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O SR. AMADAN NÃO VAI A BAILES. OU VAI? >> Zoraya Cesar

Uma pitada de fezes secas e moídas de salamandra. Pelos de rato do deserto. Baba de boi almiscarado. E, claro, vapores de pum de bode.
 
Perfeito. Tudo na medida certa, feito durante a Lua certa, preparado com esmero. Era, afinal, o Sr. Amadan, o melhor feiticeiro de poções da região. O único capaz de elaborar uma receita quase impossível: uma beberagem que favorecesse à Dona Kakerlakk ficar atraente o suficiente para o Baile Anual das Lagartixas Assanhadas.

O baile era famoso. As fêmeas da espécie entravam num tipo de frenesi. Quem não tinha parceiro ia na expectativa de arranjar um. Quem tinha, ia na expectativa de trocar por outro. O Baile Anual das Lagartixas Assanhadas era quase um escambo de parceiros. Divertidíssimo. Às vezes rolava baixaria total. Em uma das edições, roubaram uma das oito patas da Sra. Phoneutria Armadeira, bêbada de tropeçar,  e deixaram um graveto no lugar. De outra vez, aproveitaram para sequestrar o noivo da Miss Folhg’da, que dormitava esparramada no meio do salão. O tal noivo amanheceu casado com outra... Enfim, imperdível. 

E D. Kakerlakk? Qual seu interesse no baile? Qualquer um. Arranjar um acompanhante, para não chegar sozinha e derrotada. Ou sair de patinhas dadas com alguém. Um fantasma, um ectoplasma, uma assombração que fosse. E por que diabos ela precisaria de uma Poção Afetus Fugidius? (pela qual pagara uma pequena fortuna, aliás. O Sr. Amadan não era barateiro. Só usava matéria prima de primeira qualidade). Porque era uma chata de galocha. Ou de carocha. 

Tatatatatatatatataraneta da verdadeira D. Carochinha, a digníssima senhora esbravejava o orgulho de sua ascendência pra quem quisesse – ou não – ouvir. Era antipática e soberba. E amedrontadora: nada tinha da graciosidade de sua tata....taravó, delicada, mignon e francesinha. D Kakerlakk mais parecia uma barata cascuda, grande, voadora. E igualmente de maus bofes. Amarga, pois sequer um Dom João Ratão conseguira para jogar no fervente feijão...

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O Sr. Amadan não ia a bailes. Achava tudo muito cansativo e barulhento. Ademais, nunca podia, realmente, se divertir. Assim que o viam agarravam-se nele para falar de sintomas esquisitos, pedir consultas e opiniões. Consultoria grátis em festas não era sua ideia de diversão. Preferia os calmos encontros entre os de seu métier: feiticeiros, adivinhos, cartomantes... E mesmo esses, às vezes ‘davam ruim’. Mas isso fica para outra história. Importante era que ele não gostava de bailes. 

Mr. Stevenson compartilhava desses sentimentos. Como bom gato que era, também não apreciava barulhos e multidões. Mas era interesseiro (como bom gato...). E Mr. Stevenson, avesso que fosse a bailes, gostava do Baile das Lagartixas Assanhadas. Sempre havia lagartixas dando mole em alguma pedra ou árvore, modorrentas - pelo sol ou pelo ponche que bebiam, escondidas, na cozinha. Para ele, tanto fazia. As temperadas pelo sol, crocantes,  ou as encharcadas de ponche, suculentas.  

Ele não podia desperdiçar a oportunidade. Seu humano, o Sr. Amadan, tinha que ir ao baile – e o Sr. Amadan nunca ia a lugar algum sem levá-lo Mr. Stevenson subiu no telhado e lá ficou, espreguicento, lânguido, balançando o rabo em desenhos infinitos e elegantes. Esperaria o andar dos acontecimentos. Afinal, era um gato. As coisas sempre davam certo para ele. 

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O Sr. Amadan estava exausto. A poção exigia vigilância ininterrupta por 48 horas. Insone e faminto, já nem raciocinava direito. 

A cliente chegou, puxando – muito mal-educadamente, por sinal – a cauda da Gárgula Campainha, que gritou, estrepitosa e histérica assustando a vizinhança. 

D. Kakerlakk não esperou convite para entrar, e sem mesmo cumprimentar o dono da casa, foi logo  esbravejando:

- Cadê minha poção? É bom que ela funcione. Paguei uma fortuna. E lembre-se do sigilo profissional. Se alguém souber que eu, EU, a divina tatatata...taraneta legítima de D. Carochinha paguei por uma feitiçaria de Afetus Fugidius eu processo o senhor! Sou a tatatatatata...taraneta de D. Carochinha! Tenho uma imagem a zelar!

O discurso levou ainda bons maus minutos, porque era impossível interromper D. Kakerlakk. Ela só parava quando perdia o fôlego ou quando o interlocutor desmaiava de tédio. Felizmente, ela perdeu o fôlego. 

- Quero minha poção AGOOORAAA – gritou ela, sacudindo-se toda, a carapaça trêmula. 

Abalado pela enxurrada de palavras e perdigotos, o Sr. Amadan pegou a bendita poção e entregou à ansiosa demandante. Não menos ansiosa que ele, para se ver livre da inconveniente criatura. 

