar teus sonhos tão mesquinhos, vai reduzir as ilusões a pó". 2011 foi uma representação numérica disso: uma passagem do 2 a 0 para o 1 a 1; uma transição do tudo ou nada para o meio a meio; uma travessia do complexo de carrasco-vítima para a consciência da autorresponsabilidade; uma mudança das curvas sinuosas do 2 e do 0 para o caminho reto entre 1 e 1.

2011 fez todo o trabalho pesado e deixou tudo prontinho para 2012 apenas finalizar o serviço. O mundo como nós sempre o havíamos pensado vai mesmo acabar ano que vem. Como uma gravidez que acaba em nascimento, feito lagarta se acabando em borboleta, assim o buchudo e sério telejornal acabará em realidade vista com os próprios olhos.

Soa até ingênuo pedir a um ano que fique, e não porque ele não possa permanecer, mas porque 2011 veio mesmo para perdurar. E ficará para sempre. Um ano a partir do qual serão contados os aniversários. Daqui a trinta, quarenta anos, quando um jovenzinho nos perguntar como conseguimos tudo aquilo que estará lá no futuro, abriremos nossa história não com um "era uma vez", mas com um "tudo começou em 2011".

Vamos lá, leitor, não seja resmungão. Pegue uma folhinha de papel aí, aconchegue sua mão a um lápis e faça uma lista do que mudou em você durante 2011. O ano não foi tudo que você queria, imprevistos aconteceram, Papai Noel está com cara de que não vai aparecer com seu presente? Também tiraram sua chupeta e apareceu um irmãozinho com o qual você está tendo que dividir seu até então isolado reinado? Mamãe não quer mais lhe dar o peitinho? Papai deixou de lhe carregar no colo? É, caro leitor, o tempo passa. Como diz o Pai Nosso no tom provocador de meu pai, "só quer venha a nós o vosso reino, mas nada de seja feita a vossa vontade?"

2011 fica. O que passará são velhos hábitos, desnecessários feito folhinhas de calendário. O que passará são pessoas que, apegadas demais a seus cacoetes, preferirão morrer com eles a seguir em frente. "Tem gente que está doida que o mundo se acabe só pra ir junto com ele", dizia Dona Socorro, minha professora de História, a mesma que nos fazia procurar a causa e a consequência de cada fato. 2011 mostrou que nós somos a causa, o mundo é só consequência.

Ainda faltam 13 dias para 2011 NÃO acabar. Aproveite, leitor. Pare de reclamar, meu filho. Deixe o mundo em paz, deixe os políticos em pais, deixe os sacerdotes em paz, deixe as beatas em paz, deixe os ricos em paz, deixe o síndico em paz, deixe os inimigos em paz, deixe a literatura de autoajuda em paz, deixe a axé music em paz, deixe este cronista em paz. Largue mão desse chororô, caro leitor. Vai fazer terapia, vai fazer biodança... Cante, faça, case, invente... Chega de drama! Já não fica bem, já não convence ninguém. Você ainda está em 2010, 2009, 2008, 2007... e não percebeu.

Acorda, leitor! Não é tarde para começar esse ano fantástico que foi 2011. Fica com ele, fica comigo, fica com a gente.





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9 comentários:

fernanda disse...

É, Eduardo. Como eu te disse em outras ocasiões tive um 2011 complicado mas, apesar disso (ou exatamente por isso) muito especial. Vai ficar com certeza.
Beijos

Marisa Nascimento disse...

Eduardo:
Situações de apreensão esperam o meu 2012, por isso, principalmente, queria estiiiiiiiiiiiicar um pouquinho 2011.
E ficar aqui , isso nem precisa pedir, aqui no Crônica, eu FICO!
Obrigada por estar aqui no blog mesmo quando não está... :)
Bjs

Carla Cintia Conteiro disse...

Maravilhoso!

albir disse...

Sua crônica é dessas coisas que a gente precisa ouvir, mesmo que já saiba. Sorriamos mais e reclamemos só nas crônicas.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É, Fernanda, lembrei de você enquanto escrevia a crônica. Você é uma descomplicadora muito especial. :)

Marisa, agora é minha hora de fazer uma "pressãozinha"... Vamos pra 2012 com muita coragem e tudo vai dar certo. :)

Simples assim, Carla Cíntia? :) Grato.

Assim seja, Albir. :)

Carla Dias disse...

Que beleza de crônica, Eduardo. Fez com que eu até ficasse com vontade de, num ataque de fofura, apertar as bochechas de 2011.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Assim você deixa 2011 corado, Carla. :)

Juliana Custodio disse...

Arrasou, Junior! Feliz 2012! Beijo.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

2011 foi mesmo arrasante, Ju. :)