segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

CEGUEIRA NACIONAL
>> Albir José Inácio da Silva

Desconfio ter encontrado a inspiração de Saramago para o seu “Ensaio Sobre a Cegueira”: o Brasil. A princípio só identificamos essa condição em algumas categorias, mas com atenção percebemos que atinge milhões de pessoas.

Aqui todos enxergam as irregularidades, menos os que têm responsabilidade e atribuição de combatê-las. Alguns enxergavam antes, denunciavam e ofereciam soluções. Por isso foram alçados àqueles postos. Mas no dia seguinte à eleição, à nomeação, à posse, já se instalou a cegueira e vemos os pobres funcionários tateando de frente pro crime sem conseguir enxergá-lo.

Começa nos altos escalões. Imagens circulam o Brasil e o mundo mostrando corrupção em gavetas, bolsos e cuecas. O mundo inteiro vê, menos as comissões de ética e os plenários, vítimas, coitados, de cegueira parlamentar.

Não há ruas, esquinas, becos, bares ou biroscas em que não se encontre o proibido jogo do bicho. Há mais de um século todos sabem, todos veem, menos policiais e seus superiores. Atingidos pela tal cegueira, esses homens da lei chegam a fazer ali suas apostas. Mas muito longe estão de qualquer prevaricação. Como não enxergam, julgam tratar-se de guichê da Caixa Econômica ou de outro ente que explore legalmente o jogo de azar.

O mesmo se diga dos caça-níqueis. A autoridade toma cafezinho ao lado dos proscritos engenhos, conversa com os clientes, mas não confisca máquinas e compulsivos no já consagrado estilo “teje preso”. Desídia? Incompetência? Não! Apenas cegueira. Não é disciplinar a questão, é médica, oftalmológica. As corregedorias sabem disso, a prova é que ninguém é punido.

E não é só a polícia. O setor de posturas e a Guarda Municipal ficam cegos exatamente às dezoito horas. Até essa hora apreendem, prendem e arrebentam, usando equipamentos que lembram guerra bacteriológica. Depois passeiam tranquilamente no meio dos camelôs, e pode-se vender ou comprar quase qualquer coisa – de comprimidos a mulheres – nessa zona franca.

Mas não pensem que a doença alcança apenas o funcionalismo. Os que não recebem do erário, só pagam, também podem sofrer desse mal. Poucos eleitores veem o que fazem aqueles que receberam seus votos. A maioria acompanha e denuncia outros eleitos, mas não os seus.

Querem mais? Quem nunca esteve numa festa em que todos estão desesperados com aquela mãe que, episodicamente cega, não vê o filho quebrando obras de arte, derramando refrigerante nos estofados e esfregando bolo no tapete? Pois é, essa senhora é capaz de observar uma fina camada de pó sob o móvel, mas não enxerga o brilhante rebento. As mães compreendem bem isso quando dizem: “criança cega a gente!”.

Fiéis são outra categoria frequentemente acometida de cegueira. Os milagreiros curam diariamente câncer, AIDS, falências, concordatas e dores de cotovelo. Mas quando sofrem, eles próprios, de amigdalite ou unha encravada hospedam-se em hospitais cinco estrelas. Todos veem, menos os que financiam esses luxos.

Outro exemplo? Vejam o corno - ou a corna, antes que alguém reivindique isonomia. O que essa figura lendária presente na mitologia de todos os povos mais precisa enxergar? Exatamente o que todos veem e ele não.

Fica a lição de que toda vigilância é pouca. Há sempre o risco de desenvolvermos algum tipo de cegueira, mesmo com bons olhos.

Mas, desde que não se trate do público dever, cabe alguma tolerância. Alguma penumbra. Afinal, acuidade demais pode revelar além do que suportam a beleza e a felicidade.

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5 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Muito inventivo, Albir. Cadê meus óculos para eu dar uma investigada nas minhas cegueiras? :)

Zoraya disse...

Albir, bom demais do começo ao fim. Pena que muitas vezes nossos olhos vejam, mas a voz nao sai para gritar. E eu confesso que de vez em quando coloco óculos escuros, para andar meio ceguinha, cansada que estou de tanto ver os poucos que vêem já cansados.

Marisa Nascimento disse...

Ôxi, Albir! Quantas coisas escondidas sob o véu dos nossos olhos, né?

Bjs

Carla Dias disse...

Espero que as minhas cegueiras sejam espertas ao tatear escolhas. Ótimo texto, Albir. Esclarecedor...

albir disse...

Edu,
pra revisar tão bem é porque você enxerga muito.

Zoraya,
fica cansativo, né? Uns poucos tendo de enxergar o que os outros não querem ver.

Marisa,
pois é, além do que nossos olhos não alcançam, ainda existe o que de propósito lhes ocultam.


Carla,
sábia esperança. Não dianta mesmo querer enxergar tudo.