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A VOLTA >> Eduardo Loureiro Jr.

Meus pais tinham um fusca cor de caramelo. Na época, o uso do cinto de segurança não era obrigatório, e eu gostava de sentar na pontinha do banco de trás com o corpo projetado entre os bancos dianteiros. Meu pai dirigia. Minha mãe retirava uma das fitas do porta-K7 e a introduzia, chamativamente alaranjada, no toca-fitas. Roberto Carlos começava a cantar:

Eu cheguei em frente ao portão,
meu cachorro me sorriu, latindo,
minhas malas coloquei no chão,
eu voltei.

Eu não tinha mais que seis anos de idade, e era muito criança para entender a letra saudosista. Mas guardei aquela melodia, e aqueles versos, em algum lugar sagrado do meu pequeno coração, sem saber que me seriam úteis muitas vezes...

Partir é bom. Descobrimos lugares, conhecemos pessoas, vivemos histórias. Mas confesso a vocês que, para mim, a maior graça de partir é simplesmente propiciar a possibilidade de retorno. Talvez não seja por acaso que, muitas vezes, ao descobrir um lugar ou conhecer alguém, dizemos "parece que voltei para casa", "tenho a impressão de que nos conhecemos há muito tempo". As aventuras mais marcantes têm um certo quê de déjà vu. E por vezes aquilo que pensamos ser uma partida trata-se de um retorno desmemoriado.

Já voltei muitas vezes em minha vida: para a casa dos pais, para a namorada, para o trabalho, para a esposa, para os hobbies, para a religião, para os amigos, para este planeta, para certos hábitos. São voltas dentro de voltas numa grande espiral que ora se expande, ora se condensa.

Cada retorno nos oferece a possibilidade de renovar, ou não, a escolha. A volta é propícia para um novo começo ou é só uma despedida final antes de uma partida definitiva? São tantas as voltas que a vida dá que às vezes é difícil saber se estamos indo ou voltando, se estamos indo depois de voltar, se estamos voltando depois de ter ido. Os versos de Salomão, além de bonitos, parecem verdadeiros: "Aquilo que veio a ser é o que virá a ser; e o que se tem feito é o que se fará; de modo que não há nada de novo debaixo do sol".

Há quem prefira achar que está geralmente partindo, explodindo em big bangs. Eu não posso deixar de sentir que estou quase sempre voltando. Às vezes, com a sensação de que se trata do último retorno, mas apenas para descobrir que há algo ainda mais antigo para o qual retornar. O que parece ser o ponto de partida vai se transformando em destino de um início anterior.

Essas voltas todas, esses arrodeios de palavras, são só para dizer que estou voltando à escrita, aos domingos, ao Crônica do Dia, à companhia de escritores e leitores após cinco longuíssimas e revoltas semanas. Será possível um recomeço? Dois braços abertos me abraçarão como antigamente? Com passos indecisos, posiciono o mouse e pressiono o botão esquerdo sobre o botão chamativamente alaranjado: Publicar.

Comentários

Felipe disse…
E voltar é ainda melhor assim, quando tem alguém pra receber a gente. ;)
Regressas ainda mais brilhante. Bem vindo com esse talento todo de volta. paz e bem.
*Fê* disse…
adorei... Tbm ando sempre voltando...
Bjao Edu!!!
Eduardo, você não voltou, porque nunca partiu. Tenho certeza que, como eu, outros leitores estavam aqui à espreita procurando você. Então sua presença sempre esteve aqui e era só uma questão de tempo, muito para o meu gosto, diga-se. :)
Beijos
Marilza disse…
Que bom que você voltou! Voltou a escrever, porque, de certa forma, sempre esteve por aqui.Os retornos são sempre bons, até quando são ruins. Você volta com outra perspectiva, outra emoção, com outra intenção. Por vezes, a mesma: a de recordar, de manter, mesmo que por instantes, algo de bom que aconteceu. Fico feliz que esteja novamente por aqui!
Kr;)s disse…
__O__
"In bocca al lupo"!!!
Grato, meu amigo, por esse primeiro abraço de acolhida. :)

Devem ter me dado um polimento cristalizado nessas cinco semanas, Cacá. :)

Vamos voltando então, .

Marisa, bom saber que carinho também tem forma de espreita. :)

É, Marilza, ainda estou acostumando o olhar a essa "outra perspectiva".

Crepi il lupo, Kr;)s.
albir disse…
Junto minha voz a esse coro de boas-vindas. Parabéns pelo sucesso dos lançamentos. E não demore tanto nas próximas idas.
Zoraya disse…
Você voltou de maneira doce e suave, como sua presença.
Que "próximas idas", Albir?! Deixe-me quieto um pouquinho, homem. :)

Assim eu acredito, Zoraya. :)

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