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LOGAN >> Sergio Geia

 


Há crônica que mesmo antes de nascer já tem nome. A de hoje, por exemplo. Eu tenho uma tela em branco. No alto dessa tela, alinhado à esquerda, eu digito o título: Logan. Logan é o título da crônica de hoje. Não poderia ser outro. Mas título de crônica, convenhamos, não basta. Falta o principal. Vamos então dar vida a esse Logan que por enquanto debuta sozinho numa tela em branco. 
 
Logan é o personagem daquele filme. Mas não é desse Logan que a crônica trata. Ela trata, na verdade, do cachorro do meu vizinho aqui de baixo. É sobre ele que eu quero falar. O Logan. 
 
Espiar faz parte da vida de qualquer cronista. Pode ser na rua, na janela, na padaria, na praça, ou mesmo na sacada de um prédio. Moro no quarto andar. Vez em quando espio o que acontece lá embaixo. É claro que evito ficar espiando os vizinhos, cronista também tem escrúpulo. Mas o Logan eu espio, eu gosto dele. Desde o primeiro dia. 
 
Antes de sair para caminhar eu faço alongamento na sacada. O dia ainda nem tinha clareado. Alongava-me quando ouvi um latido novo. Logan me espiava. Se o cronista é quem espia, nesse dia Logan espiava o cronista. Continuei a esticar os braços, as pernas, e a cada movimento que fazia uma orelha de Logan se espetava. Vieram mais latidos. Xiu!, eu disse, e pus o dedo indicador na boca, vai acordar a família. Mas foi só nesse dia. Depois Logan se acostumou com o sujeito que se alonga na sacada. 
 
Logan é um agitador. É comum eu estar em minha mesa de trabalho e ouvir seus donos gritando Logan! Logan! Penso que deva estar a aprontar. Outro dia estava mesmo. Fora de sua casa, zanzava pelo quintal procurando traquinices. Vi que derrubou uma lata, que mordeu um sapato, que metia o focinho em coisas que não lhe diziam respeito. 
 
É fácil perceber que seus donos o adoram. A relação é carinhosa, Logan é da família. Como eram Princesa e Linda Bela, as minhas cachorrinhas de vida. 
 
Princesa era uma artista e, talvez, sua maior arte tenha sido amolecer a seriedade de meu pai. Ele esticava as pernas na mesinha de centro da sala. Princesa então pulava. Amoitava-se no conforto das longas pernas do meu pai. Quando isso não acontecia eu ouvia meu pai chamar Princesa!, Princesa!, ele sentia a sua falta. 
 
Linda Bela era um poodle. Branquinha e ardida. Era só a campainha tocar para ela subir as escadas desesperada, parando na porta, quase morria. Adorava tomar um banho e se enfeitar, parecia que sabia que estava arrasando. 
 
Hoje tenho Logan. Mas, como não sou dono dele, exerço um papel secundário. Eu fico aqui a me alegrar com suas traquinices, o trabalho de educação e cuidado, isso é por conta de meus vizinhos. 
 
Ontem fui à sacada, Logan tomava sol. O dia apenas começava, era o sol pálido da aurora. Logo me viu e ficou a me encarar. Eu a ele. De repente, sorri, Logan eriçou a orelha. Ficamos assim um tempo. Até que Logan se cansou. Esticou-se no cimento e dormiu. 
 
 
 
P.S.: No dia 05/11, quinta-feira, no Instagram do Crônica @cronicadodiaoficial, estarei batendo um papo ao vivo com a Nádia Coldebella. É o projeto Crônica Falada que já recebeu a Cristiana Moura e o Fred Fogaça. Espero você lá.

Comentários

Fran fatim disse…
Mais uma vez parabéns. Tenho um gatinho Sebastian. Parabéns.
Zoraya Cesar disse…
Quanta doçura, Sergio (ou Paulo??). um presente nos dias de hoje. Doçura pura.
sergio geia disse…
Grato, queridas Fran e Zoraya!