- Que sabor horrível? Eu paguei por issoooo? – bradou ela, ameaçando-o com o guarda-chuva roto que usava diuturnamente, até no banho...

Ele se assustou. Como assim, sabor horrível? E não fosse a vizinhança ouvir e espalhar a notícia que as poções dele eram ruins... Sem pensar, arrancou o copo das mãos dela e bebeu, ele mesmo, um bom gole, para experimentar o tal ‘sabor horrível’. 

Do telhado, Mr. Stevenson farejou a mudança dos ventos. Apressou-se a descer. Em qual encrenca aquele seu velho humano destrambelhado se metera dessa vez?

Simples. Enfeitiçados pela mesma poção, o Sr. Amadan e a coroca D. Karkelakk caíram nos braços um do outro e se comprometeram a ir ao baile juntos. 

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E assim foi, claro. Era o Sr. Amadan um feiticeiro de palavra. E, de qualquer modo, ainda estava preso ao próprio encantamento. (Mr. Stevenson poderia ter rapidamente dado um fim àquilo, mas, por motivos gastronômicos, resolveu aproveitar a oportunidade que Bastet, a deusa egípcia dos gatos, tão generosamente pusera em suas patas). 

O triunfo de D. Karkelakk em chegar acompanhada ao baile foi inegável. Só isso já teria valido o dinheiro gasto. Mas não parou por aí. O encantamento era realmente poderoso e caíam pretendentes no colo pegajoso e preguento da irascível descendente da legítima D. Carochinha. No mínimo ia sair casada daquele baile. 

E talvez fosse com o próprio Sr. Amadan, se Mr. Stevenson, já saciado pelas crocantes e suculentas lagartixas que encontrara, desapercebidas e inocentes, pelo jardim, não tivesse posto fim ao encantamento de seu humano com uma poderosa unhada na batata da perna  e uma patada dolorosa na orelha. 

Desperto, 'desencantado' e horrorizado, o Sr. Amadan tratou de escafeder-se dali na primeira vassoura-táxi que encontrou. 

Muita coisa aconteceu naquele Baile Anual das Lagartixas Assanhadas. Mas isso é outra história, que será contada tão logo eu tenha a certeza de que não serei processada pelos envolvidos nos escândalos.

Saibam apenas que, depois daquele episódio, o Sr. Amadan nunca mais entregou pessoalmente a tal Poção do Afetus Fugidius. Muito perigoso, dizia no Clube dos Fazedores de Poção. Muito gostoso, isso sim, refutava, em seus pensamentos, Mr. Stevenson, saudoso das lagartixas...  

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Outras aventuras do Sr. Amadan e do Gato Mr. Stevenson

Acredite em sua cartomante 
http://www.cronicadodia.com.br/2019/06/acredite-em-sua-cartomante-zoraya-cesar.html

Siga o seu horóscopo
http://www.cronicadodia.com.br/2018/06/siga-o-seu-horoscopo-zoraya-cesar.html

Curiosidades:
Nossa historinha infantil 'Quem quer casar com D. Baratinha, que tem fita na cabeça e dinheiro na caixinha", que acaba, infortunadamente, com a morte do marido Dom Ratão (por gulodice, quem manda?) é na verdade uma adaptação da mesma história, original de Portugal, onde 'carochinha', é 'baratinha'. 

Ah, e Karkelakk é 'barata' em norueguês. É chique essa família europeia. A família. O mesmo, como vimos, não pode ser falado de D. Karkelakk, a tatatatatata...raneta da legítima D. Carochinha.

Ah ah: A Sra. Phoneutria Armadeira tem esse nome em homenagem à Família Phoneuria nigriventer, antigo e tradicional clã de aranhas assassinas. Quem quer que tenha roubado uma de suas pernas e trocado por um graveto era, realmente, muito corajoso. Ou doido. Mas, enfim, de tudo acontece no Baile Anual das Lagartixas Assanhadas. 

Comentários

Ana Luzia disse…
Amei o nome do baile! Por favor, me avisa quando tiver outro, quero iiirrr!!!!
branco disse…
gostado e muito....mas (sempre deve haver um mas)..esse gato é um bom vilão, digamos hijo de la má madre, saborear lagartixinhas inocentes que estavam ansiosamente aguardando por uma noite agradavelmente diferente....quem nunca, hein???? quem nunca???? mr. stevenson, seu lado vil só é comparado a maquiavel. e tenho dito!
#lagartixalivesmatter
Marcio disse…
Zoraya, recomenda-se avisar, logo abaixo do título, que os leitores não devem ler o texto de barriga vazia. Transcrevo o início:
"Uma pitada de fezes secas e moídas de salamandra. Pelos de rato do deserto. Baba de boi almiscarado. E, claro, vapores de pum de bode."
Deu uma fome...
Érica disse…
Adorei a história da cabrochinha (o pai de uma grande amiga, que era espanhol, sempre trocava os nomes e eu nunca mais esqueci disso). Muito divertida a história da festinha. Você leva jeito para contos infantis, Zoraya.. história fofa, embora fedorenta e meio nojentinha kkk
Clarisse Pacheco disse…
Adorei o nome do baile, faz lembrar aquele dito "me joga na parede, me chama de lagartixa" rsrsrs
Albir disse…
Tenho medo de ficar preso para sempre num desses seus mundos.