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O JOGO >> Whisner Fraga


Essa época do ano é muito chata. É só o Natal se aproximar para que tudo fique lotado: as ruas, os cabeleireiros, as rodovias, os consultórios médicos, os correios, as papelarias e todos os demais poucos lugares que frequento. Sem falar da quantidade de gente bêbada que infesta o trânsito congestionado. Natal é tempo de enchentes, de desabamentos e de preparação para enfrentarmos a dengue. Não fosse a cidade iluminada, não sei se suportaria a data.

Quando era criança, parece que era diferente. Aguardava ansioso a chegada do vinte e cinco de dezembro, menos pela longa e enfadonha missa do galo, que nossos pais nos obrigavam a assistir, do que pelos inúmeros presentes que ganhava de todos os minguados parentes que apareciam em nossa casa. Contabilizando: uns dois brinquedos garantidos, o que era muito para um menino de classe média-baixa, acostumado aos apertos de cinto, tão conhecidos dos brasileiros.

Mas o assunto de hoje é um fato que ocorreu dois ou três dias antes de um Natal de 1984. Éramos pré-adolescentes e viciados em Bete. Não sei se é assim que se escreve e nem se esse é o nome oficial do jogo, mas vou tentar explicar como funciona. É um beisebol simplificado. Ou adaptado para nossa realidade orçamentária. Eram necessários quatro jogadores, ou duas equipes de dois meninos cada uma. Um time ficava com os tacos e o outro com a bola. O objetivo era proteger uma pequena lata de óleo dos ataques do adversário. Ou seja: um garoto, que ficava a uma distância de uns dez metros do rival, lançava a bola tentando derrubar a latinha. Os tacos, que chamávamos de “betes”, eram usados para rebater a bola, impedindo que a latinha caísse.

Todavia, essas rebatidas não eram inocentes, pois se a bola subisse demais, o oponente podia dar um “corisco”. Um corisco acontecia quando alguém acertava a bola e o oponente, antes que ela quicasse no chão, dava um toque, com as duas mãos, como se estivesse em uma partida de vôlei. Aí tudo se invertia: quem estava com os betes ia para a bola e quem estava com a bola ia para os betes. O time vencedor era aquele que conseguisse cruzar os betes mais vezes. Nossa, que complicado. O que é mesmo “cruzar os betes”? Bom, quem quiser saber, que recorra a um manual, pois esta crônica não é para explicar em detalhes as regras do Bete.

É sim para falar do que aconteceu em uma partida de Bete, numa véspera de Natal, numa avenida distante do bairro Junqueira, em Ituiutaba. A bola veio em direção à minha latinha, traiçoeira e, antes que ela derrubasse o alvo, consegui atingi-la de jeito. Foi uma bancada tão feroz que achei que a danada pararia no bairro vizinho. O incrível dessa história é que o João acreditou que poderia fazer um corisco e desandou a correr feito louco, mas sem tirar os olhos da bola, lá no alto. Acompanhávamos João com os olhos e ele diminuía cada vez mais. Corria, desesperado, até que sumiu. Assim, do nada. Sumiu. Ficamos preocupados e disparamos atrás dele. Ouvíamos seus gritos, distantes, mas não o achávamos. Nunca vi ninguém desaparecer daquele jeito. Minutos depois, descobrimos que ele havia caído em um bueiro. Arrumamos uma corda e o tiramos de lá, todo arranhado, mas feliz, muito feliz, com um sorriso incompreensível e uma euforia anormal. Foi aí que ele mostrou uma bola presa na mão direita e gritou: “corisco”!

Comentários

Uia! Adorei o texto nostalgia de uma época em que as crianças corriam com as pernas e não com as mãos ágeis num controle remoto.
albir disse…
O que são alguns arranhões diante de um "corisco"? Ótimo texto.
whisner disse…
Marisa, acho que o principal de brincar com a turma era o envolvimento, o calor humano. Hoje tudo se tornou mais virtual.
Albir, parece que todos perseguíamos o corisco e só aparecia um a cada três ou quatro jogos... Abraços!
Kika disse…
hahaha, adorei! adoro quando eu rio no final do texto!
beijos!

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