sábado, 10 de dezembro de 2011

RECOMEÇO [Sandra Paes]

Voltar ao incio. Fazer outra vez, o mesmo percurso, o mesmo trabalho, a mesma atividade.

Em toda parte nos deparamos com esse comando. Na ginástica, na produção em série, no ato de manusear qualquer coisa, até mesmo descascando uma fruta, como laranjas, ou maçãs. E quando se lava a louça, guarda-se tudo, e volta-se à mesma tarefa para o jantar? Aquela sensaçao de “fazer outra vez”, está la, até dissociada da busca de melhora, da perfeição.

Vejo isso nas corridas de Fórmula 1 - voltas e mais voltas, de volta ao começo. E quando se dá por terminado um conto, uma história, um enlace? Onde é o recomeço? Onde fica o ponto de nova partida, quando se sente que o tempo nao pára e não volta?

A vida, ouvi um dia de um personagem, é como um rio, só corre pra frente rumo às grandes águas dos oceanos. Seja lá o percurso que se encontre, com que tipo de pedras ou planícies, não há retorno. Então, pra que insistimos tanto no recomeço? Na formação de hábitos, no vício de colecioná-los como forma até de sabedoria, ou acúmulo de experiência? Se a experiência é um farol que ilumina para trás, por que tanta exigência dela pra se começar algo ou recomeçar algo?

Todos os empregadores cobram a tal da experiência e a tão decantada idade. Sem acúmulo de idade não pode haver acúmulo de experiência, e isso, por si só, é um atestado que contraria o próprio percurso da vida.

A vinda de um filho primeiro jamais se repete. O gosto do primeiro beijo e do primeiro amor tambem não. E, ao que parece, burramente tentamos repetir as experiências que gostamos e se as perdemos, tentamos recomeçar tudo outra vez, em nome de algo.

E isso é possivel de fato? Não, apenas a sensação ou ilusão que começamos outra vez.
Se não se pode voltar ao princípio não há recomeço. Só na feitura das malhas de tricô, ou nas voltas de corridas em círculo, mesmo sabendo que a Terra gira em torno de si mesma e nós com ela.

Ando sofrendo de uma certa tonteira por conta dessa coisa de buscar o princípio ou o recomeço. Sinais de que o tempo está se esgotando, como se tivesse um relógio que perde o ritmo de seu tic-tac, sobre minha cabeça, e me induz a levantar de madrugada e procurar pelo recomeço.

E, lá fora, o dia não voltou a recomeçar seus sinais de novo - ou seja lá o que isso possa parecer. A ilusão de noite e dia, me faz vitima de buscas do novo, nem que seja pra descobrir que não há um novo dia, e lá fora não tem um sol brilhando a anunciar isso.

E agora? Não exploda coração! Não por hora. Não se apresse, nem me apresse o rio da vida, ainda apenas sonho com as grandes águas, e até esse sonho se repete, desde sempre. Que desejo assombroso é esse? Se não navego nos desejos de fazer e mudar, se não componho com as regras do produzir pra justificar seja la o que for? Se apenas me deixo levar pelo curso dessa jornada cujas paisagens desconheço, o que anseio de fato?

Por tantos anos de vida e experiências nada se acumulou, nada se repete, nada retorna, nem eu, nem tu, nem o que chamamos de nós, e o que vivemos outrora por lá ficou, quiçá em sua memória ou minha, arquivados ou não, em distintos escaninhos e nem o possivel momento de encontro, se é que houve algum, restou o nada por certo. Pois o tudo jamais se completa nem jamais o sabemos. O próprio curso da vida não permite.

E de fragmentos em fragmentos, vamos brincando de saber, de passar recados e opiniões, de dar e vender conselhos, de tentar advinhar o que nos reserva a esquina ou a queda num abismo. E o que é mais curioso: brincamos de esconde-esconde só pra ter a sensação mais poética de recomeços.

Paródia ou loucura?! Nem sempre escolhemos de fato nosso enredo...

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Um comentário:

Claudia Letti disse...

"E o que é mais curioso: brincamos de esconde-esconde só pra ter a sensação mais poética de recomeços."

Amei! :)
Beijo grande,
Letti