sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

HO HO HO >> Zoraya Cesar

Vamos nos afastar um pouco desse pessoal esbaforido? Da correria? Afinal, depois de todas as compras, cartões virtuais, sorrisos falsos, comilanças desenfreadas, frenesis, sabe o que resta? Presentes a serem trocados e a mesma vida medíocre e vazia a ser perpetuada.

Que tal sentarmos tranquilos e tomarmos um cálice de Bailey’s? Mozart? Ah, de Amarula, perfeito. Enquanto isso, deixemos esse pessoal todo comprando, comprando, a reclamar que o Natal é uma data “muito comercial e hipócrita”, pois “falam mal do Fulano o ano inteiro e no Natal ficam de sorrisinhos”. Sabemos, você e eu, aqui degustando nosso licorzinho, que aquele que mais reclama é justamente quem colabora para fazer dessa festa um inferno sazonal.

Cá entre nós, Natal não é época para entrar em shoppings – esses templos de adoração às horas perdidas –, enfrentar filas, percorrer ruas entupidas de pessoas que parecem ter saído das cavernas (ah, puxa, você também costuma empurrar, gritar, dar cotoveladas e se comportar como um Neanderthal? Foi mal, desculpe) e comprar presentes só para “fazer um social” com gente que não significa nada para você; adquirir o celular de última geração, cujos aplicativos você nem usa; substituir a geladeira que ainda funciona, mas que não é tão boa quanto a da vizinha; comprar uma televisão LCD 40 polegadas que vai deixá-lo grudado no sofá mais um dia inteiro da sua vida jogado fora.

Natal é ocasião para dar os presentes intangíveis e não os comprados em lojas. Por exemplo, dê seu perdão sincero - inclusive para você mesmo, que mania de ficar se martirizando por erros passados! -, deseje o bem a algum desafeto, receba aquela tia insuportável com caridade. Peça que seus convidados tragam presentes para o abrigo de velhinhos, de crianças, de animais. Esse é o tipo de presente que o aniversariante gostaria de receber. Engasgou? Levanta os braços. Sei, também você, como todo mundo, esqueceu do aniversariante.

O licor destrava um pouco a minha língua, e, mesmo temendo ferir corações sensíveis, devo dizer que não adianta chiar e resmungar, Natal é uma festividade religiosa sim, e só faz sentido se você lembrar disso. Do contrário, é tudo loucura.

Ah, mas você não tem religião e não acredita nessa baboseira toda? Tudo bem. Mais um motivo para não entrar nesse espírito consumista do qual você mesmo tanto reclama. 

Mas as crianças, elas gostam de presentes. Dê presentes para as crianças, oras. E aproveite para ensiná-las a doar os brinquedos antigos. Desapego é algo que todos devemos aprender (eu também, acredite). O que, você gosta de receber presentes? E eu, então? Gosto muitíssimo. Desde que seja por afeto e não por obrigação social.

Fique mais um pouco, o trânsito está horrível. Sim, você tem razão, Natal virou uma data muito comercial. Mas quem estava agora há pouco, antes de sentarmos aqui, comprando presentes para Deus e o mundo (ops, para Deus não, só para o mundo), mais um a participar dessa confusão, lojas repletas, engarrafamentos intermináveis, gente mal humorada, correria, contribuindo para esse mesmo caos do qual reclama?

Na verdade, Natal não é a época de trocar presentes como mercadores, comer feito ogros, beber como vikings e esquecer completamente o porquê da festa. E, como diz um amigo, também não é o aniversário de Papai Noel.

Vou me servir de mais um cálice, com sua licença. E afirmo que Natal não é sinônimo de hipocrisia, não senhor, não senhora. Se você tem de falar “Feliz Natal” para uma criatura insuportável (e ela é mesmo, concordo), lembre-se que uma criatura detestável é sempre um ser miserável e infeliz; tenha, portanto, a caridade (essa é a época ideal) de desejar-lhe verdadeiramente um advento cheio de amor, quem sabe é disso o que ela precisa. Também é difícil para mim, mas Natal é para isso mesmo, sermos melhores do que somos, transcender esses detalhes. Se desejarmos sinceramente, não estaremos sendo hipócritas. E se o outro só disser Feliz Natal da boca para fora... bem, problema dele, certo?

E, por fim, que já estou sentindo uma certa tontura, o licor estava muito bom, Natal é festa de aniversário. Dê o seu melhor em amizade, tolerância, caridade (lembra da tia chata? Pois é), isso está acima de qualquer crença. Dê tudo aquilo que você gostaria de receber.

E desejo a todos, todos mesmo (até à minha vizinha, que é mais detestável que aquela tia chata), um real, profundo e feliz Natal. Ho ho ho.

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7 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Tô contigo, Zoraya. Apenas trocando o licor pela cajuína. :) Feliz Natal!

albir disse...

Belo presente-crônica. Obrigado. Oportuna advertência. Se transformamos em fúteis os momentos que dizemos ser importantes, o que será do resto de nossa vida? Beijo.

Alexandre Durão disse...

Zoraya, querida. Belíssimo texto, a um só tempo terno e reflexivo. Adorei a idéia de um Natal de presentes intangíveis, mas, me permita, tornarei tangível sua crônica, impressa e guardada dentro de algum de meus livros queridos. Assim, nos anos futuros, poderei reler essas suas palavras e, quem sabe, serão outros os tempos, mais fraternos, solidários e compatíveis com a mensagem que veio com o Menino. Beijos e um Natal com a luz verdadeira.

Anonimus Nem Tantus disse...

Embora eu, enquanto lia sua aguda crítica – perdão, hic, quis dizer, crônica – sobre os insanos costumes desta época do ano, já tivesse bebido muito mais que você enquanto a escrevia, o pouco de juízo que me restou fez-me levantar alguns relevantes questionamentos, pois suas procedentes percepções acerca do espírito (de porco) natalino das pessoas crivaram-me de dúvidas, das quais pinço algumas para compartilhar com seus leitores fiéis.
Como você consegue beber, escrever e não trocar uma letrinha sequer em seu texto quase impecável? Papai Noel existe mesmo ou o Ho ho ho que tenho ouvido é crise esquizofrênica? Devo tirar minha tia chata de dentro do freezer antes, durante ou depois da noite de Natal? O que devo fazer com aquela Ferrari conversível intangível que eu ia te dar de presente no dia 25 por pura obrigação social?
Brincadeiras à parte, mesmo não tendo como seguir seu conselho de “dar tudo aquilo que eu gostaria de receber” (porque, como espírito imperfeitíssimo que sou, ainda não tenho tudo aquilo que eu gostaria de dar!), fica com a lembrança de que o próprio Cristo aniversariante já nos deu o presente maior: o exemplo das virtudes que, se seguirmos direitinho, um dia nos tornará dignos de sermos chamados verdadeiramente de seres Humanos.

Érica disse...

Belísssimo texto, Zozô! Belo e realista. Descreve perfeitamente o espírito do que deveria ser o Natal. Devo dizer que é impossível alcançarmos a perfeição que o espírito do Natal nos pede, mas se fizermos um pouco, uma coisinha que seja, conseguiremos juntos somar forças para que, grãozinho por grãozinho, se construa a paz, que é o bem maior a ser alcançado e é o que torna possível todas as outras coisas.
Feliz Natal!
Obrigda por sua amizade.
Um grande beijo!

Aretuza disse...

Hahah, ou melhor HO,Ho,HO Zoraya!
Eu tinah q ir no shopping comprar um desses presentes de última hora mas aí fui ficando, ficando, acabei tomando um vinho também,o dedinho de prosa estava muito bom.
Adorei!

Zoraya disse...

Eduardo, agora voce ficou me devendo um trago de cajuína. Nunca provei, mas se é à base de caju, então deve ser bom demais da conta.
Albir, sem palavras. Você resumiu um pilar de sabedoria: nao transformar em fútil o que é essencial. E obrigada pela delicadeza de sempre.
Alexandre, como retribuir o carinho e a "força" que você me dá em todos os seus comentários?
Anonimus, tire sua tia do freezer e a coloque para trabalhar com Papai Noel. Pode vender a ferrari e distribuir o dinheiro, eu nem sequer dirijo. E muito boa a sua lembrança, Cristo nos deu o exemplo e a vida. Gostei muito.
Erica, eu é quem agradeço muito. E é isso aí, fazendo a nossa parte e servindo de exemplo, já estamos ajudando.
Aretuza, espero que a pessoa que ficou sem o presente nao fique muito chateada. Fico feliz por você ter gostado do dedinho de prosa, mas o dedinho do licor tava melhor, nao?
Beijos natalinos a todos, que a festa da vida começa depois do nascimento.